RESENHA! Turismo Macabro, série da Netflix

Turismo Macabro tá bem longe de ser um vlog de viagem mostrando alguns lugares bizarros da Terra, se tornando uma série tão interessante quanto necessária (caso você consiga aceitar os mais diversos gatilhos contido em cada um dos seus oito episódios)

Você já ouviu falar, se bobear até já fez, das excursões que levam as pessoas para o local onde crimes famosos aconteceram. Tem em Los Angeles, tem em Nova York, tem em um monte de cidade nos EUA. É algo famoso e, de certa maneira, absolutamente corriqueiro.

Tem ainda aquela galera que faz a mesma coisa por cemitérios famosos, da Consolação aqui em São Paulo, passando pela Recoleta em Buenos Aires, aos mais diversos locais de ~descanso eterno em Londres, Nova York, Los Angeles e sabe-se lá mais onde.

É isso o que me vem à mente quando ouço a expressão “turismo macabro”: o ato de visitar lugares diretamente ligados à coisas ruins ou bizarras que aconteceram com outras pessoas. E foi precisamente isso que me fez começar assistir a Turismo Macabro, um interesse bastante mórbido sobre os locais que as pessoas visitam pelo mundo e para os quais eu muito provavelmente jamais iria.

“Eu sou um jornalista neozelandês” começa, em quase todos os episódios, David Harrier, o... jornalista neozelandês que viaja o mundo atrás dessas coisas bizarras e transformou a brincadeira em série documental do Netflix. “Sempre fui atraído pelo lado bizarro da vida” continua ele. “Então decidi investigar o turismo sombrio, um fenômeno global em que as pessoas evitam o comum. Vão passar férias em zonas de guerra, locais de desastres e outros destinos excêntricos. Eu me interesso pelo louco, macabro e mórbido. Eu viajo pelo mundo, em busca de experiências de turismo sombrio”.

A primeira parada de todas, em Medellin, na Colômbia, é bem o que se espera desse tipo de turismo, mostrando excursões relacionadas a Pablo Escobar, com direito a um motorista de táxi que faz cosplay do cara e ainda finge que toda aquela corrida tem alguma coisa relacionada a uma fuga ou qualquer coisa desse tipo; mas não demora muito para que Turismo Macabro se torne algo completamente diferente, que passa a focar muito mais na natureza humana — e em sua degradação, muitas vezes ainda mais explícita justamente por conta do turismo muitas vezes promovido por pessoas que sentem algum tipo de prazer nessa coisa horrenda.

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Ainda em Medellin, Harrier é levado para La Catedral, a prisão construída pelo próprio Escobar como parte de um acordo com o governo colombiano pra que não fosse extraditado para os EUA. Isso por si só é de fato uma ideia interessante de Turismo Macabro: a questão é que a tour é guiada por John Jairo Velásquez, o Popeye, um dos principais CAPANGAS de El Patron (a quem ele chama de Deus) responsável pela morte de 300 pessoas (incluindo uma namorada), sequestro de diversas outras (incluindo políticos), planejamento de 200 ataques com carros-bomba e outras 3000 mortes.

Popeye ficou preso até 2014, quando foi solto e, veja só a ironia da coisa, virou YouTuber, com mais de 780.000 inscritos no seu canal. Ele posta vídeos em que, essencialmente, relembra seus tempos ao lado de Pablo Escobar, fala sobre corrupção, faz ataques a políticos de esquerda (não, qualquer semelhança aqui não é mera coincidência) e realiza algumas encenações que talvez sejam realistas DEMAIS.

É realmente perturbador ver tudo o que o cara faz e diz (em Maio desse ano, depois de ameaçar um candidato a presidência e seus eleitores, Popeye foi preso novamente) e, principalmente, o que alguns outros “turistas macabros” afirmam estar fazendo ali. Deixa de ser uma ideia de exploração de lugares e culturas, se torna uma lupa sobre tudo aquilo que um humano está disposto a fazer, por dinheiro, fama ou seja lá o que for — algo que se repete em diversos outros episódios, como os que mostram um fã e um amigo de Charles Manson; as excursões e teorias de conspiração sobre o assassinato de JFK (com direito a uma atriz que precisa interpretar Jacqueline Kennedy o tempo todo); a floresta de Aokigahara, no Japão, conhecida pela enorme quantidade de suicídios realizados lá dentro mas que, em Turismo Macabro, mostra toda uma questão sobrenatural; a seita racista que aguarda o dia em que os negros cometerão um genocídio contra os brancos na África do Sul; o lago formado por explosões atômicas onde o pessoal nada e pesca; as pessoas que bebem o sangue uma das outras; e o lugar onde pode se pagar pra atirar em animais vivos.

Há também as demonstrações de tudo que os governos podem fazer de pior, como a insistência de que os testes nucleares no Cazaquistão não fizeram mal nenhum à pessoas (e a verdade é bem chocante), os planos para que a província de Fukushima volte a ser habitada mesmo que absolutamente insegura, os bilhões de dólares gastos sem razão aparente em locais que nem sequer podem ser visitados, fronteiras e cidades proibidas.

Coisas absolutamente não macabras (pelo menos pra quem é daquela cultura) também são mostradas, quase sempre ligadas à morte e espíritos — La Santa Muerte, os funerais na Indonésia, festival Vodu no Benin... Algumas são realmente pesadas, pra poucos. Mas é a cultura daquelas pessoas.

David Harrier e Popeye

Não é surpresa nenhuma uma série do Netflix parecer e ser vendida como uma coisa e ser outra diferente. A questão é que, com Turismo Macabro, o que se consegue é algo muito mais interessante. Deixa de ser um vlog de viagem, se torna um documentário sobre as esquinas mais profundas da natureza humana — e tudo com imagens ridiculamente bonitas e uma edição incrivelmente boa, agregando ainda mais valor à produção.

Não é aquela série que você assiste por pura diversão. Me lembrou a vez em que, numa excursão no México, fomos “obrigados” a participar de uma cerimônia Maya, realizada muito mais pra angariar algum dinheiro dos turistas americanos maravilhados com aquelas danças e pajelança do que por algum motivo mais... espiritualmente nobre.

Durante os oito episódios de Turismo Macabro minha ansiedade foi constantemente atacada, especialmente durante o segundo, que se passa no Japão. Mas eu simplesmente não conseguia parar de assistir. Se não tinha de sair de casa ou fazer alguma coisa, era um após o outro, cada vez mais enfiado dentro do sofá, e não por conta dos lugares mostrados.

Não foi nenhuma surpresa, mas só precisei de um fim de semana pra ficar realmente exausto com tudo o que a humanidade pode e escolhe (não) fazer. É um lembrete bastante importante.