Queens of the Stone Age: o mesmo peso, muito mais cor

É um exagero dizer que o produtor Mark Ronson forçou a mão a ponto de transformar o novo disco do Queens of the Stone Age numa coisa mais ~funky. Tem um bom QUINHÃO de sorrisos e pézinhos mexendo pra lá e pra cá, mas ainda tem peso, ainda tem fúria.

Ó só, não é como se os caras do Queens of The Stone Age fossem, necessariamente, aquela banda padrão de hard rock. Embora eles conversem tão bem com os indies quanto com o público cabeludo que escuta variantes mais pesadas do rock n’ roll, eles tão longe de ser, sei lá, um AC/DC da vida. Então, aquela galera que achou estranho quando Josh Homme aproveitou que eles compartilharam os corredores da produção de Joanne, o mais recente álbum da Lady Gaga, e convidou Mark Ronson pra produzir o novo de sua própria banda, talvez não devesse achar assim TÃO estranho.

Quando a gente ouve o ótimo Villains, sétimo exemplar da discografia do quinteto californiano, é claro que ele não soa como Uptown Funk, o recente hit blockbuster de Ronson com participação de Bruno Mars, como muito fã exagerado já cravou que rolaria. Maaaaaaaas... sim, este é um Queens of The Stone Age que, de certa forma, se entrega um pouco mais ao groove. De alguma forma, dá pra sentir que o baixo de Michael Shuman vibra mais, brilha mais, faz a gente querer dançar um pouco mais.

Dizer que esta virou uma banda alegrinha, quase um exemplar do glam rock como já tem crítico canetando, é outro baita exagero. Só que, sim, aqui temos um QOTSA menos soturno, menos complexo, menos intrincado que em discos anteriores. Talvez até menos stoner rock, o tal rótulo que esteve grudado nos caras desde que eles surgiram.

Dá até pra dizer que Villains é mais minimalista. É mais rock na essência, sem muitos malabarismos, sem aquele monte de participações especiais que deram as caras em ...Like Clockwork. Festeiro? Não é a palavra. Talvez mais iluminado, ensolarado, otimista. Talvez Homme, pós tragédia no Bataclan que atingiu os Eagles of Death Metal, sua outra banda, estivesse buscando algo numa pegada um pouco mais escapista, até, ao invés de fazer uma profunda digressão a respeito de vida e morte como se poderia supor que aconteceria. Pode ser justamente por isso que Ronson acabou convocado, aliás. Para ser o sol que o frontman precisava.

Basta escutar Feet Don’t Fail Me, que abre os trabalhos. E a melodia faz MUITO jus ao título, porque assim que o boogie começa, lá tá você batendo o pezinho, de sorriso no rosto. Ouvir a voz de Homme te faz lembrar de imediato de uma pegada bem David Bowie, sexy, sedutora, te chamando pra sacanagem. Logo depois, quando ela emenda no single The Way You Used To Do, música pra cantar e dançar junto, bem mais soft, menos desert rock e mais rock de parque, urbana até dizer chega, cê começa a sacar direitinho o que Mark Ronson veio fazer aqui, salpicando um tanto de cor pra lá e pra cá.

Mesmo em Hideaway, que parece um sorriso meio melancólico, talvez um dia de sol com uma mistura daquela chuvinha fina, final do dia, meio outono, é possível perceber que tem um tempero diferente aí. Rola até espaço para os sintetizadores ganharem ares de protagonista na igualmente sexy Un-Reborn Again. Um sexy, no entanto, até mais dark, tipo uma boate cheia de neons e fumaça. Bem climático e envolvente.

Só que, então, nada disso significa que este é um QOTSA frouxo – aliás, muito pelo contrário. O punch das guitarras continua bem presente e muito bem, obrigado. Basta ouvir, por exemplo, Head Like a Haunted House, em sua pegada econômica, direta e reta, de riffs certeiros, quase um punk rock setentista dos bons misturado com o supercomputador dos caras do Devo.

E tome porrada na cara, por exemplo, com Domesticated Animals, um dos melhores momentos do disco e também um dos mais faca nos dentes, cheio de sombras, com um claro recado político na letra (You get right up then sit back down / The revolution is one spin ’round), novamente lembrando Bowie. Só que este David Bowie aí de Berlim, da trilogia Low, Heroes e Lodger, mais experimental, alternativo, um krautrock talvez inspirado pela parceria de Homme com Iggy Pop em Post Pop Depression. Esta referência, aliás, é do tipo que permeia de alguma forma, em maior ou menor escala, todo o disco, com faixas mais longas e aquele bom e velho flerte com barulhinhos eletrônicos.

E, bem ou mal, estamos falando de uma obra chamada Villains, o que muito provavelmente é uma conexão direta e reta com os heróis do título do álbum do camaleão, não por acaso lançado em 1977, há exatos quarenta anos.

Pra encerrar as atividades, vale prestar atenção na batida nervosa da bateria de The Evil Has Landed e, principalmente, na impressionante doçura de Villains of Circumstance, que tem um riff fantasmagórico somado com suas camadas de vocais sobrepostos lembrando, se é que isso é possível pra sua imaginação sonhar, com um Tears for Fears roqueiro.

Villains pode não ser o ápice do Queens of The Stone Age em termos criativos, concordo. Tá longe de ser surpreendente. Mas é o retrato de uma banda de rock testando seus limites, se reinventando, de maneira inteligente, limpa e muito coerente, brincando com melodias e movimentos. Poucas bandas de ROCK, este mesmo, puro e simples, podem se gabar de conseguir fazer isso nos dias de hoje com tanto talento e qualidade, afinal.