Vivemos em um mundo em que temos uma QUINTA Tartaruga Ninja | JUDAO.com.br

Esqueça aquela tal Venus da série de TV dos cascudos adolescentes: estamos falando de uma nova personagem em uma nova e elogiada fase sob supervisão de ninguém menos do que Kevin Eastman

Talvez você não se lembre, e a gente te perdoa totalmente por isso, mas entre 1997 e 1998, as Tartarugas Ninja tiveram a sua própria série de TV live-action. Em Ninja Turtles: The Next Mutation, que aparentemente seguia a cronologia dos primeiros filmes pra cinema, não apenas os quatro quelônios não eram irmãos biológicos (conforme ditava o cânone até o momento) e enfrentavam caçadores e dragões além do Clã do Pé, mas também não eram as únicas tartarugas adolescentes ninja do pedaço.

Tinha lá uma quinta integrante, a Venus de Milo. Sim, uma fêmea que estava com as quatro anteriores na origem, foi impactada pelos dejetos químicos mas acabou sendo varrida pelo esgoto e indo parar em Chinatown.

Lá, Venus foi treinada por Chung I, um antigo mestre místico Shinobi e amigo de Splinter, e aí se juntou ao time, usando uma bandana azul bastante similar à de Leonardo. Além de não ser necessariamente “ninja”, fazendo uso de técnicas de luta diferentes e tendo como armas umas esferas mágicas (?), estamos falando de uma produção de baixo orçamento da mesma Saban que fazia os Power Rangers.

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Imagine, portanto, que foram inevitáveis as sugestões de que ela poderia se envolver com os machos do time, em particular Leonardo e Raphael (justamente aqueles que mais tretavam entre eles, OLHA SÓ) — isso se a gente não for levar em consideração que ela era uma tartaruga que tinha “curvas femininas” e...peitos. Ela não é um humano que virou uma tartaruga. Ela é uma tartaruga humanoide. Mas não uma tartaruga MAMÍFERO. Não faz o menor sentido.

Bom, enfim, você já imagina que a série era mesmo uma bosta e por isso a gente te perdoa totalmente por nem sequer saber disso. Mas o ponto é que pulamos agora para 2019 e, olha só, nos quadrinhos atualmente publicados — com sucesso, leia-se bem — pela IDW, as Tartarugas Ninja são novamente um quinteto. E um quinteto completado mais uma vez por uma fêmea.

Mas esqueçam de vez esta bobagem de Venus de Milo.

Conheçam Jennika, uma parceira humana dos guerreiros verdes e que, na última página da recém-publicada edição de número 95 do gibi gringo das Tartarugas Ninja, recebe uma transfusão de sangue do Leonardo e se torna, ora vejam vocês, uma gigantesca tartaruga mutante TAMBÉM.

A edição, conduzida por um enorme time formada por Bobby Curnow, Tom Waltz, Dave Wachter, Ronda Pattison e Shawn Lee, devidamente liderado por Kevin Eastman, cocriador dos personagens em pessoa, foi um verdadeiro sucesso por lá e ganhou uma reimpressão. E foi aí que, para celebrar este momento, veio a surpresa: não apenas Jennika se tornou uma tartaruga mas muito em breve vai se tornar TAMBÉM uma Tartaruga, com T maiúsculo, com direito à sua própria bandana (na cor amarela) e seu próprio par de armas (no caso, garras metálicas que lhe dão um ar bastante Wolverine... ou, se você preferir, remetem ao Vega, nosso saltitante espanhol de Street Fighter).

A notícia veio diretamente do Twitter empolgadíssimo de Sophie Campbell (dos títulos independentes Wet Moon e Shadoweyes), desenhista que ilustrou o arco das Tartarugas Northhampton e, a partir do número 101 da revista, vai assumir integralmente as Tartarugas, roteiro e arte. Quer saber o MENOS surpreendente? Apesar da artista ter dito que trabalhou nestes sketches a pedido da IDW há dois anos, já preparando com um baita planejamento o que viria a seguir, tudo com a supervisão do próprio Eastman, obviamente que surgiram ELES. Os ~fãs, né. “Você está estragando a minha infância, ai esta narrativa feminista é um saco”. Enfim, vocês bem imaginam o tipinho imbecil, né?

Embora tenha se surpreendido com as reações, Sophie meio que ligou o botão do foda-se rapidinho, admitindo que teria de ser um pouco mais “liberal” no uso do BLOCK depois deste anúncio. “Eu não estou BRAVA com os haters”, afirmou ela, repleta de honestidade, no Twitter. “Como acontece com tudo, eu não me importo com os ataques pessoais ou pessoas ameaçando me processar. É só que ficou chato. Como um drone chato constante”.

Os arqueólogos da internet devem se lembrar que a própria Sophie já tinha produzido um gibi chamado Teenage Mutant Ninja Turtles: Secrets of the Ooze, uma revisão da trama do segundo filme das Tartarugas lá do começo dos anos 1990, que trazia uma tartaruga fêmea de nome Artemisia e que, POR ACASO, usa uma pintura facial na cor amarela.

Mas a verdade é que a Jennika, ainda em sua forma humana, foi apresentada há um BOM tempo, lá na edição de número 51, como parte da reformulação que Eastman vinha comandando desde 2009, elogiadíssima por atualizar a mitologia das Tartarugas e dar um grau nas cenas de ação, por exemplo.

Originalmente uma garota que fugiu de casa depois que descobriu que o pai batia na mãe, ela viveu nas ruas e lá aprendeu a cometer pequenos crimes... até que foi parar na prisão. Na selva entre as grades, foi salva de encrenca por uma ninja do Clã do Pé, também encarcerada, de quem se tornou rapidamente a melhor amiga. A veterana se tornou sua mentora e a treinou na arte da luta e da sobrevivência, com a esperança de que ambas pudessem fugir juntas, mas acabou morta lá dentro graças a uma disputa por poder. Quando Jennika conseguiu sair e vingou a morte da amiga, foi graças à sua aproximação do Clã, de quem logo se tornou oficialmente integrante.

A aproximação com as Tartarugas Ninja não como inimiga, mas sim como aliada, aconteceria um tempo mais tarde, depois da morte do Destruidor e de ninguém menos do que Splinter assumindo o comando, com o objetivo de tornar o Clã do Pé algo mais construtivo e não a máquina de combate e morte que era nas mãos de seu antigo rival. A princípio, a fidelidade de Jennika à organização não permitia que ela visse o rato humanoide como um líder de verdade, fazendo inclusive com que ela tramasse sua morte. A impulsividade da garota causava desconfiança, mas Splinter acreditou nela, mostrando que sua bondade e clemência estavam longe de ser sinônimos de fraqueza. Logo, ela se tornou sua protegida, sua chūnin, a segunda em liderança logo abaixo dele.

A jovem então perceberia que ali tinha encontrado uma família, uma que estava inclusive disposta a usar a estrutura do Clã do Pé para ajudar a dar novas chances a jovens necessitados, tal qual aconteceu com ela mesma. Mas como nada é pra sempre, a paz duraria pouco quando eclodiu uma guerra de gangues nas ruas, querendo ocupar o vácuo de poder deixado pelo Clã enquanto organização criminosa. Eis que então surge Karai, uma das mais proeminentes assassinas da antiga formação do grupo e descendente direta da linhagem de Oroku Saki, aka Destruidor. Ela tentou convencer Jennika de que era hora de dar um golpe no Splinter e retomar a liderança. Mas a garota disse não — o que a levou a ser empalada pela espada de sua adversária.

A ideia das Tartarugas e seus aliados originalmente era usar um último frasco de Ooze vindo (ou talvez roubado) direto da Dimensão X, o mutagênico que os transformou lá no passado, para curar seu ferimento, tal qual fizeram em algum momento recente com John, o pai de sua amiga April O’Neil. Mas eis que sua base é invadida pelo poderoso robô Metalhead, em sua eterna rivalidade contra Donatello, trazendo na cola os operativos da Earth Protection Force, uma equipe governamental dedicada e deter e destruir alienígenas e mutantes na Terra — tais quais, sei lá, umas tartarugas e ratos que andam, falam, lutam e pensam por conta própria. No meio do conflito, o Ooze acaba sendo destruído.

Em fuga, Donatello então pensa numa última saída e aí que vem a história toda da transfusão de sangue. Como o sangue mutante de Leonardo, escolhido para a doação por seu papel de líder das Tartarugas, tem uma boa carga de Ooze, claro, a ideia seria que ele pudesse fazer o trabalho. Mas, da mesma forma que a origem das Tartarugas é uma homenagem à origem do Demolidor e o Splinter assumir o controle do Clã do Pé lembra claramente a fase recente do Homem Sem Medo à frente do Tentáculo, claramente vemos mais uma referência aqui — ou os queridos leitores de gibis das antigas não se lembram que foi assim que Bruce Banner salvou a vida de sua prima, Jennifer Walters, tornando-a na Mulher-Hulk.

Uma das coisas mais interessantes desta história toda é saber como vai ficar o relacionamento de Jennika e Casey Jones. O guerreiro urbano, na verdade, teve a origem levemente modificada nos últimos anos e TAMBÉM é egresso de um lar desestruturado pela bebida e pela violência doméstica, até o momento em que foi resgatado pelo amigo Raphael e formou uma dupla de vigilantes ao seu lado. Jennika e Casey tinham muito em comum e criaram um elo, conforme ela se juntou à família, que logo evoluiu pra um relacionamento.

E agora, hein? Como lidar com isso?

Bastante curioso pra ver como isso evolui. E também pra descobrir qual é o sabor de pizza favorita da mais nova Tartaruga do pedaço.