Uma lição de como envelhecer com mais que dignidade | Judão

Quando uma banda prestes a completar 50 anos de carreira solta um disco moderno e relevante, facilmente o seu melhor em quase duas décadas, é algo digno de nota, não?

Quando a gente entra naquelas inevitáveis discussões sobre qual é a maior banda de heavy metal da história (e excluindo o Black Sabbath da conversa porque, bom, eles são algo anterior a isso), geralmente acabamos no embate Iron Maiden x Metallica. Quem curte o gênero já tá ligado que, inclusive, é um papo sem fim.

Só que, correndo por fora, o nome do Judas Priest sempre pinta como a “terceira via”. Porque, é óbvio, não estamos falando de um gigante mainstream como as outras duas, fenômenos de vendas e público, estádio cheio, que chegam inclusive a ultrapassar as fronteiras do bate-cabeça padrão e chegar no “fã comum”.

Mas, ainda assim, o Priest é sinônimo de consistência. Desde 1969, antes do Maiden e do Metallica ousarem usar a primeira distorção, estes senhores ingleses já estavam lá, todos couro e correntes, ajudando a construir as bases do estilo, tanto musical quanto “performaticamente”. E nunca pararam.

E, digo mais, construíram uma discografia que tem muito mais altos do que baixos e que, na média, pode ser considerada igualmente consistente. Um discografia que ganhou, no final da semana passada, mais um integrante com um baita selo de qualidade grudado na capa: Firepower.

Apesar de ser da horda de fanáticos que gostam bastante de Angel of Retribution (2005), o álbum que marcou o retorno de Rob Halford ao comando dos vocais da banda, não demora muito até que se consiga cravar que o recém-lançado 18o disco de estúdio dos caras é também o seu melhor desde que Halford voltou. Portanto, o melhor em quase duas décadas. E se, bom, a gente tratar Jugulator (1997) e Demolition (2001), os dois discos com Tim “Ripper” Owens no papel de frontman, como eles merecem ser tratados (ou seja, apenas OK), aí o disco novo fica ainda mais relevante, porque é, sim, o melhor álbum dos caras desde o icônico Painkiller, de 1990.

Firepower não é uma banda de velhos senhores decrépitos tentando mostrar que ainda têm alguma lenha pra queimar, tentando justificar mais uma turnê mundial pra encher o cofrinho — e este é um exemplo, aliás, que se aplica a uma dezena de bandas, pequenas, médias e grandes, que a gente poderia nomear aqui pra preencher a lacuna. Não é o caso do Judas. Aqui, temos um quinteto que tinha o que dizer e que não optou pela saída fácil de fazer um monte de repetições campeãs de trabalhos anteriores. Sim, é um disco bastante Judas Priest, com uma assinatura clara, cheio de personalidade. Mas é mais do que isso. BEM MAIS.

Quando a audição começa, já com as duas cacetadas da faixa-título e de Lightning Strike, fica claro que o Judas não tá pra brincadeira. Pesado, intenso, acelerado. Mas o mais interessante é sacar de imediato que tem outro tempero aí. Um Judas Priest igualmente moderno, contemporâneo. Que soube, conforme alguns colegas críticos bem sacaram e eu concordo demais, dialogar com algo que até então vinha sendo solenemente ignorado em sua sonoridade: a carreira solo de Rob Halford. Aqui, aliás, dá pra traçar um paralelo interessante com o Maiden e o retorno de Bruce Dickinson, cuja trajetória por conta própria teve, de algum jeito, reflexos na banda principal.

Isso acontece aqui, em especial no combo matador das guitarras do veterano Glenn Tipton e do trintão Richie Faulkner, atual caçula do time, que injeta um tipo de veneno que dá gosto de ouvir. Vamos direto pro final do disco? Ah, mas vamos sim: a dobradinha No Surrender e Lone Wolf, talvez um dos pontos álbuns da obra, tem não apenas um sabor até mais hard rock do que aquele metalzão clássico e tradicional que se esperaria ouvir, carregando numa malícia nas guitarras que tem um toque de Iommi. Mas também tem uma camada até meio sexy, sabe? É metal que dá vontade de bater cabeça mas também vontade de dançar, de requebrar os quadris, de transar até, de se encaixar em alguém. Metal pra mexer com seus instintos. Difícil de explicar, fácil de sentir.

E aí, claro, não dá pra deixar passar o Halford. Cara, aos 67 anos, o que este sujeito ainda é capaz de fazer, sério, só deve dar pra explicar com aquele clássico pacto com o capeta. Os seus agudos poderosos e vibrantes continuam afiadíssimos, aqueles que são imediatamente reconhecíveis e que inspiraram toda uma geração de cantores depois dele. Em algumas vezes mais limpos, em outras mais emocionais, em muitas mais agressivos e rasgados, como em Necromancer, que é impressionantemente quase thrash. E o Halford ainda tem espaço pra brinca com outras facetas, como a pegada meio narrador de filme de terror, bem tétrico e assustador, na deliciosamente esquisita Spectre, ou quem sabe o bardo moderno, contando uma história antiga, meio folk, em Sea of Red.

É o Halford sabendo ser teatral, apelando pro exagero quando o metal, enquanto gênero, mais precisa e demanda, como parte de seu DNA clássico.

Este é um Judas Priest se mostrando não apenas ainda relevante, um soco na cara de muita banda de moleque em um gênero musical cuja agressividade geralmente é bastante injusta com os ídolos quando eles envelhecem, mas também com algo a dizer. E algo que faz sentido. E algo que ainda reverbera.

Não vou aqui bancar o crítica isentão porque, vamos combinar, impossível ouvir Firepower sem ter vontade de berrar THE PRIEST IS BACK. Aliás, não, tá errado isso aí. Não “está de volta” porque, não, eles nunca foram embora. Ufa. E nós é que agradecemos por isso.