Viva, Ru Paul’s Drag Race e o abraço à feminilidade que você deveria dar a sua vida | Judão

Seja nas relações pessoais ou no simples trato social, a construção individual (de um bom ser humano, ao menos) passa pelo respeito ao outro. De gays afeminados a lésbicas mais masculinas, a aceitação não pode ter condicionantes.

Uma segunda dimensão da homofobia é o preconceito travestido de aceitação, que se limita a tolerar a existência do homossexual no universo sob algumas condições. Prerrogativa de uma parcela da população que começa a entender a sexualidade como expressão individual e – em certos níveis – começa a abandonar ideologias castradoras, a feminilidade no mundo gay, entretanto, é uma das últimas fronteiras de aceitação restantes.

Em muitos círculos, apesar da sexualidade de uma minoria ser tolerada, ela se restringe a expressão na intimidade apenas. Qualquer traço que denuncie a não-heterossexualidade de alguém passa a ser tratado com desprezo, muitas vezes acompanhado pela correção de maneiras, tentando encaixar a lésbica/gay em modelos de comportamento que obedeçam aos preconceitos ensinados desde a infância: do garoto que é incentivado a ter “namoradinhas” do momento em que sai das fraldas, à garota que precisa ser delicada e feminina.

A negação de qualquer traço de feminilidade ao homem evidencia o cerne de muitas das questões que levam a atos homofóbicos: a misoginia. Considerar características (geralmente) presentes em outro gênero como ofensivas se reproduzidas pelo vizinho tem origem no machismo e numa clara divisão incentivada pela sociedade em estereotipar a mulher como ser menor em comparação ao homem.

Um programa de TV que abraça a feminilidade nas ações de seus participantes, e dos poucos espaços em que não há regra de “padronização gay”, com homossexuais mimetizando homens héteros que às escondidas se relacionam com outros homens, é Ru Paul’s Drag Race.

Além da competitividade e momentos de pura bobagem inerentes a qualquer reality show – vide a participante Jujubee imitando um gato sem nenhuma razão aparente — Ru Paul’s consegue através da exposição de seus personagens apresentar momentos de vulnerabilidade e aceitação de grupo. De Ongina revelando seu status sorológico, à Mônica Beverly Hills se revelando uma mulher trans em processo de transição, passando por diálogos envolvendo inúmeros episódios sobre bullying, discriminação, reconstrução da autoestima e diversos outros assuntos, o programa é em certa dimensão muito menos sobre uma competição e mais sobre a celebração em se fazer parte de uma vasta comunidade à margem de uma sociedade que nunca aceita sem restrições a homossexualidade.

Criar um espaço seguro onde seja ok se vestir de mulher e até construir uma competição que presenteie a melhor delas é um reforço à ideia de fortificar os laços de quem é considerado diferente pela maioria.

Outra obra a discutir o abraço ao feminino em um corpo social majoritariamente machista é o filme Viva (2015). Dirigido por Paddy Breathnach, Viva discute o imenso distanciamento entre um pai educado sob preceitos machistas e um filho drag queen. Explorando a forte ideia de macheza que permeia todas as relações entre latinos, o filme discute a aceitação parcial, visto que o pai (Jorge Perugorría, de Morango e Chocolate, em papel diametralmente oposto) não chega a INQUERIR o filho sobre sua sexualidade, mas se debate com violência diante da ideia de um filho drag queen. Dentro de toda a pobreza que vivem os personagens da obra, as fontes de trabalho e oportunidades de dinheiro surgem justamente da mão estendida por outras drag queens, fortificando novamente o sentimento de comunidade que se forma em situações extremas, herança das house drags e ball rooms de Paris Is Burning (1990).

No Brasil, especificamente, há vários casos de representação do gay afeminado na TV, a VASTA MAIORIA delas ofensiva, obviamente. Do erro que foi a interpretação de Marcelo Serrado como “Crô” na novela Fina Estampa e seu posterior filme solo em 2013, a todos os alívios cômicos em novelas do horário nobre com personagens gays tendo no cerne de seus personagens os trejeitos e personalidades como centro de riso, é essencial que gays e lésbicas sem a dita passabilidade heterossexual tenham espaços de exposição na sociedade, assegurando, assim, que outros homossexuais em processo de construção da individualidade não encarem comportamentos tidos como inerentes a “de outros gêneros” como menores ou vergonhosos.

Documentário que explica a importância da feminidade na aceitação e também na consciência de grupo dentro da comunidade LGBT+ é Bichas, do diretor Marlon Parente. Recebendo jovens gays e afeminados para conversar sobre seus processos de aceitação e resistência, os relatos partem de histórias pessoais e reforçam a ideia de quebra de paradigmas de gênero.

Seja nas relações pessoais ou no simples trato social, a construção individual (de um bom ser humano, ao menos) passa pelo respeito ao outro. De gays afeminados a lésbicas mais masculinas, a aceitação não pode ter condicionantes.