Uma versão muito especial e poderosa de Zombie | JUDAO.com.br

A recém-lançada versão do maior sucesso dos Cranberries, cortesia da banda Bad Wolves, chega com uma história emocionante por trás, além de uma sutil e inteligente mudança na letra — que a própria Dolores O’Riordan aprovou

A súbita morte de Dolores O’Riordan, aos 46 anos, foi um baque para seus companheiros de banda, seus amigos, sua família e, claro, para uma legião de admiradores em todo o mundo. Mas também causou um impacto brutal em um quinteto de Los Angeles chamado Bad Wolves, uma banda com a qual a própria Dolores entraria em estúdio no mesmo dia em que morreu. Ela estava hospedada em Londres justamente para isso.

“Estamos chocados com a notícia. Sempre tivemos o mais profundo respeito por ela como artista e como cantora, por ser alguém que nunca teve medo de desnudar a própria alma nas suas canções e letras”, afirmou o vocalista Tommy Vext, em comunicado oficial no Facebook da banda. Depois de lançarem, de maneira independente, o single Learn To Live, os caras agora fecharam com um selo, o Eleven Seven de nomes como Mötley Crüe, Buckcherry, Blondie, Drowning Pool e Papa Roach, entre outros, e tão se preparando pro disco debut.

Um dos destaques do álbum seria justamente um cover de Zombie, composta por Dolores e hit absoluto dos Cranberries. A cantora não apenas gostou da interpretação do grupo — que é essencialmente uma banda de hard rock moderno que flerta com um tipo bem mais acessível de heavy metal — e aprovou a versão, como inclusive tinha pedido para cantar junto com Vext (que recentemente substituiu Ivan Moody no Five Finger Death Punch para que o cara pudesse tratar de seus problemas com o alcoolismo). Dá pra imaginar que ele e os parceiros estavam nas nuvens.

Zombie é uma canção incrivelmente pessoal e, apesar de sermos uma banda mais hard, sempre sentimos a crueza e honestidade que ela projetava nos palcos e em suas gravações. Era algo que todas as bandas deveriam querer fazer, não importa de qual gênero sejam”, afirmou o frontman. “Assim que soubemos que ela curtiu nossa versão e queria cantar nela com a gente, foi o maior elogio que uma nova banda poderia receber. Nossos corações estão simplesmente devastados porque esta colaboração não aconteceu. Esperamos que ela fique orgulhosa quando compartilharmos nossa versão com o mundo”.

“A perda inesperada de Dolores nos entristece tanto quanto o fato de que ela deixou três filhos. Então, tudo que a banda arrecadar com esta música em qualquer plataforma será doado para as crianças”, afirmaram os Bad Wolves em comunicado oficial.

E aí os caras fizeram. E WOW, mas que porrada.

Pesada, visceral e, principalmente, bastante emocional. Um tributo bastante digno, no qual dá pra imaginar nitida e exatamente em que momento a voz de Dolores entraria.

Além de Vext, o quinteto é formado por caras com um pedigree considerável no universo da música pesada: John Boecklin (bateria, ex-DevilDriver), Doc Coyle (guitarrista, Vagus Nerve, ex-God Forbid), Chris Cain (guitarrista, Bury Your Dead) e Kyle Konkiel (baixista, ex-In This Moment). “Nós soamos como uma banda progressiva que abusa um pouquinho do peso, que deixa o som mais grave e corta os excessos desnecessários”, tenta descrever Boecklin. “Ao ver o Faith No More em sua turnê de reunião, minha cabeça mudou. Eu tava lá parado e isso me atingiu de um jeito que me fez pensar que eu não queria estar naquelas bandas de metal que só gritam o tempo todo. Somos pesados, mas de faixa a faixa, as coisas devem mudar um pouco”.

Basta escutar Toast to The Ghost, o primeiro single de seu disco de estreia ainda sem título ou data de lançamento definida, para sacar do que o batera tá falando.

Mas é fácil de entender não apenas porque Dolores curtiu a proposta do Bad Wolves mas também porque o Bad Wolves se interessou pela música, há muito descrita pela cantora como a mais agressiva e nervosa dos Cranberries em toda a sua carreira. Lançada originalmente no disco No Need to Argue (1994), a música não tem qualquer relação com mortos-vivos, como algumas pessoas pareciam acreditar ao falar sobre ela na data da morte de Dolores. Na verdade, esta é uma canção de guerra, de protesto, inspirada nas mortes de Tim Parry (12 anos) e Johnathan Ball (3 anos), vítimas de um ataque terrorista promovido pelo IRA (Exército Republicano Irlandês) em 1993 com bombas em lixeiras de uma área comercial na cidade inglesa de Warrington, deixando mais de 50 gravemente feridos.

Além disso, a letra é um desabafo ao clima de pavor que se instaurou na Irlanda do Norte ao longo de muitas décadas, causado por uma organização paramilitar católica cujo objetivo era separar a Irlanda do Norte do Reino Unido e juntar-se à República da Irlanda, criando um único país.

“É uma canção poderosa e seus temas ainda são bastante relevantes, então queríamos lançá-la em memória da Dolores”, explica o cantor. Mas eles chegaram a fazer algumas alterações na letra, para tornar tudo ainda mais contemporâneo.

No trecho “With their tanks, and their bombs / And air bombs, and their guns”, a expressão “air bombs” se tornou “drones“, por exemplo. E quando, originalmente, Dolores cantava “It’s the same old theme / Since nineteen-sixteen / In your head, in your head / they’re still fighting”, o Bad Wolves mudou para “It’s the same old theme / In 2018 / In your head, in your head / they’re still fighting”. Sutil, mas bastante significativo.

“Ela ficou realmente empolgada porque os países podem ter mudado mas ainda estão lutando as mesmas batalhas nos dias de hoje”, conta Vext. “A humanidade ainda luta para se afirmar apesar de todos os conflitos”.

Sabe aquela coisa de política e cultura pop? ENTÃO. Continua aí. Firme e forte.