Todos contra a lei Anti-Gay da Georgia | Judão

Disney, Marvel Studios e o canal AMC ameaçam boicotar o estado caso o projeto de lei se torne realidade – assim como a NFL, Coca-Cola, Apple…

HB 757. Essa é a sigla da polêmica, que denomina o projeto de lei do estado da Georgia, nos EUA, que está sendo chamado de “Free Exercise Protection Act” ou de “Pastor Protection Act”. Originalmente uma legislação que daria “segurança legal” para que pastores não aceitassem casamento de pessoas de mesmo sexo, o projeto teve seu escopo ampliado ao passar pelo Legislativo. Aprovado pelas duas casas do poder local, passou a englobar outros pontos, como, por exemplo, dar direito a “organizações baseadas na fé” a não servir qualquer um que viole suas “crenças religiosas”, além de se negar a alugar espaços para eventos que acreditem ser “censuráveis”.

Na prática, permite que uma igreja, escola religiosa, associação de igrejas ou qualquer empresa ligada a uma instituição dessas (como as duas maiores universidades privadas do estado, por exemplo) passe a tratar as pessoas de forma diferenciada, simplesmente levando em consideração o que elas acham que é “certo” ou “errado”. Aquele casal gay é uma afronta à sua religião, por exemplo? Então você pode colocá-lo pra fora da sala de aula.

Aprovada no último dia 17, a lei agora foi para as mãos do governador, o republicano Nathan Deal, que tem até o dia 3 de maio para sancionar ou vetar. Só que ele já tem, ironicamente, um enorme PEPINO nas mãos. Tudo porque grandes empresas – desde Google e Apple, chegando à gigante local Coca-Cola – estão pedindo que o governo exerça o seu poder de veto.

E, agora, essa disputa tá chegando em Hollywood.

The Walking Dead

Nos últimos anos, a Georgia se solidificou como um importante destino para a produção de filmes e séries. Em parte, por conta dos incentivos ficais, que somaram US$ 1,7 BILHÃO em 2015 — produções que gastam pelo menos 500 Mil dólares têm direito a 20% de abatimento nos impostos; se colocar o logo do estado nos créditos, ganha mais 10% — em parte por conta do clima e vegetação da região ser meio que um coringa, lembrando boa parte do Sul e parte do Meio Oeste. Por tudo isso, hoje o estado já é considerado o terceiro mais ativo nessa indústria, perdendo apenas para Califórnia e Nova York (aqui você encontra a lista de todos os filmes e séries que já foram ou estão sendo filmados por lá, só pra ter uma ideia).

A Marvel foi um dos estúdios que passou a gravar em Atlanta e em seus arredores. Ano passado Capitão América: Guerra Civil foi gravado lá e, no momento, estão rodando Guardiões da Galáxia Vol.2 no Pinewood Studios, que fica na região. Só que com essa lei...

“Disney e Marvel são companhias inclusivas, e mesmo que tenhamos tido uma experiência incrível filmando na Georgia, nós pretendemos levar os nossos negócios para qualquer outro lugar se qualquer legislação permitindo práticas discriminatórias seja incorporada à lei estadual”, afirmou um porta-voz do Mickey. Traduzindo: se a HB 757 se tornar a lei, Sr. Mouse pega suas malas e vai filmar em outro lugar.

E não é só o camundongo, não. A MPAA (Motion Picture Association of America) já disse oficialmente que espera que o governador não aprove o projeto. Apesar da mensagem não ser clara, dá pra ler nas entrelinhas que gravar na Georgia não vai mais ser bem visto ou indicado pela associação, caso a lei seja efetivada.

Você já deve ter visto isso nos créditos de The Walking Dead, né?

Você já deve ter visto isso nos créditos de The Walking Dead, né?

A Weistein Co e a Time Warner (HBO, Warner Bros., DC e Turner) também se manifestaram contra a lei. “A Weistein Company não vai ficará ao lado da discriminação das pessoas LGBT ou qualquer Americano”, afirmaram em nota oficial. “Temos planos de começar a gravar o novo filme de Lee Daniels no fim desse ano, na Georgia, mas mudaremos a produção se essa lei for sancionada. Esperamos que o Governador Deal vete a HB 757 e não permita que a intolerância seja lei”

“Na Time Warner, diversidade em todas as suas formas é a base do nosso sistema de valores e do sucesso dos nossos negócios. Nós nos opomos fortemente à linguagem discriminatória e intenção dessa lei, que claramente viola os princípios de inclusão e a possibilidade de todas as pessoas viverem e trabalharem sem nenhuma discriminação”

ATUALIZADO! “Em nome dos vários parceiros e colegas da 21st Century Fox que decidem filmar seus projetos no lindo estado da Georgia, estamos nos juntando à crescente coalisão de empresas no pedido para que o Governador Deal vete esta lei” diz o comunicado oficial da empresa que controla todos os canais, estúdios e publicações da Fox, surpreendentemente, até.

Quem também já mandou seu recado foi o canal AMC, responsável por The Walking Dead, também filmado na Georgia. “Como companhia, a AMC Networks acredita que discriminação de qualquer tipo é repreensível”.

O que o estado perderia com isso? No ano fiscal de 2013, foram 142 filmes e séries produzidos ou pós-produzidos por lá, com gastos diretos de US$ 940 Milhões. Além disso, são cerca de 23.000 empregos que geram cerca de US$ 1.3 Bilhão de salário — uma média de US$ 84.000 por funcionário. As perdas poderiam ser BEM impactantes.

A polêmica também já está invadindo o mundo esportivo. Roger Goodell, o comissário (presidente) da NFL, está agindo nos bastidores para que o projeto de lei seja vetado – inclusive, avisando que o grande sonho de ter o Super Bowl de 2019 em Atlanta pode virar pó. A cidade não recebe a final do campeonato de futebol americano desde 2000 e, nesse momento, eles estão construindo um estádio colossal, o Mercedes-Benz Stadium, que tem grandes chances de sediar a partida.

Vale dizer que o HB 757 não surgiu do nada. É reflexo de séculos de preconceito baseado em princípios religiosos. A sodomia – sexo entre pessoas do mesmo sexo, ou até mesmo certos tipos de ~relacionamentos entre heterossexuais – foi proibida por muito tempo em todos os Estados Unidos. No papel, a Georgia é um dos 13 estados que AINDA proíbe a sodomia (INCLUINDO sexo oral, mesmo que entre heteros), apesar da lei de 1918 ser considerada inválida pelo Judiciário do estado desde 1998 e, nacionalmente, desde 2003.

O critério para invalidar a lei? É simples: ela é inconstitucional. Afinal, a MAGNA CARTA do Tio Sam dá liberdade para os norte-americanos, e isso inclui decidir o que se faz dentro de quatro paredes.

A Georgia também é um dos estados que não possui qualquer lei local que garanta explicitamente a igualdade de direitos no que se refere à orientação sexual.

No ano passado, o estado de Indiana aprovou uma lei parecida com o HB 757 – que incentivou restaurantes locais, por exemplo, a se negar a servir casais homossexuais. Não demorou para a hashtag #boycottindiana surgir no Facebook e no twitter, incentivada por nomes como George Takei, além de organizações e outros estados anunciaram boicotes à Indiana. Pouco depois, uma emenda à lei foi aprovada, proibindo que a legislação fosse usada para discriminar gays, lésbicas e transgêneros.

Três dos quatro Jogos Vorazes foram filmados na Georgia

Três dos quatro Jogos Vorazes foram filmados na Georgia

O governador da Georgia sabe que, na atual conjuntura e depois de tanto investimento em cinema e TV, aprovar o “Pastor Protection Act” seria um desastre financeiro maior pro estado do que foi pra Indiana. Isso fora todos os eventos que Atlanta recebe, as empresas que estão sediadas lá e tudo mais. No começo de março, Nathan Deal já havia dito que barraria qualquer texto que permitisse descriminação para “proteger a fé das pessoas”. Resta saber se, agora, ele terá coragem de cumprir a promessa, além de ir contra muitos colegas do Partido Republicano.

Na “land of the free”, a pretensa liberdade de grupos tradicionais vira arma pra cercear a liberdade de quem, antes, nunca teve direito a ela. Por sorte, tem gente que sabe usar aquilo que mais importa aos norte-americanos, o CAPITALISMO, para tentar fazer o correto prevalecer.

Vamos ver no que dá.