"Você fica de pé e luta" | Judão

Apesar de seus problemas, final de Secret Empire é uma grande lição sobre como reagir ao mundo de hoje

SPOILER! Eu poderia olhar para os problemas. Falar da inconsistência da arte, dos fillers, do deus ex machina que surgiu em alguns momentos ou qualquer outro problema mais técnico na execução. Ou poderia recorrer ao meu lado fanboy, reclamar sobre o que fizeram com os personagens. Poderia fechar os olhos e apenas criticar, sem levar em conta o contexto. Mas vocês já imaginam que não vai ser assim. Porque, apesar dos problemas, Secret Empire #10, publicado nesta quarta (30), é um grande final para um crossover necessário.

A essa altura, você já sabe qual é a história da saga, o grande crossover de verão da Marvel em 2017: o Caveira Vermelha usou a Kobik, uma menina criada a partir da consciência do Cubo Cósmico, para transformar Steve Rogers em um agente da HYDRA. O Cubo foi destruído em mil pedaços, o Evil Steve manipulou todo mundo e assumiu o controle dos EUA com um único objetivo: reunir os pedaços do mesmo Cubo e reescrever a história do jeito que ele, agora, acha que é certa, com a HYDRA dominando o mundo.

No processo, muita gente morreu – incluindo a Viúva Negra.

Na edição #9, o roteirista Nick Spencer reduz o Capitão América ao que ele é. Não é, necessariamente, um representante de um país, mas um soldado que luta pelo que acredita ser correto. Por uma ideia. Por isso, faz sentido ter um Bandeiroso que lute com as cores do fascismo, acreditando que defende o caminho correto. É algo que acontece, hoje, em todo o mundo, goste a gente ou não.

No entanto, também existe aquele Capitão América idealizado. E é aí que entra a alegoria maior: com tantas cagadas que fizemos no mundo, este Steve Rogers se tornou apenas uma memória, uma lembrança daquilo pelo que o mundo lutou na Europa e no Japão dos anos 1940. No gibi, Steve é uma lembrança de uma atormentada Kobik, arrependida de tudo que fez. No mundo real, é uma faísca na memória de todos aqueles que preferiram ficar quietos e se render ao medo.

E é nesta edição #10 que a história encontra seu desfecho. Primeiro com o Evil Steve quase vencendo: ele usa praticamente todos os fragmentos do Cubo Cósmico para alterar o mundo e colocar a HYDRA no comando desde sempre. Porém, é pela amizade e o cuidado pelo próximo – especificamente de Sam Wilson e Bucky Barnes, os grandes parças — que Kobik é resgatada, junto com a memória daquele Steve Rogers que luta pela liberdade. Steve este que ganha forma tangível.

Frente a frente, os dois Capitães lutam – na frente do Capitólio, em frente às câmeras, para todo o mundo ver.

“E seu esforço nos inspirou”, diz o narrador. “Nos lembrou que há apenas uma escolha quando somos confrontados com esse tipo de mal. Você não corre. Não se esconde. Você fica de pé. E luta. Fica de pé. E luta. Fica de pé. E luta. Até não conseguir mais ficar de pé. É assim que você é testado. E é assim que seu inimigo é testado”.

Neste instante, o Evil Steve vai até o caído Mjölnir, em busca do poder de Thor – do qual acredita ser digno, mas nunca foi. A Madame Hydra manipulou o feitiço há algumas edições, fazendo com que o mundo acreditasse que aquele Steve Rogers era alguém digno – como, olha só, fake news e a tal da pós-verdade fizeram muita gente acreditar que um certo Donald Trump era digno de ser presidente. Ou nos fazem acreditar em políticos do tipo aqui no Brasil.

“Eles nos fizeram sentir pequenos, fracos, medrosos. Eles confiaram em seu poder. O poder sobre nós. Mas, como ele prometeu, era hora de ver a verdade. Eles nunca foram dignos”.

Desta forma, Secret Empire nos mostra que os Estados Unidos têm a sua face ruim, como diversos outros países, organizações e pessoas. Aquele Capitão da HYDRA é, também, uma representação da América. Mas aqueles que lutam pelo que é certo não podem baixar a cabeça, não podem se recolher e guardar dentro de si os sonhos do passado. Precisam ficar de pé. E lutar.

Só assim mostram quem são os verdadeiros dignos.

Como eu já disse por aqui, Secret Empire se mostrou uma saga otimista. Um grande crossover para juntar os heróis e mostrar que, ao final de tudo, podemos superar o medo. Inclusive quem está do lado de cá da quarta parede, somente lendo.

Ao final, Kobik restitui o mundo ao que ele era – mas sem apagar as marcas da tragédia e destruição pelos erros que todos cometeram. Porque sim, é fácil culpar os outros, mas é mais importante e difícil olhar para o que nós mesmos fizemos, nos unindo para recolher os escombros e seguir em frente. Sem nunca esquecer.

Secret Empire acabou. Agora é hora de fazer o mesmo do lado de cá. E a escolha do lugar no qual acontece a luta final do crossover mostra uma mensagem bem clara do que o pessoal na Marvel está pensando.