Tocando o seu coração, fazendo a revolução | Judão

Piratas do Rock é um filme pra se sentir, de peito aberto. Sobre rock, para rock, pelo rock. E com um elenco e uma trilha sonora que, bicho… <3

Um dos maiores charmes do rock and roll, quiçá O MAIOR, é como excelência técnica vira elemento secundário quando se tem personalidade, atitude e/ou um tesão palpável pela parada. É o que coloca bandas cruas como o Nirvana como ícones muito maiores que uns Dream Theatres da vida. Ou que permite a galera, até hoje, comparar os limitados Rolling Stones aos virtuosos Beatles.

Talvez seja isso, talvez seja só uma pré-disposição minha a amar tudo o que é relacionado ao estilo musical em questão, aos anos 1960 AND à Inglaterra, mas Os Piratas do Rock consegue transportar essa mágica para a sétima arte. Embora bem distante do que poderíamos chamar de excelente, taí um BAITA filme divertido.

Situado em 1966, ele conta a história de um jovem que é obrigado por sua mãe a se mudar para um enorme navio, de onde seu padrinho comanda uma rádio clandestina (porém ainda não ILEGAL) que transmite rock and roll e música pop do oceano à Terra da Rainha. Numa vibe que certamente vai te lembrar o já clássico Quase Famosos, o garoto se depara, lá, com um micro-cosmo de sexo e drogas, estabelece relações e vive insólitas ~aventuras ao lado dos nada convencionais DJs da estação. Existe um elemento de conflito apresentado depois, sobre o pai do garoto, mas esse está longe de ser o foco do filme, que tá justamente nos curiosos personagens que vivem dentro do navio, operando a ALCUNHADA Radio Rock – e nos mais que excelentes atores que dão vida a eles.

Como o principal DJ da estação, o saudoso Phillip Seymour Hoffman entrega mais uma de suas excelentíssimas atuações cômicas. No papel de seu arqui-rival, o Lagarto, Rhys Ifans, mostra como a Sony desperdiçou um gênio (quem lembra do cara em Um lugar Chamado Notting Hill? :D) num papel bosta dum filme OK. O sempre excelente Davy Jones, Bill Nighy, vive o padrinho do garoto e CEO da rádio, com Chris O’Dowd, Nick Frost e January Jones arredondando um elenco surreal de tão delicioso — sem falar no excelente antagonista de Kenneth Brannagh, um estressado e CAXIAS ministro, a serviço NÃO SECRETO de Sua Majestade. ;)

Os Piratas do Rock se preocupa muito mais em colocar o talento dessa galera e seus personagens cheios de características para brilhar em situações bizarras pontuais do que em estruturar um grande enredo. Como um filme de rock, embalado em rock, sobre a relação das pessoas com o rock, essa pegada mais solta orna lindamente, especialmente se tratando dos anos 60. Se você se permite embarcar na vibe do filme, você passa a estar lá, dentro do barco, com o jovem personagem de Tom Sturridge, garoto que também manda benzão.

O filme, porém, estica sua estada um pouco mais do que deveria, com mais de duas horas para contar uma história que, bem, não é exatamente uma HISTÓRIA, mas uma experiência. E, diferente de filmes bastante longos nessa pegada, como o recente drama Docinho da América, ele não traz lá novidades o suficiente pra fazer com que isso passe despercebido. Em certos momentos, a parada se arrasta um pouco. Mas sem nunca ASSASSINAR o andamento divertido da trama.

Ajuda muito que a brilhante trilha sonora licenciada do filme (que tem Hendrix, The Who, The Kinks e Bowie, SÓ PRA COMEÇAR) começa a reverberar e, casada a uma estética retrô divertidíssima do diretor Richard Curtis (do QUINTESSENCIAL, Simplesmente Amor e, olha só, roteirista de Notting Hill :D), te transporta a décadas passadas num looping de diversão do qual, aparentemente, elenco e equipe também partilharam.

ADEMAIS, o filme é uma excelente introdução à toda a cultura das rádios piratas, seja na Inglaterra, seja no mundo. Um movimento que começou justamente na década de 60, na casa de James Bond, como um manifesto do interesse popular por estilos musicais que o Estado (no caso, a rádio BBC) não julgava pertinentes para serem tocados.

Aproveitando brechas na lei que proibia rádios não-sancionadas pelo governo fora de TERRAS britânicas, os DJs que queriam tocar (e ouvir, claro, por que não? :D) um bom DETONA E ROLA partiram, de fato, para alto mar. Movimentaram milhares de ouvintes e milhões de libras de anunciantes que enxergaram seu potencial, mas foram ilegalizados rapidamente, em 1967, com uma nova lei. Ainda assim, mostraram sua força e fizeram a BBC se reinventar, criando as rádios BBC 1, BBC 2, BBC 3 e BBC 4, diversificando sua programação e seus estilos e até contratando muitos dos locutores piratas, veja só.

Mais do que isso, os britânicos desbravaram e popularizaram uma cultura que tomou o mundo e mostra-se forte até hoje, tanto lá quanto aqui no Brasil. Rádios não regularizadas pelo governo, em especial com os avanços tecnológicos, tornaram-se freqüentes na Inglaterra (mas em terra, mesmo) a partir do final dos anos 70, com picos nos anos 80 e 90 e mantendo-se ativas até hoje, especialmente em Londres (a mais icônica delas, Radio Caroline, é hoje uma rádio online que transmite 24h por dia). Já em TERRA BRASILIS, o boom rolou nos anos 80, mas a prática é altamente comum, especialmente em regiões periféricas, que anseiam por representatividade nos meios tradicionais de comunicação. O movimento inspirou até música do RPM, bicho! :D

Se você for um CONTEUDISTA radical, Os Piratas do Rock talvez não seja pra você. Esse é um filme que pincela referências históricas pra construir um universo fictício, e que se debruça nessa realidade alternativa para criar seus dramas, sem ir a fundo na problematização do que foi algo icônico na história da comunicação britânica – mas nunca desrespeitando sua essência.

Se houve um ponto em que a falta de excelência de Piratas do Rock pesou, foi na aceitação do público. Embora munido de muita paixão e ROQUE, o filme naufragou nas bilheterias inglesas AND norte-americanas, mesmo com uma tentativa dos produtores de adaptarem o material à terra do Tio Sam (cortando mais de 20 minutos e mudando o nome do filme de The Boat That Rocked para Pirate Radio – nhé!).

Piratas do Rock é um filme para se sentir, para fazer reacender a chama do rock no coração do espectador, com sua essência transgressora, popular e libertadora, numa história maluca sobre a resistência de outros malucos por amos a um estilo musical que, à sua época, só poderia parecer maluquice. Cada um deles, como canta Paulo Ricardo, preparado para “disputar em cada freqüência um espaço nosso”.

É um filme pra você preparar aquela pipoca, se afundar no sofá com o controle dum lado e aquela breja do outro, e declamar: “toquem o meu coração, façam a revolução que está no ar, nas ondas do rádio. No submundo repousa o repúdio – e deve despertar”.