Vai mesmo acontecer: em 2019, sai material inédito de Miracleman by Neil Gaiman | Judão

Tinha até virando lenda, como acaba acontecendo com tudo relacionado a este personagem. Mas a batalha legal foi mais uma vez vencida pra que ele possa voltar a travar suas batalhas nos gibis.

O anúncio original, na verdade, foi feito com toda a pompa e circunstância láááááááá em 2016: a partir do terceiro volume da saga batizada de The Silver Age, enfim veríamos histórias inéditas da dobradinha Neil Gaiman e Mark Buckingham para ninguém menos do que o histórico (e igualmente problemático, tanto dentro quanto fora das páginas) personagem conhecido como Miracleman.

Mas The Silver Age #3, que em tese sairia por volta de abril de 2016, nunca veio. Os distribuidores tavam esperando, os leitores idem... mas nada aconteceu. Os planos acabaram sendo indefinidamente adiados. “Buckingham está redesenhando a história inteira e o resultado se parece com Marvel encontra Miyazaki”, afirmou, durante a San Diego Comic-Con de 2017, o editor sênior da Casa das Ideias, Nick Lowe.

Pouco mais de um mês depois, o Cultured Vultures falou com o próprio Buckingham na CC de Londres, e ele confirmou que a coisa tava toda rolando. “Neil também foi pai de novo e basicamente nossos filhos foram a razão pela qual muito pouco foi feito até então. Mas a boa notícia é que está rolando”, revelou ele, que também está trabalhando no roteiro, fazendo questão de destacar que não vai ser exatamente a MESMA história que eles queriam contar entre as décadas de 80/90. “Estamos pensando no contexto de hoje e em como o mundo mudou”.

E eis que então chega a SDCC de 2018. E no seu evento fechado para distribuidores, a Marvel confirmou que, ENFIM, a parada será publicada em algum momento do começo de 2019, agora que todos os “problemas” foram resolvidos. “Estou feliz de saber que todas as amarras que estavam impedindo que eu e Mark fizéssemos Miracleman foram retiradas”, afirmou Gaiman, em comunicado oficial.

As tais “amarras”, embora NINGUÉM tenha dito isso oficialmente, muito possivelmente eram de cunho legal, vamos combinar. Porque advogados fazem tão parte desta história quanto o quadrinista Mick Anglo, que criou em 1954 aquele personagem ainda chamado de Marvelman — no caso, Micky Moran, um jovem repórter que encontra um astrofísico que dá a ele poderes baseados na energia atômica. Afinal, estamos falando do início da Guerra Fria e do medo nuclear. A partir daí, Micky só precisa gritar “KIMOTA!” (atomic, com k e de trás pra frente) para se transformar.

Te lembra algo? Sim, isso mesmo: a encomenda para o surgimento do personagem partiu de uma editora chamada L. Miller & Son, que republicava na Inglaterra as histórias do Capitão Marvel produzidas pela Fawcett Comics nos EUA. Mas aí surgiu aquele processo de plágio movido pela DC, que acusava o herói que gritava SHAZAM! de ser uma cópia do Superman, a pequena Fawcett achou que não ia ter como arcar financeiramente com uma luta nos tribunais e Billy Batson saiu das bancas naquele momento. Sem ter o que publicar, a L. Miller & Son resolveu bancar o plágio do plágio. A estreia, inclusive, rolou na revista Marvelman #25, aproveitando a mesma publicação do antigo Capitão Marvel.

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Sucesso total e garantido até 1963 — quando finalmente a Inglaterra liberou a importação de gibis, o pacotão Marvel e DC passou a ser consumido pela galera de lá e a L. Miller & Son não aguentou o tranco. O herói permaneceria em silêncio até 1982, quando o editor Derek “Dez” Skinn, da Quality Communications, resolveu lançar uma revista mensal, P&B, só com antologias, a hoje lendária Warrior, e resolveu “ressuscitar” o Marvelman, quase 20 anos depois. Para a missão, foi convocada uma jovem revelação local dos roteiros, um maluco de nome... Alan Moore.

Já dá pra imaginar que a releitura do escritor, mais sombria, moderna, contemporânea, adulta, uma reinterpretação completa do mito do super-herói anos antes de sequer imaginar fazer Watchmen, se tornou nada menos do que histórica. Moore ganhou evidência, o herói trouxe seu público antigo de volta e ainda conquistou toda uma nova geração de leitores. A ponto, claro de chamar a atenção da Marvel, que logo disse “escuta, este cara aí, que papo é este de chamar de Marvelman? Ôpa, este nome é meu”. Começava aí uma loooooonga trajetória de problemas que o perseguiriam...

Na época em que Skinn licenciou o personagem pra editoras americanas, o cara ficou com medo da gigante americana e eis que surgiu o nome Miracleman. As tretas financeiras com Moore, que sabia bem do seu valor, foram e voltaram até que o roteirista, já conhecido por seu gênio forte e por não ter papas na língua, enfim abandonou o título. E pro seu lugar, então foi convocada OUTRA revelação fundamental daquela nova geração de autores britânicos — e é aí que Neil Gaiman entra na história, junto com Mark Buckingham, trabalhando pra Eclipse Comics, que não só reimprimiu como também resolveu dar continuidade à cronologia dos personagens. Aproveitando o gancho de Moore, Gaiman finalizou a chamada Era de Ouro do Miracleman com seis capítulos e deu então início à tal Era de Prata, que teve apenas duas primeiras partes de Era de Prata. Mas, adivinha, o gibi foi cancelado mais uma vez, agora por conta da falência da Eclipse.

E foi aí que o treco se complicou, como a gente explicou detalhadamente neste texto: anos depois, Gaiman escreveu Spawn pro Todd McFarlane, criando os personagens Spawn Medieval, Angela e Cogliostro. E começou a cobrar os direitos de utilização da trinca. E aí, como barganha, o criador do Spawn foi lá e comprou os direitos da Eclipse, trazendo Miracleman no bolso, já que a negociação entre Anglo e Skinn nunca ficou lá muito clara e este último afirmou, inclusive, ter repartido os direitos entre os roteiristas posteriores, como Moore e o próprio Gaiman.

Enfim, o tal acordo entre McFarlane e Gaiman acabou nunca sendo efetivado num documento, a briga foi parar na Justiça e durou LOOOOOONGOS anos. O inglês chegou até a escrever a minissérie 1602 pra Marvel pensando especificamente em usar a grana pra custear a batalha judicial. Só que a Casa dos Ideias, a-há, safadinha, sacou que alguém não tava sendo ouvido aí nesta conversa. Seus representantes pegaram um avião pra Inglaterra e compraram os direitos DIRETAMENTE do próprio Mick Anglo, criador do personagem. Parte do assunto, pelo menos, se resolveu.

Em 2012, enfim, depois de muitas idas e vindas, Gaiman finalmente conseguiu o que queria. Levou a Angela pra fazer parte real oficial do Universo Marvel (no fim, ela se tornou filha de Odin e irmã de Thor e Loki) e permitiu que a Marvel pudesse republicar Miracleman desde o início. Não publicaram apenas todo o material de Moore (identificado, a seu pedido, não por seu nome, mas como “O Escritor Original”), mas também uma história inédita, escrita por Grant Morrison e nunca antes vista, devidamente “proibida” décadas antes pelo barbudão, desafeto declarado do coleguinha de profissão.

Se este novo capítulo jurídico inclui novamente McFarlane de alguma forma ou o próprio Anglo, ainda não se sabe. Mas pelo menos as portas parecem estar novamente abertas para que não apenas Gaiman feche apropriadamente sua Era de Prata como, quem sabe, possa fazer definitivamente até a sua já planejada Era de Bronze. Talvez até o spin-off desenhado pelo brasileiro Mike Deodato, Miracleman Triumphant, tenha chance de sair do limbo?

Vamos esperar, não dá pra saber ainda. ;)