Um novo mundo pede um novo Pantera Negra | Judão

Marvel lança novo título regular do personagem em Abril, escrito pelo jornalista Ta-Nehisi Coates – que promete uma boa dose de realidade para o monarca de Wakanda

Dentre todos os títulos que serão lançados pós-Guerras Secretas, já era de se esperar que a Marvel fosse dar mais uma chance ao Pantera Negra. Sem um gibi para chamar de seu desde 2011, esse ano ele completa exatos 50 desde sua primeira aparição em Fantastic Four #52 – sem contar o fato de que o herói vai dar as caras com POMPA E CIRCUNSTÂNCIA em Capitão América: Guerra Civil. Assim sendo, em abril chega o primeiro número de Black Panther, o gibi. “Uma nova era se inicia para T’Challa”, anuncia a Casa das Ideias.

A importância desta nova abordagem do guerreiro de Wakanda já começa pela equipe criativa. Será a primeira vez, em muitos anos, em que tanto roteirista quanto desenhista são negros. Mas ambos não poderiam estar em espectros mais diferentes de suas carreiras. O responsável pelo novo traço de T’Challa é Brian Stelfreeze, com mais de 25 anos de estrada no mercado de quadrinhos. Já os roteiros ficarão a cargo de Ta-Nehisi Coates, jornalista da revista The Atlantic que nunca escreveu uma única HQ na vida.

Não é a primeira vez que a Marvel resolve ousar na escolha do escritor do Pantera Negra. Entre os anos de 2005 a 2008, quem cuidou do gibi do herói africano foi Reginald Hudlin, roteirista, produtor e diretor de cinema (responsável pelo clááááááássico O Príncipe das Mulheres, com Eddie Murphy). No caso de Hudlin, a editora se deu MUITO bem, porque a passagem do autor pelo Pantera Negra é considerada quase um clássico, ao lado da passagem original de Jack Kirby e da dobradinha Christopher Priest / Mark Texeira no final dos anos 1990. Resta saber se Coates seguirá o mesmo caminho.

A promessa, no entanto, é das boas. “Em meu trabalho para a Atlantic eu tenho, já há algum tempo, tentado responder à uma pergunta em particular: pode uma sociedade se livrar e trunfar sobre a mesma pilhagem que a tornou possível?”, escreveu o próprio Coates, em artigo para a The Atlantic, no qual apresentou a primeira prévia de Black Panther.

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Ele é conhecido principalmente por seus artigos a respeito da situação da comunidade negra nos EUA. “No caso do Pantera Negra, eu tento responder a uma questão mais simples: pode um homem bom ser um rei...e uma sociedade avançada tolerar uma monarquia? Pesquisa é crucial em ambos os casos. Eu me debrucei sobre os arquivos da Marvel e sobre a longa história do personagem. Mas também me inspirei na história real – da era pré-colonial da África às rebeliões camponesas que devastaram a Europa no fim da Idade Média, passando pela Guerra Civil na América, pela Primavera Árabe e pelo surgimento do Estado Islâmico”.

Uau. Se esta descrição simplesmente não aguça a sua vontade de ler esta bagaça, juro que não sei mais o que mexeria com você. :)

“Apesar das diferenças de estilo e na prática de se contar uma história, minha abordagem para escrever quadrinhos difere bem pouco da minha abordagem para fazer jornalismo”, explica ele.

A sinopse do primeiro arco de história dos 11 números para os quais Coates foi inicialmente contratado, intitulado Nation Under Our Feet, relembra que a força de vontade de Wakanda – nação africana conhecida por sua riqueza, tecnologia avançadíssima e antigas tradições guerreiras – sempre se viu refletida em seus reis, a linhagem dos Panteras Negras. Mas eis que o atual, T’Challa, agora é desafiado por um grupo de terroristas super-humanos chamado The People, que espalham uma onda de violência pelo país. Wakanda precisa mudar para sobreviver. Mas a tradição dos Panteras Negras sobreviveria a esta mudança?

“Durante séculos, Wakanda devolveu dentro de caixões todos os seus aspirantes a conquistadores”, relembra o editor-chefe Axel Alonso, em entrevista para a EW. “Mas agora eles estão prestes a encarar a sua maior ameaça – e ela vem de dentro. O Pantera Negra terá que enfrentar um perigo que não pode ser espancado à submissão. Um perigo que levanta questões sobre a vida, a liberdade e a honra que são especialmente relevantes nos dias de hoje”.

“A coisa que mais me empolgou neste roteiro foi sacar que não era uma história de super-herói”, define Stelfreeze, num papo com o Newsarama. “Não tinha um zoom de alguns caras roubando um banco e o Pantera Negra chegando para detê-los. Acho que os super-heróis precisam cada um da sua voz específica e não acho que se tenha chegado ainda ao que o Pantera Negra é de verdade”.

Pantera_02Para o desenhista, o defensor de Wakanda é um personagem pouco desenvolvido e ele e seu parceiro de trabalho estão realmente aproveitando a chance. “O roteiro de Ta-Nehisi segue numa direção diferente e realmente explora sobre o que este cara é. Como seria Wakanda se fosse uma coisa real”.

O artista faz questão de dizer que a ideia, no entanto, foi fazer uma abordagem bastante respeitosa – que atraísse obviamente o leitor que nunca colocou as mãos numa HQ do Pantera Negra na vida mas que também fosse prazerosa para os fãs das antigas. “Nós dois somos fãs, né. Se você é fã, vai encontrar aqueles easter eggs, mas ainda assim é algo diferente”.

Coates afirma que não apenas é fã – mas que seu lado escritor (responsável pelo livro Between the World and Me, sobre como a escravidão e as várias formas de racismo afetaram as vidas dos americanos, premiado com o National Book Award para não-ficção em 2015) foi firmemente influenciado por nomes como Chris Claremont, Tom DeFalco e Walt Simonson.

Criado em Baltimore, filho de um pai veterano de guerra e integrante do partido dos Panteras Negras (doce ironia), ele passou a infância e adolescência regado a hip hop, Dungeons & Dragons e gibis. “Encontrei nas HQs uma válvula de escape para uma outra realidade na qual os fracos e zoados podiam transformar seus defeitos em poderes fantásticos”, explica. “Claro que esta é a realização do garoto de 9 anos em mim. Lendo os gibis do Homem-Aranha quando era criança, eu não apenas curtia a aventura do mês, mas pensava seriamente na coisa de ‘com grandes poderes vêm grandes responsabilidades’. Os X-Men de Chris Claremont não eram apenas um bando ultracool de rebeldes, mas o gibi tratava do papel das minorias na sociedade. É isso que espero fazer com o Pantera Negra. As questões que motivam a ação. Afinal, as perguntas, nos dias de hoje, são mais necessárias do que as respostas”.