Trump ajuda a gente a conhecer mais do disco secreto do Wu-Tang Clan | Judão

Comprado por US$ 2 milhões pelo chamado “homem mais odiado da América”, o álbum com dono único tem pequenos trechos de suas faixas divulgados na internet como promessa pela vitória do novo presidente

Imagina só você ter a chance de ser a ÚNICA pessoa da face da Terra a ter, na coleção, aquele disco da sua banda favorita. Um disco que nunca foi divulgado, secreto, cujas músicas jamais foram ouvidas por ninguém. Não tocaram em rádio, não tão no Spotify e nem no Deezer, não existem em MP3. Só você e os músicos conhecem o conteúdo. Além do fato de você ser totalmente odiado por uma leva de fanáticos pelos caras, talvez seja meio chato só você ser capaz de cantar junto aquele refrão em específico na hora da faxina ou lavando a louça, né.

Enquanto você fica pensando aí se, no papel de um milionário com muita bala na agulha pra comprar este álbum exclusivo, não ia tocar o foda-se e jogar as músicas todas na internet mesmo assim, saiba que esta foi exatamente a ideia do combo nova-iorquino Wu-Tang Clan, um dos mais importantes nomes do rap norte-americano.

Uma única cópia de um disco único, a ser leiloada publicamente pelo maior valor possível. Acabou se tornando o disco mais caro/raro da história, do tipo que deixou para trás, segundo o Guinness Book, até os acetatos dos Quarrymen, a banda pré-Beatles de John, Paul e George.

Wu Tang Clan - Once Upon A Time In Shaolin

Tratado até o momento como o disco final da banda, Once Upon a Time in Shaolin traz as participações de RZA, Method Man, Raekwon, Ghostface Killah, Ol’ Dirty Bastard, GZA, Masta Killa, U-God e Inspectah Deck. O álbum duplo, com 31 faixas, demorou seis anos para ficar pronto. Prensado em 2014, foi mantido em segurança máxima em um cofre no Royal Mansour Hotel, na cidade marroquina de Marrakech.

Mas não ache que ele vem numa caixinha de acrílico genérica: na verdade, os discos tão dentro de uma caixa luxuosa de prata e níquel revestida de couro e feita à mão pelo artista plástico Yahya. Além dos discos, vem um livreto de 174 páginas contendo as letras, os créditos, curiosidades de produção e piadinhas de bastidores – tudo impresso num manuscrito dourado da marca Fedrigoni Marina. Para escutar o álbum, tá tranquilo, basta colocar o par de fones de ouvido de altíssima resolução que custam algo em torno de US$ 50.000.

Em novembro do ano passado, a casa de leilões Paddle8 anunciou misteriosamente que a iniciativa estava encerrada e o disco tinha sido oficialmente vendido por “alguns milhões”, mas nunca se pronunciou sobre o nome do comprador e nem sobre a quantia que ele pagou depois de meses de negociações contratuais. Boatos diziam, inclusive, que Quentin Tarantino, amigo pessoal do vocalista RZA, tinha desembolsado a grana. Quando a caixa misteriosa apareceu no clipe de Fuck That, música do produtor de música eletrônica Skrillex, muita gente apostou que ele é que tinha adquirido o item raríssimo.

Porém, um artigo da Bloomberg, citando fontes muito próximas do acordo, mencionou o nome do empresário Martin Shkreli e o valor de US$ 2 milhões pela primeira vez. Mas um detalhe importante: não importando a grana, o comprador do álbum não poderia compartilhá-lo com ninguém por exatos 88 anos. Portanto, como o material foi adquirido em 2015, ele só poderia ser lançado comercialmente de fato em 2103. Sim, não tem erro de digitação aqui: o ano é 2103 mesmo. Qualquer outra tentativa pode ser considerada uma infração de direitos autorais.

“Inicialmente, queríamos que o comprador pudesse fazer o que bem entendesse com o disco”, afirmou o produtor Tarik Azzougarh, mais conhecido como Cilvaringz, em comunicado oficial quando a Paddle8 revelou a possibilidade de compra ao mundo. “Mas aí a gente percebeu o tanto de interesse comercial que existia nele e entendemos que deixar que ele fosse tocado de qualquer jeito e distribuído de qualquer maneira diminuiria a sua trajetória como obra de arte. Comercialização e replicação em massa diluiriam o status do álbum e comprometeriam a integridade da nossa declaração de intenção”.

Já RZA, um dos líderes da banda, lembrou que a escolha do 88 não é aleatória. “Quem conhece o Wu-Tang Clan sabe que sempre usamos numerologia e simbolismos em tudo que fazemos. Éramos oito integrantes originais quando gravamos os primeiros singles. Some os números de 2015 (ano em que o álbum secreto foi lançado) e dá 8. Vire o número 8 de lado e se torna o símbolo do infinito, como usamos no disco Wu-Tang Forever. A casa de leilões tem 8 no nome. Pode chamar de coincidência matemática, mas este número sempre foi simbólico pra gente. Nada que envolva este disco tem relação com ganhos no curto prazo, mas sim com legado musical. Este é um registro dos melhores MCs fazendo o que eles fazem de melhor. Toda esta energia capturada em dois discos e colocada em uma caixa. Isso é arte”.

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Method Man, seu parceiro de banda, não concorda com a estratégia. Falando com o XXL, ele revela que curtiu no começo a coisa de ser um disco exclusivo, vendido para uma única pessoa. Mas a parada de ter um prazo de 88 anos para ser divulgado publicamente tirou o cara do sério. “Foda-se este álbum. Tô cansado desta merda e sei que tá todo mundo cansado também”, diz, numa óbvia cutucada ao parceiro de banda RZA, que sempre foi o líder do Wu-Tang. “Quando música não pode mais ser música e se torna uma outra coisa, foda-se. Deixa as pessoas ouvirem isso. Se eles quiserem ouvir, deixa ouvir. Libera de graça. Não vai deixar ninguém mais rico ou mais pobre. Parem de ficar brincando com o público, cara”.

Importante lembrar que a ideia de ser um disco com uma única cópia na história não é nova. Em 1983, Jean-Michel Jarre foi convidado a criar a música-ambiente da exibição Orrinbe Show, organizada por Georges Orrimbe, trazendo trabalhos de jovens artistas e com um tema que remetia à estética dos supermercados. Aí ele gravou o disco Musique pour Supermarché, que tocava sem parar na galeria Jean-Claude Riedel. Inspirado pelo fato de que todas as obras de arte seriam leiloadas ao final da exposição, Jarre decidiu que uma única cópia do álbum seria prensada e igualmente leiloada. Quando a exibição acabou, o músico destruiu todas as fitas master para garantir que aquela seria DE FATO a única cópia existente no mundo. Segundo consta, o Wu-Tang Clan teria feito a mesma coisa, mesmo que quase vinte anos depois, num mundo menos analógico e mais digital.

De qualquer forma, discordâncias artísticas à parte, na real o grande problema aqui é MESMO a pessoa que botou a mão no bolso para comprar a cópia única de Once Upon a Time in Shaolin. Porque estamos falando de Martin Shkreli, batizado pela imprensa dos EUA como “homem mais odiado da América”.

O título inglório não veio para Shkreli por conta de sua aquisição musical. A treta é ainda pior: em setembro de 2015, a companhia farmacêutica que o cara fundou, a Turing Pharmaceuticals, adquiriu os direitos do Daraprim, medicamento usado para o tratamento da toxoplasmose, infecção parasitária é um problema gravíssimo tanto para crianças quanto para portadores do vírus HIV. Pois bem, eis que a Turing aumentou, do dia pra noite, o preço do Daraprim de US$ 13,50 para US$ 750. Sim, um aumento de 5.000%.

Obviamente, todo mundo caiu matando na decisão, e Shkreli deixaria convenientemente o cargo de executivo-chefe após ser detido pelo FBI sob acusações de fraude quando dirigiu sua primeira empresa biofarmacêutica, a Retrophin. “O que as pessoas esquecem quando falam sobre este assunto é: eu estava fazendo o que fui contratado pra fazer”, afirmou ele, em entrevista ao LA Times, sobre seu papel como CEO da empresa. “É como alguém criticar um jogador de beisebol por fazer muitos pontos na partida”. É, CARA, É MESMO IGUALZINHO, TÁ BEM CORRETO.

Para a Bloomberg, o próprio Shkreli disse que estava preocupado que a banda não quisesse fechar negócio com o disco justamente por conta do escândalo do remédio. “A coisa toda acabou ficando numa pegada do tipo: queremos mesmo dizer que é ele o comprador? Eles estavam bem preocupados com os próprios traseiros”. Em um comunicado, os músicos deixaram claro que a venda foi executada antes da revelação da suprema escrotidão de Shkreli como CEO e, portanto, eles manteriam a sua palavra.

Mesmo assim, Ghostface Killah, um dos fundadores do Wu-Tang, não teve papas na língua e criticou publicamente Shkreli. “Shithead”, resumiu o músico, ao TMZ. “Ele deveria liberar este disco para o público”. Para tentar dar uma, digamos, aliviada na situação toda, o grupo anunciou, assim que descobriu qual era identidade a do comprador, que uma “grande parte” dos lucros obtidos com a venda do álbum único foram doados para instituições de caridade como Children’s Literacy Society, Hip Hop Chess Federation e o TTAC, focado em descobrir tratamentos alternativos para o câncer.

Mas eis que, graças ao Donald Trump, a história de Once Upon a Time in Shaolin ganhou recentemente um novo capítulo.

Originalmente, Martin era um apoiador ferrenho da indicação de Bernie Sanders pelo partido democrata, por mais que o senador não tenha aceitado a sua doação de campanha no valor de US$ 2.700, o máximo permitido para uma pessoa física. Quando Hillary foi escolhida para a disputa pela Casa Branca, o sujeito então ficou puto da vida. Disparou um monte de mensagens enfurecidas contra ela – uma das personalidades políticas que mais criticou publicamente o aumento do Daraprim – e prometeu que, se Trump fosse eleito, liberaria algumas das canções inéditas que tinha em mãos, incluindo material dos Beatles, do Nirvana, dos Ramones...e o tão cobiçado álbum secreto do Wu-Tang Clan. “O que vocês querem primeiro?”. Claro que a sua mais valiosa carta na manga chamou toda a atenção.

Depois que Trump foi eleito (“uma vitória fantástica”, descreveu o milionário), Shkreli apareceu em seus perfis no Periscope e no Hitbox e começou tocando a introdução do álbum. “Devo lançar estas músicas com o passar de um longo período de tempo. Mas deixa eu tocar um pouco aqui”. Aí, ele foi mandando um tantinho do disco mas num esquema beeeeeeeeeem picareta, como música de fundo, enquanto ele ia fazendo comentários e contando que ainda vai decidir como mostrar outros pedaços das faixas.

“Eu tenho um contrato com o Wu-Tang Clan que não me permite fazer isso. Obviamente, sou o dono da música, paguei por ela e foi bastante. De muitas formas, este contrato não deveria valer tanto assim. Eu sou um homem de palavra, então eu teria que tocar um pouquinho disso”.

Foram cerca de duas horas de transmissão, sendo que efetivamente apenas DUAS músicas acabaram sendo tocadas. No restante do tempo, lá estava ele fazendo graça e dedilhando sua guitarra, enquanto músicas conhecidas e já previamente lançadas de outros artistas rolavam no aparelho de som.

O ricaço não se importa nem com as críticas dos músicos e tampouco com o ódio de seus fãs. “No fim do dia, eles não compraram nem o álbum anterior da banda e nem aquele que saiu antes deste. E tudo que eles tinham que fazer era desembolsar US$ 10. Vão reclamar de mim?”.

Mas, em um papo com o site especializado HipHopDx, mostrou um pouco de irritação com as declarações recentes de integrantes da banda, que afirmaram ter interesse em reaver o disco. “Se eu desembolso 2 milhões e dou na sua mão, me mostre um pouco de respeito. Pelo menos tenha a decência de ficar em silêncio ou de dizer algo como ‘sem comentários’”.