Uma década depois, a White Wolf lança um novo produto de Vampiro. Mas... e daí? | Judão

Primeiro lançamento dos caras oficialmente como uma subsidiária da Paradox, a tal “ficção interativa” levanta novamente as dúvidas sobre o futuro da parceria com a Onyx Path Publishing

Não, por enquanto, ainda não foi desta vez que a tão aguardada quarta edição de Vampire: The Masquerade, saiu do papel (por mais que estivesse originalmente prevista e anunciada para 2016). Porém, de qualquer maneira, estamos diante do que se pode chamar de um momento histórico já que, 10 anos depois, finalmente a White Wolf Publishing coloca na rua um novo lançamento de seus dentuços favoritos: Vampire The Masquerade: We Eat Blood, ao lado de seu título-irmão Mage The Ascension: Refuge, já está disponível para Android, iOS e PC. No Steam, dá pra comprar os dois por US$ 9,99, sob o nome de Worlds of Darkness: Preludes.

Apesar de ambientados no já conhecido Mundo das Trevas da editora, não estamos falando aqui de RPGs propriamente ditos – pelo menos, não de livros de RPGs, aquele formato físico pelo qual os clãs de vampiros, as tribos de lobisomens e a galera toda acabaram ficando mais conhecidos. E nem são, digamos, joguinhos do tipo videogame como você poderia esperar. Eles são chamados de “ficção interativa”. Pensa mais ou menos numa versão digital dos livros-jogos de caras como o Ian Livingstone. Pois é, bem por aí.

Em termos de história, ambos parecem bem interessantes. We Eat Blood é sobre um jovem artista que acorda uma noite e descobre que não é mais humano, tendo que se virar em suas primeiras noites como predador... mas também um pouco como presa, num mundo de sombras e depravação no qual as crias de Caim dominam a noite. Já Refuge trata corajosamente de um tema bem atual: o seu personagem é o voluntário em um campo de refugiados sírios que, subitamente, descobre que a magia é real. “Suas ações e escolhas têm profundas consequências no mundo e nas pessoas ao seu redor”, explica o comunicado oficial. “Segurança ou sacrifício? Deixá-los se aproximar ou construir um muro ao seu redor? A escolha é sua”.

We Eat Blood tem sido alvo de críticas de parte dos fãs principalmente por conta do nome que aparece como assinatura no vídeo aí em cima, como sendo o autor responsável pelo texto e pela arte da parada: Zak Sabbath. Quem é do mundinho do RPG, já deve ter sacado que este é um outro nome artístico de Zak Smith, artista plástico e ator pornô, responsável pelo controverso projeto Playing D&D With Pornstars (e que o JUDÃO entrevistou aqui). Um verdadeiro ativista da prática do RPG, Zak também é conhecido por seu mau humor, um cara sem papas na língua que vive se metendo em confusão nos fóruns especializados e é acusado de ARREBANHAR sua trupe de seguidores para perseguir virtualmente aqueles que não concordam com ele (incluindo aí alguns autores de RPG).

“Eles me atacam porque ficam envergonhados de serem vistos atacando as mulheres do meu grupo e que compartilham do mesmo ponto de vista que eu – e sem serem obrigadas”, se defende ele, dizendo que sua postura a respeito do sexo e seu relacionamento com a indústria pornô o tornam alvo de polêmicas. “Sabemos que Zak é uma figura controversa”, diz a equipe da White Wolf em seu blog. “Nós lemos muitos dos conflitos históricos em que ele esteve envolvido, alguns bem antigos e complexos, que foram exaustivamente debatidos online. Junte a isso as conversas que tivemos com profissionais da indústria que tiveram interações negativas com ele no passado e, sim, Zak Sabbath pode ser ABRASIVO e seu comportamento pode ser entendido como ofensivo. Mas deixamos claro pra ele que esperamos que isso não se repita e ele concordou”. Quem dera fosse fácil assim...

De qualquer maneira, caras como David A. Hill Jr., escritor e desenvolvedor de jogos responsável por alguns títulos do Mundo das Trevas lançados pela Onyx Path, não perdoam e têm dedicado os últimos dias e disparar uma metralhadora de tweets contra a decisão da White Wolf. Hill afirma que, por mais que We Eat Blood tenha sido escrito ao lado da quadrinista e especialista em filmes de terror Sarah Horrocks, ela mesma uma mulher trans, e retrate como personagem de apoio uma criatura das trevas transgênero, Zak continua sendo um babaca – que batizou a tal vampira como Avery apenas como uma espécie de “vingança pessoal” contra uma de suas detratoras. Zak, Sarah e a própria White Wolf defendem a personagem, dizendo que ela é uma das melhores coisas do jogo e que teria sido inspirada na atriz pornô trans Bailey Jay.

Em meio à polêmica (justíssima e que MERECE ser discutida amplamente), no entanto, surgiu um outro ponto, este mais “comercial”, que também merece ser debatido aqui: afinal, Vampire The Masquerade: We Eat Blood é um lançamento da White Wolf, que não lançava diretamente nenhum título de Vampiro tem 10 anos... Mas ora vejam vocês, a Onyx Path Publishing vem lançando, nos últimos nomes, uma porrada de suplementos e romances ambientados no Mundo das Trevas, seja na nova versão (aquele do Requiem, agora oficialmente rebatizado de Chronicles of Darkness), seja na versão antiga, de Vampiro: A Máscara, DORAVANTE chamada de Classic World of Darkness.

A gente explica a bagunça... ou, pelo menos, parte dela. A White Wolf e a empresa Islandesa CCP Games, responsável pelo MMO Eve Online, se fundiram. A ideia seria então criar um MMORPG totalmente inspirado no novo Mundo das Trevas. Mas, em 2011, o mercado não tava indo muito bem, uma porrada de gente foi pra rua e o jogo foi oficialmente cancelado. Enquanto isso, no ano seguinte, Richard Thomas, ex-diretor criativo da WW, foi lá e fundou a Onyx Path, uma nova editora que além de seus produtos proprietários (como Pugmire) também se especializou em produzir materiais licenciados para RPGs de mesa. Adivinha com quem eles logo foram fechar contrato? Mas claro, com a White Wolf. Tudo em casa. ;)

Além de muitas novidades – como Beast: The Primordial, em que você pode ser um humano com a alma de um dragão, de um grifo, de um kraken, de um titã ou demais monstros primordiais – a Onyx também lançou as COBIÇADAS edições especiais de 20 anos de Vampiro: A Máscara e Lobisomem: O Apocalipse. Além disso, em agosto de 2015, veio a bomba, durante a GenCon, a maior convenção de jogos de mesa do planeta: a tal da quarta edição do Vampiro original. BOOM, a comunidade RPGística abriu a porta da nostalgia de vez e entrou em festa.

Só que aí, chapa, a alegria parece ter durado pouco porque meses depois a sueca Paradox Interactive, empresa de games como as franquias Europa Universalis e Hearts of Iron, foi lá, abriu o bolso e comprou a White Wolf. Que, vejam vocês, começou DO ZERO. Tanto é que a sua sede agora é oficialmente na Suécia e seu CEO é Tobias Sjögren, vindo da estrutura da Paradox para liderar um time totalmente novo. “Nosso objetivo é centralizar todos os aspectos deste universo para cuidar de tudo com o carinho e o respeito que ele merece”, diz o site oficial. Junte isso com a expressão “One World of Darkness” para amarrar tudo e acaba que muita gente ficou assustada: afinal, a parceria com a Onyx Path acabou? Bem, aparentemente não. Pelo menos por enquanto.

“Estamos discutindo com cada um dos parceiros (incluindo a Onyx Path e a By Night Entertainment, licenciada oficial que ficou responsável pelos lançamentos da série de live-actions Mind Eye’s Theatre) os detalhes destas parcerias enquanto estabelecemos um plano sólido para os próximos anos”, limitou-se a dizer Sjögren, em entrevista ao RockPaperShotgun. Mas no site da Paradox, eles deixam claríssimo que a White Wolf é uma subsidiária que tem total liberdade de ação, podendo inclusive negociar contratos de licenciamento para jogos digitais, físicos, eventos e ainda produtos para TV/cinema não apenas com a Paradox mas também com qualquer outra empresa do mercado. Tanto é que já foi anunciado um jogo, para PC e consoles ainda a serem anunciados, de Werewolf: The Apocalypse. Só que vai ser uma parceria da White Wolf com a Focus Home Interactive e não com a Paradox – com desenvolvimento a cargo da mesma Cyanide que tá criando um jogo inspirado em Call of Cthulhu.

No Tumblr da Onyx Path, o próprio Richard Thomas faz questão de destacar que, embora a sua editora tenha agora muitos EGRESSOS da antiga White Wolf, aquela dos anos 90, uma coisa não tem nada a ver com a outra. “Nós não somos donos das propriedades intelectuais deles. Eles apenas queriam que a gente cuidasse delas e mantivesse a comunidade de fãs aquecida com alguns lançamentos até que o MMO do WoD rolasse”, explica ele. Mesmo com o fim do projeto do jogo, já são mais de quatro anos cuidando destes títulos. E sobre a relação com a nova WW/Paradox, ele joga bem limpo: “A intenção deles é licenciar. Eles querem que as suas propriedades estejam em todas mídias possíveis”.

Atualmente, portanto, a Onyx Path tem a licença para criar RPGs de mesa e acessórios para o Classic World of Darkness, Chronicles of Darkness e Exalted. “Fazemos o que o nosso contrato permite e aprovamos tudo com eles. Mas, como licenciados, não estamos envolvidos em como eles aumentam o portfólio deles. Eles não têm obrigação de nos contar nada. Somos apenas um de uma agora crescente lista de licenciados dos caras. Não temos nada a dizer sobre outros produtos licenciados ou como a WW conduz seus negócios”. Basicamente, isso é a Onyx Path dizendo: “foi a White Wolf que escolheu o Zak Sabbath para aquele projeto, não temos nada a ver com isso”.

A inquietação que abriu este texto, no entanto, permanece: O QUE CARALHOS ACONTECEU COM A 4A EDIÇÃO DE VAMPIRO: A MÁSCARA? Esta página, do site oficial da WW, esclarece enfim: “em 2018, haverá uma 5a edição de Vampiro: A Máscara”. PERA. Quinta? Como assim? “Consideramos o livro Vampire: The Masquerade 20th Anniversary, publicado em 2011, como sendo a 4a edição”. E pelo que dá a entender, neste caso, o lançamento vai ser da própria White Wolf.

É bom que eles escolham BEM DIREITINHO os parceiros/escritores com os quais vão trabalhar, né? Fica aí a dica.