“Um passo à frente e não estou no mesmo lugar” | Judão

Somos todos iguais. Somos?

O que nos diferencia perante a vida? O pedaço de terra onde somos paridos, ejetados do corpo de nossas mães e estapeados na bunda justamente pra chorar após nove meses de exílio intra-uterino? Nossa religião? A quantidade de grana nas contas da nossa família? A nobreza inerente ao pobre que trabalha a vida inteira e é permanentemente esmagado pelo Estado?

Segundo o mercado, somos todos iguais enquanto consumidores, mas uns mais iguais que outros, dependendo do capital que tivermos pra investir em fundo perdido (e existe outro tipo?). Já o comunismo diz que somos a lesma lerda mas, no final das contas, quem chefia a burocracia sempre está um degrau acima, prestes a beijar a doce face da ditadura.

A religião diz que estamos todos salvos, desde que não sejamos seguidores da concorrência. Para os ateus, somos iguais perante a miséria humana e o deleite com nossa produção cultural e a esbórnia, mas sempre tem aquela horinha malandra do dia quando damos uma olhadinha no horóscopo.

Festival de gramado - trilha(1)

De acordo com nosso país de origem, seja ele qual for, devemos sentir orgulho de frequentar a mesma geografia, que sempre tem material genético de fauna, flora e gente melhor que a do vizinho, independente da localização, da Zâmbia à Islândia, passando por Bangladesh, Argentina e qualquer outro cu de mundo que lhe vier à mente.

George Carlin, ator, humorista e pessoa muito foda que nos deixou em 2008 porque tinha mais o que fazer do que ficar aqui aturando gente jeca, tem uma fala sobre esse tema que é uma belezinha.

Se a gente for pensar que sim, somos todos iguais, vamos ter que fingir que não tem gente que acorda todo dia com tanques ou caveirões na porta da escola do filho apenas pelo fato de morar num bairro mais fodido do mundo ou da cidade.

Agora, se assumirmos que somos iguais ao nascer, mas que o sistema atual, que já deu o que tinha que dar, atropela essa igualdade original, menos gente podia matar, morrer, emburrecer, sofrer estupidamente ou mesmo tornar a vida dos outros pior.

Saca? Isso ou precisamos especular que o(a) motorista abaixo está sendo tocado por deus, pela genética maravilhosa do país onde nasceu ou porque o capitalismo permite que ele tenha um carro muito rápido, embora eu considere que é só burrice aliada à sorte mesmo.

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Enquanto nos estapeamos por essas questões, o sistema fagocita os discursos e vai gerando “merecimento” ao acaso. Todo mundo espera pelo momento que vai brilhar na vida, que vai salvar “os que ama”, a sociedade, o mundo, as árveres, nozes e os cambau, então é isso que acaba recebendo, esporadicamente. A real é que na sociedade do espetáculo, a gente realiza boa parte dessa meritocracia quando se projeta em ídolos, sejam escritores, músicos, políticos, apresentadores de TV, youtubers ou mesmo familiares, vizinhos e por aí vai.

É a terceirização da glória em uma sociedade que passa a vida com a cara estatelada na televisão, no celular, nos fones e que, antes, fazia isso pelas colunas de jornal e revista ou pelos programas de rádio. Algum dia, eventualmente, a gente acorda, faz umas coisas, diz “basta!”, mas a real é que, no primeiro ou segundo tropeço, a tendência é voltar a terceirizar.

Tem um filme chamado Nebrazca (2013), no qual um senhorzinho, após uma vida de tombos, recebe uma carta que é na verdade um spam e que diz que ele ganhou um milhão de dólares desde que compareça a uma determinada empresa que fica em outro Estado dos EUA. A partir daí, ele e o filho embarcam numa viagem e, bom, sem spoiler, mas a película é brilhante e retrata forte essa coisa da terceirização da glória, entre outras coisas.

O papo repetitivo de “fim”, seja do mundo, da sociedade, do país, da vida como ela é, tem muito a ver com essa flacidez de evitar questionar o que vem pronto. O sistema educacional aplicado em boa parte do planeta é o grande responsável por isso, porque visa produzir mão de obra, gente pra trabalhar em “áreas”, e não tem a menor pretensão de criar cidadãos. É a velha metáfora da máquina de fazer salsichas e, sim, não se engane, nela NÓS somos as salsichas.

Óbvio que sempre alguém vai ser mais famoso, mais rico, mais inteligente, mais bem informado, mais jogadão, mais vagabundo, mais gostoso, mais transante, mais foda que a gente. Não somos todos protagonistas do todo, mas podemos tomar as rédeas das nossas fuças, do que afeta quem somos e os que amamos, e até mesmo ir além e nos preocupar com quem a gente nem conhece, como a vida dessas pessoas pode ser melhor.

Nessas, recentemente, com o saco cheio de tanta falácia de política, tanto disse me disse, tanta manipulação, resolvi me juntar com uns amigos e tentar, num esquema papo de bêbado, elucidar algumas questões do cotidiano das pessoas e decisões que fazem do nosso cotidiano o que ele é, ou como ele está, porque a gente pode, a qualquer momento, levantar a bunda da cadeira, se juntar com quem concorda com a gente e tentar mexer no que nos enche o saco. É exatamente esse, também, o clima da minha parceria com o JUDÃO.

“Um passo à frente e não estou no mesmo lugar”, como disse Chico Science.