Um disco e duas Anittas | JUDAO.com.br

A gente até pensou em só publicar esta resenha daqui uns três meses, mas aí…

Olha só, quem acompanha o JUDAO.com.br há algum tempo sabe que a gente gosta da Anitta. De verdade. Desde 2014, quando rolou aquela história entre ela e a Pitty e publicamos um texto sobre enxergar além da casca, a gente falou um monte sobre ela. Sobre como ela foi a grande protagonista do último Rock in Rio sem nem ter estado lá. Sobre foi como foi muito foda ela ter ido falar no combo Harvard & MIT. Sobre como foi certeiro ela ter cantado na abertura das Olimpíadas.

Entendemos que Anitta é um ícone pop de primeira grandeza no cenário musical brasileiro — daquele pop que vem de “popular” mesmo, as três letrinhas que apavoram os ROCKISTAS das antigas desde sempre. Admitimos que é MUITO legal ver uma pessoa saída da periferia, egressa do funk, este gênero musical que muita gente ainda considera menor, dominando as paradas de sucesso por aqui e plantando, de maneira bastante inteligente, as sementes de uma brilhante carreira internacional.

E admiramos eternamente o tanto que ela virou as regras do mercado fonográfico do avesso e, ao invés de lançar um disco novo e passar por todo aquele processo clássico, ela anunciou um clipe novo todo mês. E cada clipe virou, sem sacanagem, um evento. Tudo isso é de cair o queixo.

Mas nada disso impede que a gente enxergue, conforme falamos num episódio do ASTERISCO sobre arte e política, o verdadeiro ABISMO que existe entre o passado da cantora, as influências estéticas da periferia que ela sempre fez e faz questão de usar, a sua presença tão intensa e frequente em nichos voltados ao público LGBTQ+ e o seu POSICIONAMENTO na real.

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“Ah, ela não tem obrigação nenhuma de falar nada”, tá bom, não, não tem... mas para quem professa tamanho amor pela favela e pelo público LGBTQ+, digamos que não usar de seu poder de propagação da mensagem enquanto influenciadora soa bem estranho. “Ah, ela é uma cantora pop, não é uma banda punk”, mas até aí a Beyoncé, a Madonna, a Lady Gaga, a IZA e a Duda Beat também não são e, no entanto, nenhuma delas tem medo de usar o lugar mais alto do palco para algo além de cantar.

São estas duas Anittas que, no fim, parecem estranhamente se chocar quando a gente ouve Kisses, a mais nova peripécia multimídia de Larissa de Macedo Machado, o primeiro disco completo de inéditas que a cantora oriunda de Honório Gurgel lança em quatro anos. Um projeto audacioso, cantado em português, inglês e espanhol, reforçado por uma narrativa cheia de vídeos especiais.

Mas um projeto que, se faz jus à primeira Anitta no quesito ambição, talvez não faça muito no quesito entrega pop. E que, definitivamente, parece escancarar um buraco que seria brilhantemente preenchido caso ela resolvesse colocar um pouco mais de coração e um pouco menos de produção na ponta do microfone.

Um exemplo fica claro logo de cara: “Cês pensaram que eu não ia rebolar a minha bunda em espanhol?”, diz ela, em bom português, no meio da letra hispânica de Atención, uma convocação em forma de funk latino que abre o disco e na qual uma Anitta no papel de líder pede que as mulheres duronas como ela entrem em “formación”. Pra quem tem um mínimo de repertório pop, impossível não lembrar de imediato de Formation, aquela da Beyoncé. E a diferença é brutal — mas não porque uma é brasileira e a outra americana. Porra nenhuma de complexo de vira-lata. O lance é que falta PERSONALIDADE. Uma injeção brutal de atitude. Atención é óbvia, genérica, quer dizer mas não CONSEGUE dizer nada.

Olha só, a produção de Kisses é impecável. É um bom álbum pop, dançante, competente... mas que poderia ter sido gravado por QUALQUER artista de posse de um bom orçamento para garantir um estúdio de primeira e um time de produtores afiadíssimo. Falta alma, falta assinatura musical. Falta um tempero meio Show das Poderosas, sabe? A música que você ouvia e tinha Anitta espalhada por todos os minutos da canção.

As batidas são todas meio parecidas, querem emular um pop mais global, mais multicultural, quase étnico, mas daquele tipo insípido, o hip-hop cubano feito por um branco rico em Miami tomando champanhe, construído milimetricamente para se parecer algo que, na realidade, nas ruas de subúrbios como aqueles dos quais a própria Anitta veio, simplesmente É — ao ouvir Sin Miedo, por exemplo, a gente só se lembra que é uma brasileira cantando quando percebe a referência Ai Se Eu Te Pego.

E aí você ouve o mix de inglês e espanhol de Poquito e Tu y Yo, por exemplo e, a despeito de qualquer convidado especial, o resultado é pasteurizado, um punhado de canções do tipo que tocam aos montes nas rádios americanas, a batida eletrônica daquele jeitinho, uma voz masculina mandando uns “hã” ou “iés” de fundo, eventualmente um “yeah, Anitta”. E aí que você tem dificuldade de diferenciar exatamente quem é a dona da música. Em busca do mercado internacional, Anitta está mesmo disposta a deixar de ser ela mesma e ser mais uma?

Ela tenta até ganhar algum crédito, cravar seu DNA como “cantora brasileira”, ao trazer ninguém menos que Caetano Veloso pra um dueto em Você Mentiu, uma simpática canção meio bossa, meio jazz, baladinha de violão e voz, doce e delicada. Não fica ruim. Mas demora demais pra chegar até ali. E quando chega, você já não consegue mais ser convencido de que aquilo pode fazer parte de todo o resto.

Anitta teve medo de se jogar. Faltou naturalidade, soa demais controlada, roteirizada, artificial

O disco, no entanto, consegue alcançar um outro estágio — e, de verdade, deveria ter se focado nele — quando se dá ao luxo de pirar de vez e coloca, de maneira inesperada, Ludmilla e Snoop Dogg numa mesma canção. E aí que Onda Diferente se permite sair deste ambiente meio insípido, desta produção limpinha e sem furos, ao cantar claramente sobre uma mina que fumou um e aí a brisa bateu e agora ninguém vai segurar, que ela tá loucona e vai aprontar o que quiser a noite inteira. Tá bom que os convidados dão um grau nesta história toda mas, no fim, eu meio que queria ver mais desta Anitta loucona mesmo.

Uma Anitta que não tivesse medo de se jogar. Quando falamos da série Vai Anitta, do Netflix, dissemos que ela pecava justamente pela falta de naturalidade, por soar por demais controlada, roteirizada, artificial. Aqui acontece rigorosamente o mesmo. Não temos o mínimo espaço para tentar preencher as lacunas.

Não se enganem: Kisses é um acontecimento. Mas, diferente do brilhante movimento do projeto Checkmate, está longe de ser um movimento de mestre. Na verdade, eu arrisco dizer que talvez seja uma rainha caminhando pra trás no tabuleiro.