O Último Verão Americano | Judão

Com Ten Years Later, uma das peças mais bizarras da Cultura Pop se encerra como uma CONQUISTA: inesperada, inacreditável, metalinguística e perfeita para ser curtida com a TURMA

Wet Hot American Summer (ou Mais Um Verão Americano, como é conhecido por estas bandas) é uma das conquistas mais inesperadas e bizarras da história da comédia no cinema e na televisão. O que começou com um filme cagado por público e crítica veio a se consolidar como, talvez, um dos melhores exemplos de sátira e metalinguagem recentes no mundo da Cultura Pop que não seja um gibi do Deadpool. Melhor ainda, tornou-se talvez a FRANQUIA essencial para se assistir COM A GALERA.

É, tamos falando isso mesmo, esqueça o MCU, o DCEU e qualquer merda que estejam tentando fazer com os monstros da Universal: eis aqui o universo multimidiático que realmente interessa. E ele também tem um Paul Rudd. :D

Tudo começou lá no início deste século, 2001, quando os roteiristas David Wain e Michael Showalter resolveram cutucar as famosas comédias adolescentes sobre sexo e AMADURECIMENTO dos anos 90, ao mesmo tempo em que revisitavam experiências próprias desse período da vida. Para isso, relembraram seu tempo naqueles tradicionais summer camps gringos, desenvolvendo uma história um tanto quando INSÓLITA sobre o último dia de um deles, localizado no Maine (mas sem Stephen King).

A zoeira começava pelo elenco principal, que trazia uma galera de 20 e poucos, no máximo 30 anos, na pele de adolescentes no auge dos seus 16 anos (Chaves mandou abraço). Era um elenco até então só minimamente notório, mas que viria a fazer um puta nomão nos próximos anos, incluindo aí o supracitado PAULO RUDE e mais Bradley Cooper, Michael Ian Black, Elizabeth Banks e Joe Lo Truglio — além de ~veteranos como David Hyde Pierce, H. Jon Benjamin, Amy Poehler, Christopher Meloni e Molly Shannon.

Mesmo embalado pelo melhor do rock OITENTISTA (afinal, o filme de passa em 1981), com Kiss, Rick Springfield e principalmente a faixa Jane, do Jefferson Starship, os resultados iniciais não foram bons. A estreia em Sundance foi morna e a recepção da crítica foi fria, assim como a do público. O filme tornou-se um grande fracasso, mas como muitos LATE BLOOMERS da sétima arte, acabou rindo por último.

Talvez um pouco à frente do seu tempo, Wet Hot American Summer era bobo, ridículo e exageradamente tosco. Tudo muito consciente e estrategicamente planejado, algo que só veio a ser percebido e aclamado ao longo dos anos seguintes, conforme mais e mais pessoas passaram a admirar e curtir o filme. Virou cult, sabe como é.

Por conta disso, rumores e mais rumores de uma continuação vinham rolando desde sempre — até que, em 2015, chegou ao Netflix Wet Hot American Summer: First Day of Camp, para (quase) realizar esse sonho.

Reunindo de forma quase inacreditável TOLDO o elenco do filme original, a série ainda conseguiu abraçar participações especiais de gente como Chris Pine, Jon Hamm, Kristen Wiig, Lake Bell, Michael Cera e até Weird Al Yankovic, mas não para contar o futuro daqueles personagens vistos 14 anos antes, sim o passado. Entrando, agora de vez, no ridículo, a série trazia os atores mais de uma década envelhecidos no papel de seus personagens ainda mais jovens que da primeira vez.

Não só isso, claro, marcou a mudança de tom dessa série. A partir deste prólogo, Wet Hot American Summer abraçou de vez a sátira, fazendo a sua coesão narrativa ser estruturada justamente na falta de coesão.

Se antes elementos altamente bizarros eram justificados de forma racional, como uma lata de legumes falante (dublada por H. Jon Benjamin, a inconfundível voz de Sterling Archer) ser fruto da imaginação traumatizada de um veterano da guerra do Vietnã, agora eles passaram a ser explicados da forma mais ridícula possível (no caso da lata, com a transformação de um homem provocada por lixo tóxico).

Funcionou não só para agradar os fãs que se acumularam durante os anos seguintes ao fracasso inicial do filme original, como para encantar a crítica que, agora, parecia muito mais aberta à tosqueira irrefreável da recém-estabelecida franquia. Dos 32% de aprovação dados ao Wet Hot American Summer de 2001 no Rotten Tomatoes para os 92% dados à First Day of Camp, muita coisa mudou. Mas ainda havia um último capítulo a ser desvendado.

No filme original, todos os monitores do acampamento prometem um reencontro, 10 anos depois. Por isso, numa jogada genial, o Netflix demorou só dois anos para lançar Wet Hot American Summer: Ten Years Later, encerrando (ao menos até o universo ser revisitado nos quadrinhos da Boom Studios, em 2018) essa história de puros LULz.

Nessa nova série, já disponível no serviço de streaming que pra muita gente tem gênero definido, (quase) todo mundo do filme retorna aos seus papeis originais para uma última rodada de aventuras, mais uma vez mergulhadas no ridículo. Só que, como todo bom capítulo final há de fazer, algumas risadas acabam sacrificadas por um quê dramático.

Não só por isso, aliás, já que a série sofre com duas coisas bem evidentes: a primeira é o fato que ter os atores velhos, agora interpretando personagens nem tão jovens, acaba não só repetindo como quase anulando a piada. Segundo que, com o crescente ESTRELISMO do elenco, ficou difícil (e isso tá muito claro na série) juntar todo mundo ali pra fazer o negócio funcionar. Não só porque Bradley Cooper teve de cair fora, cedendo lugar prum deslocado e sem graça Adam Scott (embora com uma justificativa engraçadalha para a mudança), como porque Paul Rudd CLARAMENTE gravou suas cenas sozinho, batendo falas com alguém da equipe.

Ainda assim, alguns momentos de ouro surgem na história, como aqueles protagonizados pelo detestável vilão de First Day of Camp, Ronald Reagan — que retorna ao lado de Bush pai para causar com os jovens do acampamento — e principalmente uma sequência em que a lata de legumes falante decide comer alguma coisa em um restaurante de beira de estrada. Risadas altas garantidas, de verdade.

No final, a resolução do conflito da temporada acaba sendo uma grande qualquer coisa, com os próprios personagens apontando todos os furos nela, bem como na série anterior AND no filme. Tudo funciona porque é feito com a língua bem afundada na bochecha, ou, em bom português, com aquela constante piscada metafórica para o público.

Melhor ainda, a série faz o que nem precisava, mas serve como uma cerejona do bolo: amarra tudo com uma explicação emocionante, que fala muito sobre nostalgia, passado, juventude e amizade, de quebra justificando TODOS os absurdos. E de forma REALISTA. Ou quase. :D

Com OITÔ episódios curtinhos, Wet Hot American Summer: Ten Years Later é uma pedida excelente para aquele domingo de tristeza, ou aquele fim de semana parado, ou até aqueles poucos minutos de ócio pós-expediente, em que você quer rir e espairecer. Claro, você PRECISA ter visto um filme de duas horas e outros OITÔ episódios antes, mas nada que uns dias de tempo livre e, melhor ainda, bons amigos e CERVEJA, não façam passar rapidinho.