Vida de Inseto (Gigante) | Judão

Formigas, aranhas, vespas, escorpiões e louva-a-deus gigantes eram o créme de la créme do absurdo no sci-fi dos anos 50. Pegue o chinelo, separe o Raid e embarque conosco nesta colossal lista para conhecer um pouco mais da fauna cinematográfica dos Big Bugs :)

Parece que foi ontem, mas Anaconda completa exatos 20 anos nessa terça-feira, 11. Fenômeno pop inexplicável dos anos 90, com seu desbunde de 45 milhões de dólares MUITO mal aproveitados em efeitos especiais (o que equivale a 100 mil dólares por segundo!), para mostrar aquela marota cobra brasileira que tem como nêmesis ninguém menos que Jennifer Lopez em sequências da mais fina nata da tosqueira.

Como não lembrar do sujeito engolido pela réptil que se debate dentro do bucho? O momento mágico da sequência da cachoeira com o fluxo d’água SUBINDO? O ataque em extrema velocidade do ofídio gigantesco trepando em uma árvore para pegar a vítima em queda livre como se fosse um BUNGEE JUMP? E o ápice, quando Jon Voight (que devia ter um monte de conta para pagar para topar participar desta bagaceira) é devorado apenas para, logo na sequência, a cobrona VOMITAR o cara, que sai vivinho da silva e ainda dá uma piscadela para a câmera?

Porque, afinal de contas, o que não faltam na cultura pop são exemplos bizarros, surpreendentes e sempre cheios de criatividade ;)

Posted by Judão on Monday, April 10, 2017

Mas saiba você que essa história de filmes lixosos com animais gigantes já não era novidade nem naquela década. Durante os longínquos anos 50, o medo nuclear e a paranoia dos experimentos envolvendo a radiação colocaram o cinema de terror/sci-fi americano na rota de colisão de um recém-nascido subgênero conhecido como Big Bugs, onde militares, cientistas e o cidadão comum se viam às voltas com, bem, como o próprio nome já diz, insetos gigantes que tinham como único objetivo destruir o mundo como nós conhecemos – e alertar os impressionáveis norte-americanos dos perigos de se dividir o átomo.

A sétima arte foi brindada com todo e qualquer tipo de monstros mutantes, tipo O Ataque do Gafanhoto Gigante, O Ataque da Formiga Gigante, O Ataque da Lagarta Gigante e por aí vai, sempre com enredos banais e repetitivos, usados diversas vezes como receita de bolo para cada uma dessas produções bisonhas. Era bem isso:
a criatura gigante seria vislumbrada, mas não mostrada por inteiro, em algum ponto durante os maçantes 20 primeiros minutos do filme. Então ele apareceria para o bêbado da cidade, que nunca seria levado a sério pelas autoridades — na maioria dos casos ele seria morto ou devorado, sem que ninguém desse importância. Com o tempo os atores B no papel principal, geralmente um casal, começariam a se tocar mas ninguém acreditaria neles também. Então mais ou menos nos últimos 30 minutos de filme, no terceiro ato, nosso herói, que convenientemente era um cientista, acabaria descobrindo como destruí-lo, o que culminaria num grand finale com tropas da Guarda Nacional chegando em cima da hora para destruir a terrível criatura com tanques, lança-chamas ou granadas.

Mas não pense que estrelar como vilão dessas produções era privilégio apenas da classe insecta, não, já que os aracnídeos também tiveram sua vez junto de seus primos artrópodes de seis patas, além de outros tipos de bichos que também tomaram sua dose de whey protein irradiada, como moluscos, crustáceos e répteis — mas que não vem ao caso aqui, já que vamos nos ater apenas ao nosso estudo entomológico.

Pois bem, pegue o chinelo, separe o Raid e embarque conosco nesta colossal lista para conhecer um pouco mais da fauna cinematográfica dos Big Bugs. :)

| O Mundo em Perigo (1954)
Animal anabolizado da vez: Formiga
O absurdo: O Pai de Todos os Big Bugs e o avô do clássico O Império das Formigas (aka O Ataque das Formigas Gigantes, que passava domingo sim, domingo não, na saudosa Sessão das Dez no SBT, lembra?). O Mundo em Perigo foi o pontapé inicial no subgênero e fez escola quando simples formigas, aquele animal minúsculo e inofensivo que você talvez escortamente gostasse de queimar com a luz do sol refletida em uma lupa quando criança, tornam-se criaturas gigantescas, que variam de dois a quatro metros de altura, com força descomunal, podendo carregar vinte vezes seu próprio peso e total na pegada de colocar o mundo, em, hã, perigo. Ah se o Scott Lang tivesse uma dessas…

Quando o homem entrou na era atômica, ele abriu a porta para um novo mundo. O que eventualmente encontraremos nesse novo mundo, ninguém pode prever…

| Tarântula (1955)
Animal anabolizado da vez: Tarântula
O absurdo: O cientista maluco de plantão, especialista em biologia nutricional, tem como meta altruísta manipular atomicamente os nutrientes para solucionar um grave problema populacional no futuro: a falta de alimentos devido a super população da Terra. Entre os objetos de teste, uma tarântula que escapa por culpa do estagiário e ganha a planície do deserto do Arizona se alimentando de gado e humanos, chegando ao impressionante tamanho de 30 metros de altura.

Uma tarântula de verdade foi usada nas filmagens e depois, por meio da técnica de sobreposição de imagens, a imagem aumentada do animal foi colocada no deserto e na cidade, dando aquela impressão de AUTENTICIDADE. Vale prestar atenção numa ponta de ninguém menos que Clint Eastwood em um dos seus primeiros papéis no cinema, como um piloto de jato.

| Beginning of the End (1957)
Animal anabolizado da vez: Gafanhoto
O absurdo: Um cientista agrícola obteve sucesso em aumentar o tamanho de vegetais usando radiação, sempre ela. Só que acabou servindo de banquete para um enxame de gafanhotos que cresceram gigantescamente e passaram a aterrorizar Chicago.

Detentor da honraria de “efeitos especiais mais atrozes e um dos mais pobres filmes de sci-fi dos anos 50 no quesito roteiro e atuação” dada por Bill Warren no livro Keep Watching the Skies! American Science Fiction Movies of the Fifties, o diretor Bret L. Gordon comprou 200 gafanhotos no Texas, mas quando tentou levá-los à Califórnia para realização do filme, a Secretaria de Agricultura do Estado obrigou uma inspiração minuciosa de cada um dos animais, para saber seu sexo. Isso msmo, tiveram que olhar as VERGONHAS do animal para saber se eles iriam se reproduzir, para não começar uma praga. Gordon os manteve-os em uma caixa por alguns poucos dias, mas o suficiente para os gafanhotos se canibalizarem, comendo uns aos outros, sobrando apenas 12 vivos para as gravações.

| O Escorpião Negro (1957)
Animal anabolizado da vez: Escorpião
O absurdo: Abalos sísmicos causados pela violenta erupção de um vulcão no México abrem uma enorme cratera bem no centro da terra, onde uma ninhada de gigantes escorpiões viviam escondidos desde o período triássico. Os aracnídeos saem pelo vale de San Lorenzo a fim de se alimentar de alguns rancheiros que trabalham na fazenda de gado e saciar sua sede por sangue. Os efeitos em stop-motion dos escorpiões são de Willis O’Brien, que fez parte da equipe de criação dos efeitos de King Kong e havia trabalhado com o mestre Ray Harryhausen em Mighty Joe Young.

Uma das cenas que mais chamam atenção é quando os aracnídeos fermentados atacam um trem em movimento, descarrilhando-o (mas que dá para ver até a marca da fábrica de brinquedos na lateral de um dos vagões do trenzinho!) e pinçando os pobres passageiros para dar-lhes um final trágico. O close da cara do boneco mecatrônico babando e com seus olhos vesgos, é de chorar de rir!

| Fúria de Uma Região Perdida (1957)
Animal anabolizado da vez: Louva-a-Deus
O absurdo: Uma explosão vulcânica em uma ilhota no meio do oceano faz com que as geleiras do Polo Norte começassem a se desprender e derreter, e como bem diz a terceira lei de Newton – devidamente explicada no começo do filme – toda ação causa uma reação, o congelado gigantesco louva-a-deus pré-histórico, habitante de nosso planeta há milhões de anos, acorda da animação suspensa morto de fome e vê nos seres humanos sua presa ideal. Além disso ele é virtualmente indestrutível, pois tiros de metralhadoras, lança-chamas, canhões terrestres e mísseis não fazem nem cócegas no animal.

Vezes um bonecão de borracha, vezes sobreposição de imagem de um louva-a-deus voando – apesar do zumbindo insuportável – fazem a graça da película.

| Monster from Green Hell (1957)
Animal anabolizado da vez: Vespa
O absurdo: Exibido nos cinemas em dobradinha com o não menos fabuloso O Cérebro do Planeta Arous e beeeeem vagamente inspirado no livro de H.G. Wells, O Alimento dos Deuses, durante a preparação para mandar o primeiro foguete tripulado para o desconhecido e além, uma dupla de cientistas americanos resolveram enviar uma série de animais e insetos para o espaço a fim de testar sua capacidade de sobrevivência. Um dos foguetes contendo vespas sofre uma pane e cai na costa da África. Não demora para que um tempinho depois comece a se espalhar a fofoca de que um monstro está aterrorizando pessoas e animais num local conhecido como “Inferno Verde”. Claro, são essas vespas, que em contato com a radiação cósmica (tipo a mesma que transformou o Quarteto Fantástico) e se tornaram criaturas mutantes gigantescas.

Sério, os bichos são tão toscos que parecem alegoria de carro de escola de samba do grupo de acesso de São Paulo, isso sem contar o zumbido insuportável.

| A Maldição da Aranha (1958)
Animal anabolizado da vez: Aranha
O absurdo: Produção da famigerada American International Pictures de Samuel Z. Arkoff e James L. Nicholson (o pai do Jack) é mais um dirigido por Bret L. Gordon. Aqui, um aranhão da porra surge em uma caverna e é dado como morto após as autoridades locais atacarem-na com o bom e velho DDT. Seu corpo é levado para o ginásio do colégio, até que um grupo de adolescentes procurando aprontar altas confusões enquanto escutam o tal do rock ‘n’ roll, acabam acordando a Dona Aranha que lá vai tocar o terror na cidade.

O título original do filme era Earth vs Spider, mas quando A Mosca da Cabeça Branca (The Fly) foi lançado no cinema e se tornou um baita sucesso de público, os marketeiros natos da AIP abreviaram para apenas The Spider no material de publicidade. Mas esqueceram de mudar a cartela dos créditos iniciais do próprio filme. Boa!