Trinta contra um(a): você é macho pra encarar? | Judão

Não é o fim do mundo. Só está um pouco tarde.

“Como pode existir um homem com tantas convicções inegociáveis, com tanto arrojo e determinação em uma era de tantas incertezas?

Há uma arrogância de quinta no macho alfa. Desconfio de tal criatura e de sua leonina juba.

Esse caçador é caça”

Peguei Os Machões Dançaram (2015), livro do Xico Sá que ganhei dos meus pais no Natal, autografado e tudo, de onde tirei as aspas que começam esse texto, pra fugir da mala onda. Gravações mal apuradas, juízes corrompidos, mídia escrota, presidente decorativo dando chilique, vexame internacional, todos esses trocadalhos com a palavra “temer”, enfim, foram arrematados com a cereja do bolo de um estupro coletivo a céu aberto em pleno Rio de Janeiro, que deus, que deve estar escondido em algum canto abraçado aos machões das más igrejas, o tenha.

Isso, no entanto, não basta. Há ainda mais crueldade sem requintes. Tem vídeos e fotos da mina sendo estuprada por 33 boçais correndo as redes sociais. Para deprimir ainda mais, mesmo com as provas espalhadas por todo canto, a imprensa escreve “suposto estupro” nas manchetes e títulos de matérias. Segundo a avó dela, foi um ato de vingança do ex-namorado ciumento. A baixaria é pesada, a covardia saiu do armário e desovou sua truculência em cima da moça.

Sabe, cara, a garota que foi atropelada por essa tristeza tem 16 anos. Eu tenho três sobrinhas de 17, uma de 18. Ah, sim, a vítima tem um filhinho de três. Minha irmã teve filho com 17, eu fui padrinho dele aos 13. O que quero dizer com isso é que essa menina é da nossa família, é uma das mulheres que criaram a gente, ou as que a gente vê crescer. É nossa amiga. É nossa namorada. É nossa esposa. É nossa paixão de adolescência. É nossa irmã. É nossa mãe. É nossa filha. É uma de nós. É você.

Contra Censura, pela Cultura

A real é que ela é também uma das dezenas de mulheres estupradas naquele dia no país, porque essa é a média brasileira. Uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Faça as contas, se tiver estômago. A cultura machista daqui, que assim como o racismo e a luta de classes ficaram escondidos por séculos atrás daquela lorota de que nossa nação é tolerante, igualitária e cordial, não permite que elas tenham paz mesmo depois de passar pelo pior. Há relatos de juízes que perguntam se as violentadas tentaram fechar as pernas durante o ato, se elas estavam sozinhas à noite, como se vestiam antes do crime e mais disparates desse nível.

Precisamos jogar limpo uns com os outros. Nosso verdadeiro país tem coisas incríveis como o Carnaval e a zoeira em geral, mas também tem sido, ao longo das décadas, o do estupro como correção da mulher bêbada, da adúltera, da lésbica, o país que mais mata trans no mundo, dos presídios lotados de pretos, o país do governo exclusivamente masculino, da República do Viagra, onde uma presidente, goste-se ou não de seu governo, teve sua imagem destruída por uma mídia acostumada a ditar as regras e seu cargo arrancado por velhotes viciados em mamar nas nossas tetas, sob os gritos de “puta”, “vaca” e desejos que ela tivesse morrido na tortura da ditadura militar.

Marcha das Mulheres Negras (MG)

No discurso da direita, dos conservadores, dos cristão fundamentalistas, está a nossa aniquilação. A morte ou o silêncio das mulheres, dos LGBTs, dos pretos, da militância, dos movimentos sociais, o escárnio sobre os artistas.

Não há diálogo possível com quem prega esse tipo de coisa, e a gente sabe quem são: os machões, principalmente os brancos de classe média. Nós, que fomos criados para ser isso. Os donos da bola, na ideia furada original. Pois bem, éramos.

O fim dessa existência caralhocêntrica é uma razão e tanto para a gente se esforçar da hora que acorda até capotar na cama. É pela vida das mulheres. É pela vida da Malu, de três anos, e da Mariana, de seis. Então, é pela gente também, por tudo que ainda podemos ser de bom.

Acreditem, meus amores, não é o fim do mundo. Só está um pouco tarde.