A trilogia sangrenta do Slayer vai se expandir nos gibis | Judão

A trinca de clipes sobre a jornada de vingança e redenção de um homem com um tapa-olho na cara (e que não é o Nick Fury) vai se tornar uma minissérie a ser publicada pela Dark Horse

As letras do Slayer sempre puderam, de um jeito ou de outro, ser lidas como boas e ameaçadoras histórias de terror, do tipo que daria uma daquelas graphic novels adultas demoníacas, com sangue pra todos os lados e Deus sendo desafiado com um dedo bem no meio do nariz (alguém aí falou Preacher?). Logo, chega a ser surpreendente que estes verdadeiros titãs do thrash metal tenham demorado tanto pra chegar no mundo dos quadrinhos, depois de muitas outras bandas que não necessariamente combinam tanto assim.

Este equívoco será corrigido a partir de janeiro, quando a Dark Horse Comics lança o primeiro número de Slayer: Repentless, minissérie em três partes inspirada na trama da trilogia de videoclipes do álbum de mesmo nome. Com roteiro de Jon Schnepp, a arte é de Guiu Vilanova (Twilight Zone), com capas do premiado artista britânico Glenn Fabry (De qual gibi? Alguém aí falou... Preacher?).

Vale lembrar que o roteirista não é exatamente um estranho no ninho quando o assunto é heavy metal: o cara já tinha dirigido a série animada do Avenged Sevenfold baseada no disco Hail To The King, além do clipe da faixa Downfall, do Exodus – por uma destas coincidências cósmicas, a banda original de Gary Holt, atual guitarrista do Slayer.

Slayer

“Alguns anos atrás, eu estava dirigindo e produzindo a animação Metalocalypse para o Adult Swim”, explica ele, falando a respeito da série sobre a banda Dethklok, em entrevista para o PREVIEWSworld. Sempre um proclamado nerd dos quadrinhos, ele achou um caminho natural que as aventuras dos bangers do Dethklok virassem também uma HQ, pra Dark Horse. O gibi foi um sucesso: saiu, esgotou, saiu em capa dura, esgotou.

“Aí, tive a chance de bater um papo com Chris Warner, editor da revista (e metalhead de carteirinha) sobre uma ideia de clipe que eu tinha pros caras do Cannibal Corpse. Acho que isso ficou na cabeça dele porque, pouco depois, ele entrou em contato perguntando se eu estava interessado em escrever uma HQ do Slayer”. A resposta? HELLYEAH! :D

Com total reverência, se referindo aos caras do Slayer como os “Godfathers of Thrash Metal”, o escritor conta que a coisa mais importante neste trabalho será permanecer verdadeiro a este DNA no mundo dos quadrinhos. “A música deles sempre desafiou barreiras, falando sem medo de temas que atormentam a humanidade em cada cultura desde o início dos tempos. Raspar o verniz que cobre a superfície da vida e olhar para o vazio, é isso que o Slayer sempre fez”.

A história vai expandir a trama que liga os três clipes do grupo lançados este ano, todos dirigidos por BJ McDonnell (do horroroso Terror no Pântano 3). O primeiro, da faixa-titulo, começa com uma rebelião na cadeia. Um misterioso homem de tapa-olho (vivido pelo ator de filmes B Jason Trost) aproveita o ataque de fúria vindo de todos os lados para dar cabo de um rival. Meses depois, sairia o vídeo de You Against You, a prequência que rola uma semana antes dos fatos ocorridos em Repentless, com muitos tiros e facadas. E para completar, veio Pride In Prejudice, que rola depois do clipe 1 e ajuda a completar a história intensa e brutal de um ex-neonazista que deixa a sua vida anterior de lado depois de apaixonar por uma mulher negra... mas acaba sendo perseguido pelas consequências de seu passado. Ele está fugindo de seus antigos aliados que, finalmente, descobrem onde ele está.

“Esta é uma história sangrenta de terror, que lida com horrores modernos como preconceito, racismo e violência. Temos famílias destruídas pelo ódio e esta história cobre um pouco disso com consequências brutais, dentro da realidade cruel do mundo do Slayer”, analisa Schnepp. Ele garante que corpos ensanguentados surgem já a partir da primeira página e cada morte tem uma consequência, cada ação uma reação e cada personagem tem seu propósito. “A contagem de corpos é alta e isso se deve às decisões horríveis tomadas por cada um dos personagens envolvidos”.

Ao lado do amigo Trost, McDonnell vinha trabalhando em um projeto para a amiga Felissa Rose, produtora que estava trazendo de volta a clássica Carolco Pictures (produtora dos três filmes do Rambo e de outros ícones como O Exterminador do Futuro 2 e O Vingador do Futuro, que tinha pedido falência em 1995). Mas, no meio do caminho, ela disse, quase casualmente: “ei, você sabia que o Slayer quer fazer um clipe para o disco novo deles? Por que não manda uma proposta?”. O cineasta voltou pra casa, ouviu a música e pirou: como fã da banda, logo teve uma ideia que conversa perfeitamente com todo o universo conceitual do quarteto. “Eu tava de saco cheio de vídeos de bandas com os caras tocando em galpões abandonados”.

A gente também, cara. :D

slayer_02No entanto, em entrevista ao site da Blumhouse, McDonnell confessa que jamais imaginou que a parada fosse virar uma trilogia, porque tudo começou como um roteiro sobre um cara na prisão que começa uma rebelião para que ele possa atingir o seu objetivo e depois volta para a sua cela, como se nada tivesse acontecido.

Era um conceito simples mas, já que a indústria musical não tem mais que se preocupar com enviar clipes bonitinhos para a MTV e afins, o projeto não teria censura alguma e então poderia ser tão explosivo e violento quanto eles sonhassem. A gravadora curtiu, a banda adorou, e logo o diretor foi convocado para fazer mais alguma coisa dentro do mesmo conceito. “Escrevi a prequência e a sequência, um mais com cara de filme de ação, o outro mais dramático, e gravamos simultaneamente.”

O diretor, que construiu uma carreira prévia como operador de câmera em filmes como Vingadores: Era de Ultron e Jack Reacher: O Último Tiro, aproveitou a chance para reunir na frente e por trás das câmeras um monte de amigos.

Do Machete em pessoa, Danny Trejo, passando por Tony Moran (o jovem Michael Myers no Halloween original), Derek Mears (o Moloch da série Sleepy Hollow), Tyler Mane (o Michael Myers do Halloween de Rob Zombie), Sean Whalen (Halloween II) e Vernon Wells (Mad Max II), até chegar no coordenador de dublês Don Lee (Star Trek: Sem Fronteiras) e na dupla de artistas de efeitos visuais, Tony Gardner e Adrienne Lynn (Zumbilândia). “Não é mais legal trabalhar ao lado dos seus amigos? Todo mundo se refere a este trabalho como sendo um pequeno filme de terror, nada mais justo do que ter um monte de rostos conhecidos do mundo do terror”.

O ponto de partida, as músicas, também facilitam tanto o trabalho do diretor dos clipes quanto do roteirista dos gibis. Afinal, conforme explica para a revista Rolling Stone, Kerry King, guitarrista e principal compositor do Slayer, sempre escreve as músicas como se estivesse escrevendo histórias e, justamente por isso, elas carregam um forte elemento visual. Só que o músico admite que nunca foi exatamente um fã de gibis. “Eu tenho alguns guardados, de quando eu era muito jovem, e mais alguns do começo dos anos 90, quando eu voltei a colecionar junto com umas coisas relacionadas a esportes. Mas eu eu amo filmes baseados em HQs, como X-Men, Os Vingadores, Homem de Ferro, Thor, porque eles sempre são muito foda”. Repare que ele só mencionou produção da Marvel, cof, cof. ;)

Schnepp descreve a história do homem do tapa-olho (que, finalmente, deve ganhar um nome) como se fosse um road movie de horror, que se espalha por muitos estados. Mas deixa claro que não tem nada de místico ou sobrenatural. “É uma história de terror bem humana, do tipo irmão contra irmão”, afirma Schnepp. “É estranho ter este material em mãos porque, quando eu cheguei com a ideia da trama, há uns 3 meses e meio, jamais podia imaginar que os EUA estivessem partidos ao meio discutindo os temas sobre os quais estou escrevendo. São mesmo assuntos bem sensíveis que precisam ser explorados e discutidos. Qual seria a melhor maneira de fazê-lo? Usando o caos do metal”.

Pra ele, o metal e os gibis sempre andaram de mãos dadas, especialmente nos campos da ficção científica, da fantasia e do horror — e tanto os leitores de quadrinhos quanto os ouvintes de heay metal sempre abraçaram aquilo que está fora dos padrões. “Eu ouvi Slayer sem parar enquanto escrevia os três números e achei a experiência energizante ao longo da madrugada. Sugiro que você ouça as músicas deles em alto e bom som enquanto lê para obter o máximo efeito de cérebro derretendo”.

Enquanto isso, do ooooooooutro lado do negócio, McDonnell revela que a história de vingança pode ganhar ainda mais desdobramentos. Porque, além de estar negociando com a Nuclear Blast, gravadora do Slayer, a respeito de uma versão do vídeo que reúna os três e, quem sabe, coloque sequências em animação para unir os segmentos, o cinema pode estar igualmente nos planos. “Quem sabe? Tá rolando até um papo de transformar isso em filme, com trilha dos caras do Slayer, claro, para que a gente se aprofunde ainda mais no personagem do Jason. Veremos. Tudo é possível”.

Ficou curiosa? Colocamos aqui abaixo os três clipes, em sua ordem cronológica, pra você ir entrando no clima: