Tragedy: uma mistura de metal com Bee Gees mais cômica do que trágica | Judão

Em entrevista exclusiva para o JUDÃO, grupo norte-americano que ficou conhecido com versão metálica para canção de Grease fala sobre plumas, paetês, couro, tachinhas – e preconceito

“Mas ei, esta ideia imbecil é na verdade sensacional!”. É desta forma que Mo’Royce Peterson, vocalista e guitarrista da banda Tragedy, descreve o momento em que ele e os colegas músicos decidiram que iam levar a parada adiante e realmente a sério (na medida do possível, claro). Para entender do que se trata o conceito desta empreitada musical, basta ler o subtítulo que os caras carregam com eles: All Metal Tribute to the Bee Gees and Beyond. Claríssimo, né? Versões heavy metal para canções dos Bee Gees e da era disco. Ka-boom.

Tudo começou com uma brincadeira, na verdade. Em 2007, um produtor de shows procurou os sujeitos, todos veteranos da cena musical em Nova York, para montarem uma performance de abertura para o Super Diamond – que é uma banda-tributo ao cantor Neil Diamond. Aliás, uma baita banda, daquelas imensas, com uma estrutura profissionalíssima, provando que esta coisa de “bandas cover” é um mercado bem diferente nos EUA.

“Aí tivemos a ideia do conceito de misturar Bee Gees com heavy metal – e à medida em que começamos a trabalhar nas músicas e tocar ao vivo, rolou um estalo de que daria certo, criativamente e com as plateias”, conta Mo’Royce, que bateu um papo exclusivo com o JUDÃO. O nome da banda, Tragedy, é inspirado na canção de mesmo nome dos Bee Gees, e foi obviamente escolhido por carregar todo o aspecto dramático-teatral que os sujeitos queriam.

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Recentemente, o quinteto teve uma agradável surpresa ao descobrir que sua versão para You’re The One That I Want (do filme Grease) se tornou um inesperado hit – enquanto seus vídeos no YouTube têm geralmente uma média de 100.000 visualizações no total, o clipe que recria o dueto entre Danny (John Travolta) e Sandy (Olivia Newton-John) numa ambientação tipicamente hard rock farofa registrou estes números em apenas um dia. “Tem sido incrível ver o vírus do Tragedy se espalhando. Normalmente, sabemos que temos uma base de fãs rolando na Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos. Mas agora, wow!”, brinca. “É surpreendente e ao mesmo tempo engraçado ver algo que fazemos atingindo uma audiência de massa”.

Inspirados por Mötley Crüe, Judas Priest, Iron Maiden, Loverboy, Bee Gees, Earth Wind & Fire e “todo mundo que use figurinos colados, brilhantes e tenha toneladas de atitude”, o que era pra ser apenas uma dobradinha de shows em um único final de semana está chegando atualmente à sua 11a turnê internacional, cumprindo datas na Inglaterra. Este ano, acabam de lançar The Solo Albums, seu quarto disco de estúdio, inspirados nos discos solo de cada um dos integrantes que os caras do Kiss fizeram em 1978. Antes disso, já tinham colocado na rua os discos We Rock Sweet Balls and Can Do No Wrong (2008), Humbled By Our Greatness (2011) e Death To False Disco-Metal (2013) – que, a cada álbum, ia entrando mais no aspecto “beyond” de seu subtítulo, fazendo versões de outros nomes da disco music além dos Bee Gees.

A trajetória bem-sucedida do Tragedy tem apenas um ponto delicado, na verdade. Porque nós sabemos muito bem que o público que consome heavy metal não é, necessariamente, aquele mais interessado em misturas do seu gênero amado e idolatrado com outras produções pop. Que o digam os comentários no Blabbermouth.net, um dos maiores sites do planeta a respeito do cenário metálico, justamente na matéria do vídeo de You’re The One That I Want. “Porcaria”, diz um. “Vergonhoso”, afirma outro. “Conseguiram fazer a música original, que já era ruim, ficar ainda pior”, dispara um terceiro, indignado.

Mo’Royce, no entanto, trata a questão com bom humor. “Claro, sempre vão aparecer os haters. E eu sinto muito por eles, por alguém que não consegue apreciar a brilhante máquina de entretenimento roqueiro que é o Tragedy”, afirma, chutando a modéstia para escanteio. “Se você é um metalhead com algum senso de humor, certeza que vai amar esta banda”. Ele relembra todas as performances do Tragedy em diversos festivais dedicados ao rock pesado, como os britânicos Guilfest, Bloodstock e Hammerfest e o germânico Summer Breeze, nos quais sempre foram muito bem-recebidos – mesmo quando apresentavam o seu polêmico (e genial) mix de It’s Raining Men com Raining Blood, clássico do Slayer. “É ótimo ver as pessoas batendo cabeça com It’s Raining Men ou Night Fever, por exemplo”.

A última coisa que eles querem, no entanto, é ser enxergados apenas como uma banda de comédia como o Spinal Tap – que, na verdade, não é uma banda, mas sim um conceito criado para um filme. “Somos uma banda que pode fazer você rir, mas você consegue sentir e curtir o rock rolando de verdade. O Tap é simplesmente sobre a comédia. O Tragedy faz rock pra valer E é engraçado pra valer”. Faz sentido? :D

“Sabe, este negócio é mais difícil do que parece”, analisa o músico. “Algumas lendas do metal tentaram fazer versões metálicas dos Bee Gees e meio que ficou uma bosta, tipo o Ozzy cantando Stayin’ Alive. Somente o Tragedy faz isso do jeito certo. Crianças, não tentem isso em casa!”, finaliza, às gargalhadas.