A Torre Negra: até que, bom... | Judão

Adaptação da grande obra de Stephen King pode ter deixado os fãs pistola, mas funciona como filme fechado e entretenimento sem compromisso para o resto dos mortais

“Filme é filme, livro é livro. E vice-versa!”. Tá escrito lá na pedra dos Dez Mandamentos, no rodapé. Eu juro, pode procurar.

Com isso em mente, a minha primeira conclusão sobre a versão para as telas de A Torre Negra, um dos grandes clássicos de Stephen King, é que ela funciona muito bem em sua intenção de entretenimento pipoca descartável para uma tarde de sábado no cinema e como obra independente, com começo, meio e fim, sem a intenção de criar uma franquia interminável ou universo conectado, como vem acontecendo com praticamente todo o cinemão da cultura pop no momento.

É até atípico — e louvável — assistir a um filme nestes moldes.

Em contrapartida, talvez seja esse o calcanhar de Aquiles da produção, porque sobre a nítida impressão de que ficou faltando alguma coisa, resultando em um longa sem profundidade alguma ao apresentar todos os ricos aspectos daquele mundo fantástico e desenvolver seus personagens. Isso desemboca em um terceiro ato apressadíssimo, culminando numa série de atropelos, uma conclusão rápida e fácil demais, carecendo de mais tempo de exibição para um filme que condensa uma trama que demorou trinta e três anos para ser concluída em oito livros publicados. Talvez uma meia horinha a mais, ou um roteiro melhor escrito, tivesse contornado pelo menos em parte a problemática. ;)

Basicamente A Torre Negra se segura por conta de dois incríveis atores no elenco, o que garante o passatempo: Idris Elba como o Pistoleiro, Roland Deschain, último da linhagem de Eld, cuja missão era proteger a Torre Negra, estrutura que é o BASTIÃO de um multiverso, responsável por impedir a entrada das forças das trevas, que abandona sua altruísta tarefa em busca de vingança contra Walter, o Homem de Preto, interpretado por Matthew McConaughey, o cara que dizimou todos os Pistoleiros, inclusive o pai de Roland, e rapta crianças com poderes mediúnicos para extrair sua capacidade PSICOCINÉTICA pra então destruir a Torre e jogar todas as dimensões em um mundo sombrio governado pelo próprio.

Dois puta atores vivendo dois puta personagens, só que sem o mínimo de complexidade ou aproximação com o espectador.

Mas se A Torre Negra não tem (ou prefere fingir que não tem) interesse em se tornar uma franquia e tenta resolver tudo rapidão num filme solo, ele funciona, e muito bem, dentro de um “universo expandido” do Mestre do Terror, conectado com diversos elementos de outras obras. Essas referências vão muito além dos vários easter eggs espalhados (daquele que deixam os fãs do escritor em polvorosa), e criam uma verdadeira conexão com suas histórias, tendo o caso de Jake Chambers como o mais gritante, já que seu poder é o mesmo que um tal Danny Torrance demonstrou possuir durante sua estada em um certo hotel de veraneio no Colorado, apesar da comida de bola federal da legendagem em traduzir SHINE como TOQUE.

O melhor é que nada disso parece oportunista e forçado, querendo surfar na onda do momento, como outros dois recentes universos do horror que pipocaram por aí nos últimos meses, uma vez que desde sempre King trouxe em seus livros esses elementos de interconectividade narrativa, ligando personagens, locais e situações. E com a proximidade da estreia da primeira parte de It – A Coisa, é bem certo que esse universo referencial seja cada vez mais utilizado e conectado.

Mas não é isso que define um bom filme.

No fim das contas, A Torre Negra é uma diversão mediana, um blockbuster menor, visualmente interessante, com uma baita falha de ritmo mas sem muitas pretensões, que pode agradar aquele sujeito que procura por uma sessão de cinema sem esperar lá grande coisa. O que também tá valendo, né? :)