RESENHA! Viva - A Vida é uma Festa

Sabe aquela coisa que a gente fala sempre aqui, a respeito de filmes serem mais do que apenas filmes, mas principalmente EXPERIÊNCIAS? Este é mais um daqueles exemplos.

Eu fui uma destas pessoas que meteram um BODÃO de imediato assim que a Pixar anunciou Viva: A Vida é Uma Festa. E sim, também cheguei a repetir o argumento merda de que se tratava de uma “cópia” do delicioso Festa no Céu, dirigido por Jorge R. Gutierrez e produzido por Guillermo del Toro. Fiquei PUTAÇO, cheio de um insuportável blá-blá-blá sobre injustiça, que a Disney/Pixar devia se envergonhar... É, eu sei. :(

Dizer que não existe NADA em comum entre os dois filmes é pura inocência: ambos são ambientados no México, em pleno Dia de los Muertos, e tratam da jornada de um jovem dividido entre o legado de sua família e o sonho de viver da música. Mas as coincidências acabam aí. Porque Viva vai por um caminho completamente diferente, em uma produção LINDÍSSIMA, criativa, divertida, carismática, emocionante. E com personalidade própria, até o último segundo de história.

Mais do que tudo isso, no entanto, Viva é um exemplo nítido do que a gente chama por aqui de EXPERIÊNCIA cinematográfica. Sabe? Filme que não é feito só pra assistir, mas também pra sentir, de corpo inteiro, pra mergulhar de cabeça. Parece exagerado, eu sei. Mas é a mais pura verdade.

A começar pela experiência sensorial: o visual é um DESBUNDE, do verbo “cair o cu da bunda”, feito pra você ver na maior tela possível, cheio de detalhes. As cores e texturas do mundo real, a madeira, o couro e as frutas de uma pequena e humilde cidadezinha mexicana preparando as oferendas para garantir que seus antepassados os visitem neste dia tão especial são tão cheias de vida quanto as camadas brilhantes e quase neon da Terra dos Mortos, numa mistura de uma espécie de Las Vegas latina com as Catrinas, as populares e coloridíssimas caveiras mexicanas que viraram febre entre tatuadores nos últimos anos.

A pele dos personagens, seus sorrisos, seus olhares, tudo é tão intenso e cheio de verdade que chega a ser impossível não se relacionar com cada um deles. A família de tradicionais sapateiros mexicanos do garoto Miguel, aliás, é um show à parte. Mesmo não concordando com a postura anti musical dos pais, da avó, dos tios e primos, a gente fica com o coração aquecido no meio daquele ambiente caótico de todo mundo falando ao mesmo tempo e com uma baita vontade de ser convidado pra participar de um jantar em família.

Ah, e a bisa Inês. Cara, que coisa simplesmente mais maravilhosa que esta velhinha é. Seu sorriso e cada uma das marcas de seu rosto são amor à primeira vista. É de longe a personagem humana mais abraçável de um desenho animado nos últimos anos, fácil, fácil. <3

Aí pulamos do VER pro OUVIR e eis que Viva faz um uso poderoso de sua parte sonora — e neste caso, de um jeito até mais inteligente do que o próprio Festa no Céu, que é igualmente musical. A cada passo de Miguel rumo às descobertas da herança musical de seu tataravô, o homem que abandonou a matriarca da família Rivera em busca do sonho de tornar-se um cantor famoso, não apenas as certeiras canções da trilha incidental de Michael Giacchino ganham contornos mais complexos como as músicas originais vão se encorpando pra contar melhor a história. Porque da quase inocente Un Poco Loco (pura fofura e com um refrão irresistível) até a derradeira execução da música-tema Remember Me (um verdadeiro soco no estômago), tem um espaço de crescimento enorme pro Miguel não só como ser humano, mas também como músico.

A construção emocional do filme rumo a uma reta final cheia de pequenos significados é de uma maturidade impressionante. Deixa as crianças de olhos vidrados na reviravolta final e os pais de coração partido. Porque vou dizer, com toda a honestidade, que fazia MUITO tempo que eu não chorava tanto com um filme quanto com este Viva. Mas assim, chorar de me acabar mesmo, de soluçar. Acho que desde Toy Story 3.

Aqui, por falar nisso, dá pra entender uma conexão imediata: Toy Story 3 é um filme sobre crescer. Sobre lidar com a vida, sobre amadurecer e como lidar com os momentos mais doces da infância quando a fase de pagar boletos começa a esmurrar a sua porta. Viva é o passo seguinte: é sobre família. É sobre quem você vai ser, sobre quem você QUER ser, como isso se relaciona com a história de quem vem antes, o que você carrega com você e o que você vai construir de novo a partir dali.

Eu perdi meu pai muito recentemente, na metade de 2017, e imagino que isso também tenha contribuído para o tanto que o filme falou comigo, intimamente. Mas foi mais do que isso. Eu chorei e dava pra ouvir boa parte da sala chorando também, em uma sessão repleta de pais, mãe, filhos e filhas. Quando as luzes se acenderam, vi muita gente com lágrimas nos olhos. Meu filho, 7 anos de idade, olhou pra mim e perguntou se eu estava chorando. “Não precisa”, disse ele. “O filme é muito legal”. Eu só consegui sorrir e abraçá-lo.

É este tipo de experiência que Viva traz e permite. E a qual você também devia se permitir. Porque é um jeito absolutamente incrível e encantador de se renovar e começar um novo ano.