Atacar um filme tira o foco do real problema do porte de armas no EUA | JUDAO.com.br

Universal resolveu cancelar a estreia de The Hunt depois de tweets do presidente racista e xenófobo dos EUA

Há alguns anos rola uma discussão fervorosa sobre o porte de armas nos EUA, sempre impulsionada entre pensamentos e preces quando um novo ataque em massa acontece. Geralmente, os jogos de videogame são apontados como fatores essenciais para a construção de uma sociedade violenta, mas dessa vez o cinema entrou na discussão.

Depois de uma campanha de partes da mídia e do presidente Donald Trump pessoalmente, a Universal decidiu cancelar o lançamento de The Hunt, filme que segue uma dúzia de indivíduos que acordam em uma clareira e percebem que estão sendo perseguidos por esporte por “liberais de elite”. A trama é baseada em The Most Dangerous Game, um livro muito popular nos EUA que conta a história de um homem que é caçado após chegar em uma ilha que parece estar abandonada.

Pra quem gosta de referências, é algo que já se viu anteriormente em Jogos Vorazes, Battle Royale e alguns outros filmes de terror C, D e E no fim dos anos 90 e início dos 2000.

A escolha do estúdio de cancelar a estreia da produção veio após os recentes massacres em El Paso, no Texas, e Dayton, em Ohio e não é a primeira vez que Hollywood altera seu calendário após eventos trágicos reais e a mudança mais notável foi depois do 11 de setembro.

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Pelo sua conta pessoal no twitter, Trump falou abertamente contra Hollywood e afirmou que o filme “é feito para inflamar e causar o caos. Eles criaram sua própria violência e depois tentam culpar os outros”, completando que “eles são os verdadeiros racistas e são muito ruins para o nosso país”.

Trump não está errado em dizer que Hollywood é racista — diversos cineastas falam abertamente sobre isso há anos, lembre-se do #OscarSoWhite –, mas a indústria é feita por PESSOAS, que convivem com o racismo e a xenofobia institucional presente nos EUA (e no Brasil) desde sempre. Uma mídia perigosa é um reflexo do próprio país e do sempre presente discurso segregacionista. Infiltrado no Klan, um dos melhores filmes da carreira do diretor Spike Lee, aborda com perfeição como a indústria cinematográfica sempre teve um papel fundamental na sustentação do discurso racista.

Mas o próprio discurso abertamente racista e xenofóbico de Trump também impulsiona a perpetuação do preconceito e isso influencia a cultura, inegavelmente. É um ciclo vicioso em que políticos e mídia influenciam a sociedade à normalizar o discurso de ódio e a violência como um todo.

Em algum momento, inevitavelmente The Hunt chegará aos cinemas ou alguma plataforma de streaming, principalmente porque vivemos em uma sociedade em que tragédias atuais são consumidas pela mídia rapidamente e já esquecidas no dia seguinte, substituídas por outras — forma como a mídia funciona baseada no nosso próprio comportamento, infelizmente. E, claro, existe o fato do estúdio ter gastado dinheiro fazendo esse filme e o público que pretendia assisti-lo antes e pretende ainda mais agora.

Dificilmente a Universal engavetará para sempre um filme pronto para ser lançado.

Sobre o filme em si, não tenho como dizer qualquer coisa porque não assisti à produção. Portanto, pode ser uma sátira do uso desenfreado de armas, do conflito de classes chegando ao seu derradeiro ápice ou de uma sociedade que se encaminhou para ver a violência como esporte. Mas também pode ser uma história que glorifica a brutalidade e é apenas uma pornografia da violência, que nos coloca no papel de quem agride, e não de quem é agredido. Existe uma quantidade considerável de longas que glorificam o uso de armas, principalmente ao colocar o protagonista na posição de um herói armado.

Mas sendo um filme da Blumhouse, o estúdio por trás de Corra! e a franquia Uma Noite de Crime, não é difícil esperar um filme de terror com uma mensagem social embutida. A própria trama de The Most Dangerous Game não abre espaço para imaginar que The Hunt encorajaria e glorificaria a violência.

O próprio trailer mostra que esse não é o caso.

O fato é que, historicamente, comentários sociais e histórias de terror sempre andam de mãos dadas. Em 1988, John Carpenter lançou Eles Vivem, uma história em um mundo onde alienígenas invadem o planeta para nos explorar através de princípios capitalistas. Dez anos antes, George Romero lançou o clássico de zumbis Despertar dos Mortos, sobre o nosso consumo desenfreado. Em 2017, Jordan Peele fez sua estréia como diretor com um fantástico Corra!, que coloca holofote no racismo.

Frequentemente, o terror pode e deve utilizar metáforas para nossos maiores medos e colocar pessoas comuns em situações assustadoras, bizarras e horrorosas para fazer uma análise sobre nós individuo ou como sociedade. O ponto do terror é exatamente ampliar tudo e se desprender do “realismo” do drama para nos apontar o que evitamos ver.

Depois desses últimos ataques, o apresentador Trevor Noah fez um comentário muito pertinente no The Daily Show sobre como os EUA – e não apenas os americanos – estão vivendo uma espécie de transtorno pós-traumático coletivo com os constantes ataques no país. Ao invés de direcionar a discussão para como o porte de arma impacta o país, Trump atacou alguém que constantemente o ataca e ignorou o seu próprio discurso problemático.

É claro que a contribuição da mídia para a construção de uma sociedade violenta precisa ser discutida, mas quando o tema é usado apenas para desviar a atenção do público para o real problema, não estamos tão distantes do mundo que o olhar amplificado do terror nos mostra.

Assista ao comentário de Trevor Noah aí embaixo.