Versões americanas para o cinema europeu | Judão

Mas pode usar também uma chamada do tipo “você não vai acreditar que estes filmes americanos são na verdade remakes de filmes europeus!”

Quando a gente fala em “cultura pop”, geralmente tem a mania de pensar no que se produz na nos EUA. Se falamos em cinema lá do Velho Continente, o que passa pela cabeça da galera de imediato é um bando de filmes cabeça/experimentais dirigidos por caras cabeçudos como Godard, Truffaut, Fellini. Nada contra eles, muito pelo contrário até, já que TODOS estes camaradas fizeram/fazem cinema bom pra caralho e cê devia sair da bolha imediatamente pra vê-los, aliás. Mas o ponto aqui é que tem muito mais em termos de cultura pop, popular, de massa, mainstream, sendo feito na Europa do que pode sugerir o estereótipo babaca do cineasta arrogante de boina e bigode a la Dali.

Aí, a gente quis aproveitar que essa semana estreia por aqui o Valerian, que é sim mais uma adaptação de quadrinhos para os cinemas, mas uma produção europeia baseada num gibi francês, pra justamente olhar pra um outro lado do mundo que, muitas vezes, a gente ignora.

Por exemplo: tem uma porrada de produções consagradas, icônicas até, que Hollywood colocou na rua nas últimas décadas e que são nada menos do que remakes de longas originalmente produzidos na Europa. Saber você sabia, claro. Mas nós não vamos nem mencionar coisas como Vanilla Sky, baseado no Abre los ojos de Alejandro Amenábar, ou o Solaris do Soderbergh que é uma tentativa de refilmar a obra de mesmo nome do Andrei Tarkovsky. Afinal, ambas são de conhecimento popular. Não, a gente tá aqui é falando de filmes que quase ninguém lembra (ou, sei lá, nem sabe mesmo) que são refilmagens. É o mais puro pop ianque indo buscar inspiração (e uns dinheiros) em terras europeias.

E isso, claro, falando só de cinema. Porque se a gente fosse pra séries... :)

Quanto mais Quente Melhor (1959)

Talvez a comédia romântica por essência e excelência, um dos maiores clássicos do diretor Billy Wilder, com uma trinca monstruosa interpretada por Marilyn Monroe (e sua presença tempestuosa), além dos inesquecíveis Tony Curtis e Jack Lemmon.

Impossível não lembrar da performance brilhante dos dois como uma dupla de músicos que acabam se vestindo de mulher para fugir da máfia, depois que se tornam as únicas testemunhas de um crime terrível. No entanto, o roteiro de Wilder é baseado no filme francês Fanfare d’amour, de 1935, escrito por Robert Thoeren e Michael Logan, e dirigido por Richard Pottier.

Todavia, contudo, rolou uma complicação: Wilder viu o original da França, amou, quis adaptar... mas como encontrar o roteiro dos anos 30, tão antigo? Aí, eis que alguém foi atrás de Fanfaren der Liebe, o igualmente bem-sucedido remake alemão de Kurt Hoffmann, lançado em 1951. Tava resolvido o problema. ;)

A Noviça Rebelde (1965)

Pois é, tudo começou com o livro The Story of the Trapp Family Singers, escrito e publicado em 1947 por ninguém menos do que Maria von Trapp para divulgar o seu grupo musical familiar depois da morte do marido, Georg. Algum figurão de Hollywood curtiu a ideia mas queria apenas o título, para desenvolver o resto como bem entendesse. Maria negou, dizendo que sua história deveria ser contada na íntegra. Aí, em 1956, o produtor alemão Wolfgang Liebeneiner adquiriu os direitos e contratou George Hurdalek e Herbert Reinecker para escrever o roteiro, além de Franz Grothe pra supervisionar a trilha sonora, que consistia apenas de músicas folk austríacas. Seria então lançado The Trapp Family (1956), que se tornou um baita sucesso no país, um dos maiores hits do cinema alemão no pós-guerra.

A Paramount chegou então a comprar os direitos do filme pros EUA, pensando até em uma versão em inglês com Audrey Hepburn como Maria — mas os planos foram engavetados. Pois Vincent J. Donehue, um dos diretores originais, propôs que a história se tornasse um musical pra Broadway, correu atrás e fez acontecer. Só depois do sucesso nos palcos é que a Fox então comprou os direitos da versão musical. Basicamente, tamos falando aqui do remake do remake. <3

Victor ou Victoria? (1982)

Outro clássico absoluto desta lista, direção de Blake Edwards para Julie Andrews brilhar como uma cantora que não consegue decolar na carreira artística até que tem a brilhante ideia de fingir que é, na verdade, um homem fazendo se passar por uma mulher (o que acaba complicando bastante sua vida pessoal).

Maaaaaaas... o roteiro de Edwards, por mais que tenha, segundo consta, sido escrito em apenas um mês, é na verdade uma adaptação de Viktor und Viktoria, filme alemão de 1933, dirigido por Reinhold Schünzel e que, aliás, Andrews declarou publicamente ter sido a sua principalmente inspiração para se preparar para o papel. Rolou ainda, em 1935, uma ooooooutra refilmagem, esta inglesa, chamada First a Girl, com direção de Victor Saville. Mas desta pouca gente se lembra, né?

Três Solteirões e um Bebê (1987)

Dois anos antes de Leonard Nimoy (sim, ele mesmo) dirigir a história de três caras solteiros, acostumados a uma vida de FERVEÇÃO e pegação, que acabam tendo que cuidar de um pequeno bebê deixado à sua porta, a mesma história acontecia na França, com Trois hommes et un couffin.

A comédia de Coline Serreau, que chegou a ser indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro (juro, em 1986), performou tão bem na terra que um dia teria Neymar como morador que ganhou em 2003 uma continuação, 18 ans après — ou “18 anos depois”, o que já dá uma boa ideia da sinopse. Além da versão americana, também seriam produzidas QUATRO diferentes versões na Índia, cada uma falada em uma língua diferente. Só que nenhum destes remakes, claro, tinha um fantasma atrás da cortina.

Perfume de Mulher (1992)

A interpretação de Al Pacino como o igualmente sedutor e IRASCÍVEL homem cego de Perfume de Mulher é inesquecível, claro.

Só que quase 20 anos antes, em 1974, outro grande ator já tinha incorporado o mesmo papel: o italiano Vittorio Gassman (astro de O Incrível Exército de Brancaleone, outro filme simplesmente indispensável). Ele brilhou em Profumo di donna, a produção italiana de Dino Risi que já era uma adaptação de um livro, Il buio e il miele, escrito por Giovanni Arpino. Além de TAMBÉM ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, a versão italiana chegou a concorrer na categoria de melhor roteiro adaptado.

True Lies (1994)

“Ai, Exterminador do Futuro, que foda”. Não, gente. Um dos filmes mais geniais da carreira de Arnold Schwarzenegger é sem sombra nenhuma True Lies, não por acaso TAMBÉM dirigido por um certo James Cameron — na real, o primeiro filme distribuído sob o acordo milionário do seu estúdio, a Lightstorm Entertainment, com a Fox, além de ser a primeira grande produção da empresa de efeitos visuais Digital Domain, também co-fundada por Cameron.

E, sim, True Lies TAMBÉM é uma refilmagem, de uma comédia francesa de 1991 chamada La Totale!, de Claude Zidi. O mais divertido aqui é ver a diferença de perfil, não apenas físico mas também de interpretação, do Governator para o protagonista Thierry Lhermitte no papel de um agente secreto que é obrigado a esconder da esposa sua vida de perigos e aventuras. O trailer abaixo dá uma amostra...

Os 12 Macacos (1995)

Antes de ser série, Os 12 Macacos era um PUTA filme dirigido pelo Terry Gilliam. Mas, antes de ser este filmaço, na real, Os 12 Macacos era La Jetée — no caso, um curta-metragem francês de 1962, dirigido por Chris Marker e que, ao longo de seus 28 minutos, usa quase que somente fotos estáticas em preto e branco pra contar a história de um experimento de viagem no tempo pós guerra nuclear.

Um curta do qual o produtor executivo Robert Kosberg era muito fã, aliás. E ele foi atrás de Marker para que pudesse transformar aquilo num longa-metragem, por mais que a Universal tenha sido bastante relutante em botar grana pra comprar os direitos. Gilliam foi escolhido para dirigir, uma das poucas obras cujo roteiro ele mesmo não ajudou a assinar – mas acabou que o cineasta ficou vidrado no texto da dupla David & Janet Peoples.

Insônia (2002)

Insônia é um thriller psicológico de 2002, dirigido por Christopher Nolan e com Al Pacino, Robin Williams e Hilary Swank no elenco, contando a história de dois detetives do departamento de homicídios de Los Angeles investigando um assassinato numa cidade do Alaska, sofrendo os efeitos da privação de sono.

Mas é também o nome de um filme norueguês, lançado em 1997, com Stellan Skarsgård (aka Dr. Erik Selvig) no papel principal. Estreia na direção do promissor Erik Skjoldbjærg (que depois faria Geração Prozac, com Christina Ricci, Anne Heche, Michelle Williams, Jonathan Rhys Meyers e Jessica Lange), a produção é a inspiração do único filme da filmografia de Nolan que não traz crédito de roteiro para ele também, por mais que ele tenha trabalhado diretamente na versão final do script.