A tortuosa jornada de Janis Joplin nos cinemas | Judão

Ícone feminino máximo do rock, cantora finalmente ganha uma produção cinematográfica – mas calma que, por enquanto, ainda é um documentário

Há mais de uma década, Hollywood vem tentando obsessivamente transformar em realidade um filme sobre Janis Joplin – deusa do rock com uma pitada de blues/soul, integrante do infame “clube dos 27” e inspiração suprema de nomes como Amy Winehouse (sim, por uma série de motivos, musicais e não-musicais, não existiria Amy sem Janis). Mas todos estes projetos têm dado com os burros n’água, enfrentando um sem-números de enroscos judiciais e PEPINOS com atrizes e diretores. Sabe aquela história de maldição, as típicas superstições que a indústria do cinema adora? Bem isso. Virou até piada no 30 Rock, imagina.

Mas enfim, em 2015, um destes projetos acabou vendo a luz do dia. E foi justamente aquele no qual as pessoas apostavam menos: Janis – Little Girl Blue, documentário da diretora Amy Berg. A cineasta é muito mais conhecida por sua abordagem poderosa para temas espinhosos, como o o abuso sexual na Igreja em Livrai-nos do Mal (2006), os casos de estupro de menores no meio do cinema-pipoca de Hollywood em An Open Secret (2014) ou ainda uma outra versão para um assassinato que comoveu os EUA em West of Memphis (2012). Por que, então, ela se interessaria por contar a história de uma cantora? Bom, porque a história de Janis está longe de ser uma história “simples”.

“Bem, estou tentando fazer este filme desde 2007”, revelou Berg, em entrevista concedida ao The Wrap. “Sim, ela teve um final bem trágico, mas viveu ao máximo cada dia de sua vida. Ela viveu conflitos que teriam mexido com qualquer pessoa no lugar dela: ter deixado a família para trás no sul, ter se deparado com uma fama crescendo muito mais do que esperava... Ela sempre tentou manter um equilíbrio. (…) Janis era uma mulher sensacional, que rompeu fronteiras para as mulheres em seu meio. E a música que ela fazia era incrível”.

Janis

Nascida na pequena Port Arthur, no Texas, Janis Lyn Joplin passou a infância bebendo da fonte de mestras do blues como Bessie Smith. Rapidamente, foi cultivando uma atitude bastante rebelde para a sociedade conservadora da época, tornando-se uma espécie de pária na cidade. Tão interessada em música quanto em drogas, vestiu a carapuça de renegada e partiu rumo a destinos menos “caretas”, desembarcando numa San Francisco tomada pelo movimento hippie. Conheceu os caras da banda Big Brother and the Holding Company, com quem começaria a tocar – e que, com sua ascensão violenta, acabaram se tornando uma espécie de banda de apoio. Depois de lançar apenas quatro discos, morreu de uma overdose de heroína, em 1970. Ela tinha, como Hendrix, Morrison, Cobain e Amy, apenas 27 anos.

Exibido no recente circuito dos festivais internacionais, passando por Veneza e Toronto, Janis – Little Girl Blue (primeiro documentário sobre a cantora desde Janis, de 1974, indicado ao Globo de Ouro), ganhou a simpatia do público e da imprensa especializada. “Embora não seja inovador em sua execução, o filme oferece o olhar que a cantora merecia sobre sua carreira brilhante”, diz a Variety. Diferente do recente Amy, que se debruçou sobre horas de material íntimo e pessoal da cantora, aqui o foco acabou sendo mesmo mais tradicional, nas imagens de arquivo e nas entrevistas com músicos contemporâneos, artistas diretamente influenciados por ela, executivos de gravadoras e, claro, familiares.

“Sabe, existem muitas coisas a respeito de se fazer um filme sobre alguém do mundo da música que o tornam mais difícil do que as pessoas imaginam”, revela Berg. “Custa muito dinheiro licenciar estas cenas antigas, e tem todo o processo de revirar os arquivos de muitas pessoas diferentes para encontrar o que você realmente procura. Temos 35 músicas no filme, é preciso negociar os direitos de cada uma. Além disso, o irmão e a irmã de Janis são bem preciosistas com relação ao legado dela, embora eles tenham me ajudado bastante no processo”.

Amy Adams

Amy Adams

Outros projetos a respeito da vida da cantora, no entanto, não estão exatamente em situação tão simples assim. O mais conhecido deles é Get It While You Can, cinebiografia baseada no roteiro de Ron Terry (um ex-produtor musical que afirma ter cruzado com Janis em algum momento, pela vida, e que já foi produtor executivo de um filme para TV sobre a vida de Jimi Hendrix) e sua esposa, Teresa Kounin Terry.

Depois de mais de uma década de desenvolvimento, tudo estava fechado para que as filmagens começassem na segunda metade de 2015. O diretor seria Jean-Marc Vallée (Clube de Compras Dallas) – um cargo que já esteve nas mãos de Lee Daniels (O Mordomo da Casa Branca), Catherine Hardwick (Crepúsculo) e até do brasileiro Fernando Meirelles. No papel principal, a nossa atual Lois Lane, Amy Adams.

Perceba, caro leitor, que a frase “tudo estava fechado para que as filmagens começassem” foi colocada no passado, certo? Pois é. Tudo mudou no começo deste ano, quando a produtora LKL Productions, ao lado de uma empresa suíça chamada Silver Reel, entrou com um processo contra Terry. O motivo? Eles tinham pagado, em agosto de 2014, cerca de US$ 117000 pelos direitos exclusivos do roteiro – e não ficaram nem um pouco satisfeitos ao descobrir que o roteirista/produtor andava por Hollywood com o texto debaixo do braço tentando encontrar quem quisesse bancá-lo (depois de, teoricamente, ter recusado propostas da Fox Searchlight e da Lakeshore Entertainment por “não honrarem o legado de Janis”).

Mas Terry se defende. Diz que o combo Silver Reel/LKL não seguiu com suas obrigações contratuais e não tornou o filme uma realidade dentro do prazo previsto. “Bobeou, dançou”, diria o roteirista, caso brasileiro fosse. Junte a isso uma mal-amarrada cláusula que dava conta que as duas empresas teriam que dar um jeito no empréstimo de mais de US$ 1,7 milhão que Terry tinha com o fundo de investimentos Chesterton Capitol e...é, isso mesmo, a pendência ainda corre na Justiça americana. Adivinha só? Isso torna os planos de uma cinebiografia da Rainha do Rock n’ Roll ainda mais distantes.

Bette Middler em A Rosa

Bette Middler em A Rosa

Só que a obsessão pela vida de Janis não é exclusividade de Terry. O produtor Peter Newman vem tentando, também há cerca de 15 anos, fazer o seu Joplin ver a luz do dia, baseado no roteiro de David Dalton, jornalista da revista Rolling Stone. As notícias mais recentes dão conta de que o desconhecido Sean Durkin estaria escalado para a cadeira de diretor, enquanto Nina Arianda (vencedora do Tony e conhecida de quem curte séries como a Molly Graham da recentemente cancelada Hannibal) ocuparia a vaga de protagonista. Mas, historicamente, Joplin já teve como confirmadas no papel principal estrelas como a cantora Pink, Zooey Deschanel e Lili Taylor (American Crime). Mas, até o momento, nada de mais novo como “quando começa a rodar”.

E se a gente te contar ainda que, lá pelos idos de 2003, existiu ainda um TERCEIRO projeto, batizado de Piece Of My Heart, no qual Renee Zellweger estava confirmadíssima para viver a Janis... mas que acabou morrendo no meio do caminho (pelo menos aparentemente) por uma indefinição com relação ao roteiro. Neste filme em particular, além de Zellweger, nomes como Melissa Etheridge, Courtney Love e a falecida Brittany Murphy tinham sido cogitados para incorporar a musa roqueira.

Vale lembrar ainda que um filme chegou a se basear na vida de Janis, embora sem usar oficialmente o seu nome: A Rosa, de 1979, com Bette Midler no papel principal de Mary Rose Foster, uma cantora que acabou se tornando maior do que a vida.

E, pelo jeito, maior do que o cinema também. Será que, no fim das contas, esta é uma forma da própria Janis dizer que, nas telonas, a única capaz de interpretar uma estrela de tamanha intensidade seja ela mesma? A conferir.