Então tá, vamo falar sobre a Enfermeira Noturna? | Judão

Christine Palmer ou Claire Temple? Na verdade, nos quadrinhos elas seriam uma única personagem, chamada Linda Carter (não confundir com uma certa atriz que interpretou uma guerreira amazona)

Nas séries do Netflix, sabemos que Rosario Dawson, através da Claire Temple, vem fazendo as vezes da personagem conhecida nas histórias em quadrinhos como Enfermeira Noturna, dando uma força nas sombras sempre que os heróis precisam de um suporte médico depois de levar quantidades substanciais de porrada.

Mas eis que aí, no filme do Doutor Estranho, surge Christine Palmer, uma outra personagem, que cumpre rigorosamente o mesmo papel assim que Stephen Strange retorna para Nova York. Conforme o próprio Borbs apontou no seu texto sobre o filme, não faria mais sentido que elas fossem a mesma personagem? Afinal, quem diabos é a tal da Enfermeira Noturna do MCU?

A resposta correta seria “as duas”, ao que parece. Mas se formos levar os gibis em consideração ao pé da letra, talvez a resposta AINDA mais correta seria “nenhuma das duas”.

Night Nurse

Em 1961, a Atlas Comics, precursora da Marvel, publicou um título chamado Linda Carter, Student Nurse. O gibi teve vida curta, durando apenas nove edições e sendo cancelado em janeiro de 1963, mas durou o bastante para deixar Stan Lee com umas ideias na cabeça, do tipo que poderiam ser desenroladas quase uma década depois.

Esta foi a semente para Night Nurse, gibi da Casa das Ideias lançado em novembro de 1972 e estrelado por Linda Carter (olha só, que danado este tio Stan), Georgia Jenkins e Christine Palmer. As três eram colegas de quarto que trabalhavam no turno da noite lá no Metropolitan General Hospital, em Nova York.

Antes de qualquer coisa, é bom que se diga: originalmente, as aventuras das garotas não tinham qualquer relação com a cronologia da Marvel. Elas não encontravam com super-heróis e tampouco eram afetadas pelos ataques cósmicos que vez por outra transformavam a vida do nova-iorquino típico num inferno.

Era uma mistura de Grey’s Anatomy com, sei lá, Criminal Minds, já que as enfermeiras tinham a sua dose de perigo ao encarar mafiosos, terroristas e a porra toda. A HQ era uma das tentativas da editora para conquistar o “público feminino”, de acordo com o que revela o roteirista e editor da Marvel na época, Roy Thomas, em entrevista para a revista Alter-Ego, em 2007. “Stan Lee [editor-chefe naquele período] teve a ideia e pensou nos nomes das três protagonistas. Ele queria gibis que tivessem um algo a mais para garotas, afinal sempre procuramos formas de expandir nossas franquias”, explica Roy. “Já a minha ideia foi trazer mulheres para escrever estes títulos”. No caso de Night Nurse, a solução de Roy foi caseira: com arte de Winslow Mortimer, o gibi contava com roteiro de Jean Thomas, a esposa do editor.

A sorte do gibi, todavia, durou pouco – na real, menos ainda do que a do seu PREDECESSOR na Atlas Comics, tendo apenas QUATRO números publicados. “Esta foi uma tentativa de fazer quadrinhos para jovens garotas que liam séries de livros como Cherry Ames, Sue Barton e Nancy Drew”, tentou entender a própria Jean, durante um papo com a revista Back Issue. “Talvez o formato gibi não funcionasse pra elas na época. E foi difícil de distribuir também: era muito sério se comparado aos gibis mais românticos mas não era cheio de testosterona como aqueles de super-heróis para homens”.

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As três personagens simplesmente desapareceriam dos gibis por três décadas, até que em 2004 duas delas seria retomadas em momentos completamente distintos. Depois de um encerramento esquisito no qual foi parar numa mansão mal-assombrada em meio a uma trama típica de filme de terror (em Night Nurse #4), Christine Palmer retornaria ao seu local de origem e surgiria fazendo uma participação especial no gibi solo do x-man Noturno. Em pleno Metropolitan General Hospital, ela conhece Ororo Munroe, aka Tempestade, e pede a sua ajuda para investigar uma aparição “demoníaca” na ala psiquiátrica infantil.

Quem se prontifica a dar uma força é o próprio Kurt Wagner, especialista no assunto. Conforme os números foram passando, uma espécie de romance entre os dois começou a se desenhar, até que ela teve que partir de volta para o Arizona, em busca de uma vida tranquila ao lado de sua mãe.

Das três, no entanto, a que teria de fato vida mais longa no Universo Marvel seria mesmo Linda Carter, aquela que passou a ser efetivamente chamada de Enfermeira Noturna e assumiu o papel de “costuradora oficial e secreta das cicatrizes do elenco de heróis da editora”.

Originalmente, lá nas histórias dos anos 70, descobrimos que ela foi forçada a escolher entre o casamento com um rico empresário e a profissão de enfermeira... e acabou dando um baita pé na bunda do sujeito em prol de sua carreira. Conforme o quarto e derradeiro número se aproximava, ela engatou um romance com Jack Tryon, um jovem residente do hospital. Mas tudo ficou no ar porque a série acabou cancelada.

Claire Temple

Corta então para o mesmo ano de 2004 em que Christine foi trazida de volta das cinzas. Eis que Brian Michael Bendis transforma Linda em coadjuvante do seu arco de histórias do Demolidor, como uma mulher que ajuda o Homem Sem Medo a cuidar de seus ferimentos depois de uma luta particularmente difícil contra os homens da Yakuza. Ela não cobra nada, ela não faz questão de saber a sua identidade secreta e ainda oferece um refúgio secreto para que ele se recupere. Parece mesmo bom demais pra ser verdade e, então, rapidamente a notícia se espalha na comunidade super-heroística (esta palavra existe?).

Caras como Luke Cage, Danny Rand e um tal de Peter Parker passam a confiar em seus serviços, totalmente fora dos registros médicos oficiais e, portanto, ideais para quem tem um diacho de identidade secreta. Era de se esperar, portanto, que durante a Guerra Civil ela se colocasse ao lado do Capitão América e contra o registro de super-heróis, dando uma força mais do que necessária para o grupo de resistentes. Mais tarde, ela ainda teria um caso com ninguém menos do que Stephen Strange (falaremos mais sobre isso lá na frente) e se tornaria uma aliada importante da ninja assassina Elektra. Basicamente, Linda Carter é de fato a Enfermeira Noturna da Marvel e está por aí, dando seus pontos.

Basicamente, Linda Carter é de fato a Enfermeira Noturna da Marvel e está por aí, dando seus pontos

Mas... e Claire Temple? O que diabos ela tem a ver com esta história toda? Afinal, nas séries do Netflix, não é ela quem assume este papel de “Enfermeira Noturna” para Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro?

A Claire TAMBÉM existe nas HQs, na verdade. Ela surgiu já no segundo número do gibi Luke Cage, Hero for Hire, em agosto de 1972 (o mesmo ano em que foi publicado o primeiro número de Night Nurse, acompanhe o raciocínio). Médica que trabalha numa clínica local, rapidamente ela descobre que o paciente que chegou ali depois de ser baleado pelos homens do Kid Cascavel tem a pele impenetrável. Depois de ajudá-lo com seu álibi para a polícia e ser sequestrada pelo vilão, Claire começa um envolvimento romântico com Cage, tornando-se um dos seus primeiros casos amorosos no mundo dos gibis.

Mesmo com inúmeras tentativas de assassinato e até uma eventual acusação por um crime que jamais cometeu, Claire Temple continuou segurando a barra que era gostar do Luke. Até que em 1978, justamente quando o título mudou de nome e virou Power Man and Iron Fist, lá no número 50, a situação ficou insustentável e a jovem decidiu encerrar a relação, sumindo da vida do herói de aluguel para sempre.

Ou melhor, vai, “quase” para sempre, já que “pra sempre” é tempo demais no mundo dos gibis. Eles voltariam a se encontrar alguns anos depois, quando ela se torna a pessoa ideal para dizer para Luke Cage que o cara não deve desistir de lutar contra o crime mesmo diante de uma população que age de maneira bastante ingrata. E, obviamente, no melhor modo “enfermeira noturna”, ainda dá uma mão para cuidar dos ferimentos do seu parceiro Punho de Ferro (já que Cage é daqueles caras um tanto difíceis de se ferir, por assim dizer).

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Recentemente, pós-aparição no Netflix, a personagem foi novamente integrada ao Universo Marvel e deu as caras em Captain America: Sam Wilson #4. O Sam se tornou um lobisomem e acabaram levando o sujeito pra ser tratado por ela, mencionada como “amiga de Misty Knight” e “especialista em condições incomuns”. Esperem vê-la mais frequentemente por aí.

O grande ponto aqui é: a personagem de Rosario Dawson se tornou Claire Temple por conta da ÚNICA interferência criativa realmente relevante que a Marvel teve quando o showrunner Steven S. DeKnight estava desenvolvendo a série do Demolidor. Em entrevista ao IGN, ele revelou que a ideia era que ela tivesse outro nome. “Foi o único ‘não’ que eu ouvi. Ela seria a mesma Enfermeira Noturna dos quadrinhos, mas a equipe de cinemas tinha planos para ela. Então, nós só mudamos o nome, mas a personagem acabou ficando a mesma”. Importante que se diga aqui: DeKnight não usa abertamente o nome “Linda Carter”, embora muito provavelmente seja dela que o sujeito estava falando.

Só que aí, depois do que o cara disse, foi só a Rachel McAdams ser anunciada no filme do Doutor Estranho como uma médica e possível envolvimento romântico do Mago Supremo pra todo mundo achar que, bom, ela seria a Linda Carter. Era uma aposta certa, era uma aposta ÓBVIA até. Começaram então as especulações, uau, ela poderia ser a “enfermeira” que vai cuidar da galera, vai arrumar uns remédios pro Homem de Ferro, vai passar mertiolate no Capitão América. Só que quando revelaram o nome da personagem, pimba, Christine Palmer.

Para o EW, o chefão dos Marvel Studios, Kevin Feige, disse que não existem planos para que Palmer se torne a Enfermeira Noturna. Pelo menos, não ainda. “Vamos dizer que esta é uma trama que não se encaixa neste filme”. Mas e quanto ao futuro? “Ficar especulando a respeito é tão divertido pra gente quanto é para os fãs”.

Estaria a Marvel com algum plano secreto para a Linda Carter? Talvez ela se junte à Claire e Christine em uma clínica especializada para cuidar de super-heróis depois da pancadaria que as dezenas de personagens superpoderosos vão sofrer ao longo da luta contra o Thanos? Porque, afinal, haja plano de saúde pra esta gente toda...