Um Bom Dinossauro e os limões que a vida nos dá | Judão

Não é fácil crescer, enfrentar o mundo – e a história de Arlo pode nos mostrar um pouco sobe como vencer isso, inclusive nos bastidores

E se o meteoro que EXTINGUIU os dinossauros não tivesse atingido a Terra e eles tivessem convivido com os homens? Essa é a premissa de O Bom Dinossauro, novo filme da Pixar que estreia aqui no Brasil nesta quinta (7). Nesse mundo imaginário, no qual os dinos evoluíram pra seres mais inteligentes, acaba surgindo uma amizade improvável, entre o APATOSSAURO Arlo e um garoto das cavernas, chamado Spot.

Uma sinopse simples, mas que esconde o que é O Bom Dinossauro, em diversas camadas. Pra começar, essa não foi uma produção muito fácil. O projeto foi anunciado na Disney D23 Expo de 2011 como um filme sobre dinossauros idealizado por Bob Peterson (co-diretor de Up) e que contava com a colaboração do animador Peter Sohn, de Os Incríveis e Procurando Nemo. A estreia estava prevista pra 27 de Novembro de 2013.

Peterson saiu do projeto, deixando tudo nas mãos de Sohn – que já tinha sido alçado a co-diretor pouco antes – algo que ele só tinha feito num curta-metragem, chamado Parcialmente Nublado. No cargo de produtor também houve mudanças: saiu John Walker e entrou Denise Ream, também de Up e de Carros.

Tempos depois, o THR apontou os problemas enfrentados pelo presidente da Walt Disney Animation, John Lesseter, dentro da Pixar – e afirmou que a saída de Peterson tinha acontecido porque o diretor não conseguia chegar a um terceiro ato satisfatório para a história. Mas a realidade vai além disso.

O Bom Dinossauro

“Desde o momento que trocou o diretor, há dois anos, basicamente tudo teve que ser refeito”, contou Sohn em entrevista exclusiva do JUDÃO em dezembro, quando veio ao Brasil divulgar o filme. “Quando chegamos, basicamente paramos a produção e fomos focar na história. Ninguém fez nada até sabermos o que queríamos fazer. E aí começamos com o departamento de arte em 2014 e, como o Peter falou, recomeçamos do zero”, afirmou Denise Ream durante a mesma entrevista.

Ou seja, tudo o que tinha sido feito antes foi, de uma forma ou de outra, repensado – e não só o terceiro ato. Isso incluiu aquilo que já tinha sido apresentado pela mesma dupla na D23 Expo de 2013, justamente no meio desse período de transição e quando Peterson ainda era creditado como co-diretor do longa.

Não só o elenco de dubladores revelado naquele evento foi modificado, como também elementos da própria história. Por exemplo, Sohn havia comentado que Arlo conheceria Spot ao procurar insetos pra sua própria ~coleção. Só que o filme finalizado entrega um enredo mais elaborado, com todo um relacionamento entre Arlo e o pai para construir esse posterior encontro com Spot e a saída pelo mundo dos dois protagonistas. Mais Disney, impossível. “[Antes] Era sobre transformar o dinossauro no garoto e o garoto no cachorro”, disse Sohn ao JUDÃO. “Quando eu entrei, vim com essa ideia sobre sobrevivência e como ensinar o Arlo sobre o mundo”.

Denise Ream e Peter Sohn

Denise Ream e Peter Sohn

Quando a produção foi finalmente reiniciada, o prazo tinha ficado apertado. “Nós tivemos um tempo curto e fizemos várias mudanças de rumo, chegando na história de um determinado jeito e vendo o que não parecia certo e como estava quebrado, tentando voltar e encontrar outras formas para contar a história” conta Sohn. Nesse processo, o diretor afirma que o filme era visto e revisto a cada cinco semanas, num processo mais curto que o habitual, pra acompanhar essa evolução. “Sim, nós tivemos que trabalhar muito rapidamente, mas, por sorte, sempre tivemos uma boa progressão. Há normalmente altos e baixos nesse processo mas, como estávamos fazendo exibições internas de forma tão frequente, estávamos sempre fazendo avanços, algo que inspirou a todos nós”, completa Denise.

Ainda assim, a Pixar foi obrigada a adiar O Bom Dinossauro e ficou sem filme em 2014 — desde 2003 a empresa lançava pelo menos um longa-metragem por ano. Pra piorar, a produção foi encaixada no calendário apenas seis meses depois da estreia de Divertida Mente e seis meses antes do mega aguardado Procurando Dory. Tá aí um desafio complicado pra qualquer um, já que as comparações vão estar frescas na mente da galera. Imagina então pra um filme que teve que ser refeito em apenas dois anos – quando o normalmente são quatro – e com um diretor estreante?

O Bom Dinossauro

O Bom Dinossauro entrega uma história sobre uma amizade improvável, de como seres tão diferentes podem encontrar pontos em comum entre si e, assim, amadurecerem com essa amizade. Esse lance de amigos, inclusive, vai além da presença do Spot. Arlo tem um relacionamento lindo com o pai, nessa coisa de sempre subir o nível, dos pais exigirem mais dos filhos porque sabem que eles são capazes. E tem os T-rex, que mostram que podemos ter o apoio e a ajuda daqueles que, num primeiro momento, parecem improváveis.

Sim, lembra um pouco Divertida Mente nessa coisa de passagem, de crescimento – mas lá era tipo um estudo das emoções e de como aceitar a Tristeza para poder crescer. Aqui, a coisa é mais pé-no-chão, mais infantil, até.

Não quer dizer, claro, que os adultos não vão se empolgar. Além de uma história interessante (que, ok, em certos momentos traz um déjà vu de O Rei Leão), o filme alcança um grau de realismo incrível nos backgrounds e cenários. Tem horas que parece que você está lá no meio dos PRIMÓRDIOS do homem na Terra, algo que deve empolgar os fãs de animação ou quem é apenas curioso e fica EMBASBACADO com o nível que as coisas chegaram.

THE GOOD DINOSAUR

“Nós usamos muito dos mapas geográficos para pesquisa”, contou Denise. “Quando eu e o Peter fomos para o Wyoming, percebemos que queríamos realmente ilustrar a vastidão da paisagem. No Wyoming podiam ser encontrados [no passado] diversos dinossauros, então quisemos destacar o fato de que até eles podem se sentir pequenos”. O estado QUADRADO no mapa dos Estados Unidos possui diversos cânions e montanhas – cerca de dois terços do território de lá é coberto por esse tipo de ACIDENTE GEOGRÁFICO que, certamente, faria qualquer dino se sentir insignificante.

O mundo é grande, sim. Ele assusta, seja você um garoto das cavernas, um dinossauro que se perdeu da família ou um animador renomado que vê cair no seu colo a direção do próximo grande filme da Pixar. Só que, pra todos eles, a amizade, o companheirismo e o trabalho em equipe podem ajudar a superar a qualquer barreira. E O Bom Dinossauro consegue mostrar isso de diversas maneiras. ;)