A vida real tá muito Black Mirror | Judão

Seis novos episódios da série continuam pesados e cutucando feridas, mas dessa vez a gente consegue sentir melhor esse peso e as feridas são nossas

“Eu literalmente fiz isso hoje” respondeu Charlie Brooker, criador de Black Mirror, à comediante Aparna Nancherla, quando ela comentou no twitter, em Janeiro desse ano, que “mesmo a sala de roteiristas de Black Mirror leria as manchetes agora e pensaria ‘Ok, muito pesado'”.

Não é à toa, portanto, que entre os seis novos episódios da quarta temporda de Black Mirror, que chegam ao Netflix no próximo dia 29 e que o JUDAO.com.br já assistiu, poucas coisas consigam chocar ou assustar como acontecia quando a série ainda era extremamente britânica e infinitamente menor, em diversos sentidos.

Quer dizer: como acontecia na época em que aqueles episódios foram exibidos. Porque se até o criador de Black Mirror considera o mundo real pesado demais no primeiro mês de um ano como foi 2017...

Arkangel, por exemplo, o esperado episódio dirigido por Jodie Foster, bate em pontos muito próximos a nós e ao que vivemos hoje, mesmo se passando num “futuro próximo”, como define o guia do que podemos ou não falar sobre os episódios enviados pelo Netflix.

Arkangel

Essa coisa de SUPER PROTEÇÃO de pais e mães, a mania insuportável (e praticamente imparável) de ficar olhando o tempo todo pro celular esperando notificação de rede social ou de WhatsApp ou do que quer que seja, o tanto de informação a que a gente é exposto e, principalmente, privacidade são os principais temas tratados no episódio que parece que é mais um retrato da sociedade em que já vivemos do que da sociedade que poderíamos viver um dia.

Não que isso seja surpreendente depois de Handmaid’s Tale, mas...

Dirigido por Toby Haynes (Doctor Who, Sherlock) e co-escrito por William Bridges (Charlie Brooker escreveu todos os episódios), USS Callister é aquele que todo mundo se acostumou a chamar de “versão” ESPELHOPRETA de Star Trek, sendo realmente um típico, e realmente muito bom, episódio de Star Trek ou qualquer série de ficção científica que você escolher.

Como um bom episódio de Black Mirror, que garante que a cada vez que você assistir consegue se focar em uma coisa específica, USS Callister trata de um milhão e oitocentos e trinta e cinco temas, como a cultura tóxica dos videogames, fanatismo e, principalmente, machismo (com direito a uma frase genial PROFERIDA pela personagem de Cristin Milioti, a Mãe de How I Met Your Mother) e misoginia — todos temas que vivemos e discutimos nesse momento na vida real.

Crocodile

Crocodile, filmado na Islândia e dirigido por John Hillcoat (Polícia em Poder da Máfia, A Estrada), segue a mesma linha, deixando a temporada um pouco mais política, mostrando o que uma empresa de seguros seria capaz de fazer pra não pagar o que foi contratado — no caso, utilizar uma tecnologia que permite o acesso à memórias cruas de alguns eventos.

Sofreu um acidente? Vai lá a moça, coloca um negócio na sua TÊMPORA, liga um monitor e vê tudo o que você tem na cabeça... E aí vê que tem uma possível testemunha. E vai até ela, que fala de alguma outra coisa que mostra uma outra possibilidade de resolver a história... E assim vai.

É um episódio REALMENTE pesado. Tenso, do início ao fim, sem nenhum momento de leveza ou no qual damos o benefício da dúvida a quem tá fazendo merda — o tipo de coisa que não tem desculpa, por mais bizarra que seja a ideia de você ser obrigado a expor coisas que você preferia deixar alguns vários anos no passado. Ao mesmo tempo, o final se torna meio CATÁRTICO pra quem assiste.

Hang the DJ

Se San Junipero é praticamente unanimidade não só pela maneira como esquenta nossos corações como pelo fato de que, bem, se aquela tecnologia existisse hoje eu bem que aceitaria me mudar pra lá hoje mesmo, Hang the DJ, dirigido por Tim Van Patten (The Sopranos, Game of Thrones), é tipo a sua sequência espiritual. O episódio oferece uma ideia legal e reconfortante, mas indo um pouco mais a fundo na discussão que propõe — que, aqui, pouco tem a ver com tecnologia e muito mais sobre relacionamentos, sobre tudo o que fazemos (ou não) por eles e sobre, bem, o amor ser um ato de rebeldia no fim das contas.

Outra “sequência espiritual”, Metalhead segue o espírito de sobrevivência (e um pouco mais) do ATERRORIZANTE White Bear e de Playtest. Dirigido por David Slade (Breaking Bad, Hannibal e... A Saga Crepúsculo: Eclipse), é essencialmente o que o trailer do episódio mostra, pra quem viu: uma galera encontra um robô-cachorro num galpão e depois precisa fugir dele, porque o filho da puta não só morde ou pega gravetos. Ele literalmente ESTOURA CABEÇAS — mas o fato de ser totalmente em branco e preto tira um pouco a nossa atenção da violência explícita e nos faz focar na tensão que é ser perseguido por aquele negócio, sem se preocupar em explicar os motivos, razões ou circunstâncias que o levam a fazer aquilo.

Black Museum

Colm McCarthy (Sherlock, Doctor Who) dirige Black Museum que, a la White Christmas, conta várias histórias em uma — com todas se misturando em algum momento, como você pode imaginar.

Este não só é o episódio mais interessante da temporada pra mim, como também o mais... Black Mirror RAIZ — uma parada que desde a temporada passada meio que se perdeu, com toda a grana e grandiosidade do Netflix. É aquele tipo de episódio que fez o meme “isso é muito Black Mirror” existir e que, como tal, vai poder ser reassistido diversas vezes pra que todos os temas possam ser analisados e entendidos.

Se passando dentro de um museu na beira de uma estrada, a trama é recheada de referências nada sutis a episódios passados — tanto dessa quanto de outras temporadas, o que o torna um bom “season finale”, como Charlie Brooker definiu no seu twitter, ainda que também tenha dito que “você pode assistir na ordem que você quiser”.

Sempre foi assim, em todas as temporadas, mas pelo menos nas duas primeiras a gente sentia o desgraçamento mental crescendo a cada hora passada na frente da TV. A terceira deu uma EQUALIZADA nesse sentido, mas essa quarta é quase tão normal em relação ao que estamos vivendo nesse momento que, de fato, não importa a ordem.

A quarta temporada de Black Mirror, enfim, não choca tanto com seus temas mas faz algo muito mais poderoso: consegue chocar pela proximidade das coisas. Se a ideia da série, apesar de San Junipero e Hang the DJ, nunca foi ser otimista, ela atingiu seu auge de pessimismo graças à realidade. O mundo em que vivemos é Black Mirror DEMAIS.