Você prestou atenção na música do trailer de Homem-Formiga e a Vespa? | Judão

Depois do uso que fizeram de canções certeiras para promover Thor: Ragnarok e Pantera Negra, teve gente estranhando a falta de uma na medida para marcar o retorno de Scott Lang e Hope Van Dyne… mas sim, ela está lá ;)

No meio de toda a onda de comentários positivos nas redes sociais por conta de Pantera Negra, a Marvel Studios aproveitou pra colocar na rua o primeiro trailer de Homem-Formiga e a Vespa, o seu terceiro lançamento deste ano, previsto pra chegar aos cinemas no dia 28 de Junho.

E aí tome Vespa chutando bundas e mostrando que deve roubar a cena, deixando Scott Lang com ciúmes não só das suas asas mas também dos disparadores de raios que ele nunca teve a chance de usar; a primeira imagem da vilã Fantasma, a versão feminina do misterioso espião corporativo que sempre assombrou a vida do Homem de Ferro nos gibis; e até uma participação especialíssima da Hello Kitty, vejam vocês.

Tudo aparentemente tão divertido quanto foi no primeiro filme, muito legal. Mas vamos combinar que ficou uma sensação de que, sei lá, faltou algo? Não, não foi o Luis (embora ele seja essencial e sim, queremos demais), tampouco a primeira aparição da Michelle Pfeiffer como Janet Van Dyne, a Vespa original. Não, não. Talvez tenha sido algo mais, digamos, musical.

Porque o Pantera Negra fez o que fez com a mistura do poema The Revolution Will Not Be Televised e da faixa BagBak, de Vince Staples. E aí o Thor manda ver na primeira grande assinatura musical da Marvel com Immigrant Song, do Led Zeppelin. Porra, claro, cadê a música deste trailer aí do Formigão? Assiste de novo porque ela tá lá. ;)

Não sacou qualé? Tá, tudo bem, a gente admite que é praticamente um easter egg do trailer. Pra encontrar a dita cuja, é preciso se ligar num certo riff de guitarra que a usuária do Twitter @Nancy_Sgro bem sacou e logo foi perguntar pro diretor da parada toda, Peyton Reed, que bem confirmou: trata-se de Ants Invasion, da banda Adam and The Ants.

Ativa entre os anos de 1977 e 1982, tendo registrado o lançamento de apenas três discos, a banda inglesa teve uma porrada de formações diferentes — mas manteve como elemento essencial o seu líder, o vocalista Stuart Leslie Goddard, mais conhecido como o tal Adam Ant. Apanhado bem no meio da explosão do punk na Terra da Rainha, ele tocava baixo numa banda chamada Bazooka Joe, mais conhecida como “a banda principal no dia em que os Sex Pistols tocaram pela primeira vez”.

Inspirado pela atitude dos Pistols, ele resolveu sair e formar seu próprio CONJUNTO. Primeiro com o nome de The B-Sides e depois assumindo o nome The Ants, a ideia deles era ser uma banda punk mesmo, true, de raiz. Mas seu visual excêntrico e suas letras fetichistas, popularizadas depois de uma turnê pela Inglaterra com a Siouxsie and the Banshees, fizeram eles ganharem ao mesmo tempo uma base de fãs dedicados e uma boa cota de detratores dentro do movimento punk e na imprensa especializada.

Quando saiu Dirk Wears White Sox, o primeiro disco dos caras, em 1979, Adam já tinha desencanado e seguido por uma linha que mais poderia ser chamada de pós-punk, com um tantinho de glam rock e um interessante tempero funk e soul. Nas letras, nomes históricos totalmente DÍSPARES como Hitler, Kennedy e Cleópatra, assim como um interesse genuíno pela história da arte. E como veio o sucesso de público mas não necessariamente o sucesso comercial, pra colocar grana no bolso, Adam tratou de contratar ninguém menos do que Malcolm McLaren, o lendário empresário dos Sex Pistols, para cuidar das atividades de sua banda.

O estouro só se daria um ano depois, com outro disco, o bem-sucedido Kings of the Wild Frontier — no qual está não apenas Ants Invasion, a canção em questão, mas o single Dog Eat Dog, inspirado em uma frase de Margaret Thatcher e dedicado a bandas que embarcam numa competição frenética com outras bandas ao invés de trabalharem juntas. E também está, aliás, uma de suas assinaturas sonoras, a chamada batida de Burundi, uma levada de bateria tribal inspirada nos sons étnicos do país de mesmo nome.

Com muita maquiagem e figurinos exóticos, Adam and The Ants tornou-se daquelas figurinhas carimbadas da MTV em clipes como o de Prince Charming, talvez um de seus maiores hits, no meio da explosão local apelidada de Antmania. Em resumo? Tamos falando de uma banda que, de alguma forma, poderia tranquilamente estar na trilha do próximo volume dos Guardiões da Galáxia, por exemplo. Certeza que James Gunn amaria.

Foi depois do lançamento de Prince Charming, o álbum, em 1981, que o grupo que foi quarteto, trio, quinteto e até dupla começou a se esvaziar de fato. Em março de 1982, depois de receber o BRIT Award de “melhor disco” por Kings of the Wild Frontier e ainda ser indicado ao Grammy como “melhor novo artista”, Adam Ant anunciou a DISSOLUÇÃO da banda. “O interesse não estava mais lá. Tinha o nome Adam and the Ants escrito nos cartazes, mas a banda não estava verdadeiramente no palco”, teria dito ele, na época.

Adam and The Ants são frequentemente compreendidos como parte, ainda que inicial, do chamado New Romantic, um movimento dentro da própria New Wave que, com a presença de nomes como Duran Duran, Culture Club, Ultravox, Spandau Ballet, A Flock of Seagulls, Simple Minds e afins, fazia um pop mais sofisticado e ajudou a mudar a cultura dos clubes oitentistas não só no que diz respeito à música mas também no comportamento e figurino. Mas digamos que Adam Ant, que ainda manteve uma carreira solo relativamente ativa mas sem lá muito destaque em meio a uma dura luta pessoal contra o transtorno bipolar, não estivesse exatamente confortável com a categorização. Aliás, ele sempre lutou para não se encaixar em categorização nenhuma, isso sim. Como caberia a um bom velho punk, vamos ser francos.

Seu último disco solo é de 2013, depois de bons 18 anos sem lançar rigorosamente nada, e atende pelo imenso nome de Adam Ant Is The Blueblack Hussar in Marrying The Gunner’s Daughter, tudo lançado de maneira independente. O nome já entrega que os figurinos do cantor hoje vão por uma linha bem mais, digamos, PIRATÍSTICA. A sonoridade, no entanto, é uma deliciosa bagunça divertida, que dá pra definir como pop mas não SÓ isso e que, em meio ao caos, mostra que o sujeito que outrora foi um dos popstars mais quentes das paradas de sucesso ainda tá longe de se acomodar. Digamos que isso TAMBÉM é característica de um velho punk, né? ;)