Com um tweet, Stephen King dá uma nova vida à Torre Negra | Judão

O último giro d’A Roda?

É bom já começar avisando que este texto contém spoilers sobre os livros da série Torre Negra. Até porque o tweet de tom APAZIGUADOR de Stephen King, com uma única imagem, publicado na última quinta (19), não é apenas um sinal claro para os leitores da obra a respeito de qual caminho a adaptação para os cinemas vai seguir, mas também um baita spoiler para quem AINDA não leu os livros – ou, pelo menos, um baita spoiler para aqueles bons entendedores que prestarem bastante atenção. ;)

Torre Negra é uma heptalogia (ou octologia, se contarmos O Vento Pela Fechadura, de 2012) literária de Stephen King que mistura ficção científica, fantasia e terror para contar a história de Roland Deschain, o último pistoleiro do Mundo Médio, e sua busca pela tal Torre Negra – o ponto onde todas as dimensões se encontram. Foram necessários 33 anos para King concluir todos os sete livros da série. Sua história, folclores e personagens são tão grandiosos que invadiram praticamente todos os outros livros do autor. Nem mesmo o site oficial, Wikipedia, fansites e até mesmo um infográfico conseguem descrever detalhadamente esses cruzamentos.

As tentativas “sérias” de adaptar a série para o cinema começaram em 2007, quando JJ Abrams, Carlton Cuse e Damon Lindelof (sim, aqueles trutas de Lost) compraram os direitos por US$ 19 — o mesmo 19 que aparece de forma recorrente e misteriosa pela série. Os planos não foram para frente, principalmente por medo de se tornarem os responsáveis por estragar uma série tão amada (medo que Lindelof aparentemente perdeu em 2012 ao roteirizar Prometheus, mas vamos falar deste assunto em outra ocasião).

Em 2010, um time dos sonhos foi montado para um projeto extremamente ambicioso: uma adaptação que contaria com três longas para o cinema e uma série para a televisão com duas temporadas, sempre intercaladas com os filmes. A equipe responsável por Uma Mente Brilhante cuidaria de tudo: Akiva Goldsman no roteiro, Ron Howard na direção e Brian Grazer e o próprio Stephen King na produção. Mas, se estamos falando sobre isso neste momento, é sinal de que a coisa degringolou em algum momento.

Duas mudanças de estúdio, diversos cortes no orçamento e várias mudanças de ator principal depois, a adaptação finalmente tomou corpo em 2015: Goldsman, Grazer, Howard e King foram mantidos como produtores e a direção caiu nas mãos de Nikolaj Arcel (roteirista da adaptação sueca de Os Homens que Não Amavam as Mulheres e diretor do indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro O Amante da Rainha). Os fãs se animaram quando Matthew McConaughey, no auge da McConaugheyssance, foi confirmado como o Homem de Preto (o vilão de toda a saga).

Mas antes que os fogos encomendados fossem disparados, eis que Idris Elba foi confirmado como o pistoleiro Roland Deschain. A partir deste ponto a confusão tomou conta dos fãs, já que Roland sempre foi representado nos livros, quadrinhos e ilustrações com um semblante idêntico ao Homem Sem Nome de Clint Eastwood e Sergio Leone: um sujeito sério, de poucas palavras, mas também de olhos azuis claros e caucasiano. Além daquela galera que não aceita que seus personagens sejam retratados numa etnia diferentes apenas “porque não”, alguns leitores levantaram a bola de que, nos livros, a aparência física de Roland tem impacto no seu relacionamento com a personagem Susannah, que se torna uma das protagonistas a partir do segundo livro. O motivo? Ela é justamente uma mulher negra que, por conta de problemas no passado, tende a não confiar em pessoas de pele branca.

Em entrevista ao IGN, Akiva afirmou que entende esta parte da preocupação dos leitores fiéis e sabe como isso impacta na história... mas deixa claro que é algo em que todos os envolvidos já pensaram. E, para aqueles que têm problemas com Idris apenas por ele ser negro: “Os malditos racistas podem ir se foder”. O próprio King se manifestou no Twitter, mas de maneira mais sutil: “pra mim, a cor do pistoleiro não importa. Eu me importo com o quão rápido ele pode sacar sua arma...e se ele toma conta de seu ka-tet”. A palavra diz respeito ao grupo de pessoas que circundam ao seu redor, seu “clã”, “uma pessoa é feita de muitos”, aquela coisa.

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Não demorou até que a mudança fosse “aceita” – afinal, teremos a possibilidade de ver nosso herói no cinema interpretado por um excelente ator que sem dúvidas faria jus ao personagem, que dúvida restaria? Esta não é a parte mais importante mesmo? Tudo pareceu novamente entrar nos trilhos até o momento em que o resto do elenco começou a ser confirmado. Abbey Lee (Mad Max: Estrada da Fúria) foi confirmada como Tirana, personagem pequeno que só aparece no sétimo livro. Jackie Earle Haley (Watchmen) foi escalado como Sayre, importantíssimo no quinto livro. Fran Kranz (O Segredo da Cabana) surgiu como Pimli, que dá as caras no último livro.

Usando a expressão apropriada, este foi o ponto onde todos os fãs deixaram a confusão de lado e lost their collective shit. Até eu, que normalmente deixo para reclamar somente depois de assistir ao filme, comecei a perder as esperanças e duvidar da qualidade do material final. Afinal, este é o meu Senhor dos Anéis e o meu Game of Thrones. Roland e o Homem de Preto são protagonistas, claro. Mas o restante dos personagens anunciados aparecem apenas láááááááá pra frente na trama, em momentos bastante distintos. E em sua maioria, com um peso pequeno, descritos em pouquíssimas páginas. Que tipo de mistura os roteiristas estariam preparando? o.O

Mas aí veio o gênio do Stephen King com o seguinte tweet:

Para o público em geral, é só uma trombeta velha. Para os fãs da série, vislumbrar a Trombeta de Eld foi a possível explicação que tanto precisavam e uma também possível sacada de gênio dos produtores.

(“Possível” é a palavra do momento, porque a partir daqui tudo é especulação)

A Trombeta de Eld pode ser considerada como um símbolo para o que Roland se permitirá fazer para atingir seu objetivo final: sacrificar amigos, perder amores, ser egoísta e cabeça-dura, tudo isso valerá a pena se conseguir alcançar o topo da Torre Negra. A Trombeta é um instrumento mágico poderoso que foi passado por toda a linhagem do pistoleiro, mas que é abandonada por um jovem e displicente Roland na chamada Batalha de Jericho.

Durante a saga, fica claro que se ele ainda possuísse a trombeta, tudo poderia ter acontecido de maneira diferente. E opa, o que é aquilo na foto?

Na imagem tweetada por King consta o texto “Last Time Around”, algo que eu traduziria como “Uma Última Volta”. A Roda e seu giro infinito é um tema recorrente em A Torre Negra. No último capítulo do sétimo livro, Roland finalmente chega ao topo da Torre, somente para descobrir que não é a primeira vez que já esteve lá. Na verdade ele está condenado a repetir eternamente a sua história, sempre sendo transportado para o passado e voltando exatamente para o primeiro parágrafo do primeiro livro: “”The Man in Black fled across the desert, and the Gunslinger followed”.

Só que nesta nova volta (ou giro da Roda do Destino) existe uma diferença: ao chegar ao passado, ele está com a Trombeta em suas mãos. Desta vez, existe uma chance de redenção. Desta vez, A Roda poderá girar pela última vez. O filme — e suas possíveis sequências — talvez possam ser uma continuação dos livros, e não uma adaptação. Efeito borboleta. Que decisões diferentes ele teria tomado? Como estas decisões afetariam os outros? Quando levamos em consideração o fato de que os eventos d’A Torre Negra não estão limitados a um universo, as mudanças potenciais são ilimitadas. Por isso, talvez, ele conheça antes Tirana e Sayre, deixando para encontrar Eddie e Odetta mais pra frente.

Esta pode ser a razão para tudo ser diferente, para personagens estarem deslocados no tempo e para os fãs darem tamanha importância para a promessa de King de que Roland finalmente tocará a Trombeta: agora, Roland finalmente tem uma chance de um final feliz.