Wheelman: o irmão quarentão e pessimista de Baby Driver | Judão

Novo original da Netflix é frio, angustiante e objetivo… até se revelar caloroso, emocionante e profundo

“Às vezes, para amar alguém, você tem de ser um estranho”. Essa fala pertence a outro grande filme de 2017, mas foi surpreendentemente em Wheelman que eu encontrei maior peso e sentido para ela.

O filme, uma produção original Netflix estrelada por Frank Grillo (o atual astro-mor dos filmes B de ação em Hollywood), é um contido, direto, objetivo e angustiante thriller sobre um motorista de fuga tentando sobreviver a uma péssima noite de trabalho. Tire as músicas divertidas, a cor, os sorrisos, a jovialidade e o otimismo de Baby Driver; adicione tensão constante, um puta nó na garganta, muitas ligações de celular, aquela preocupação de pai de família em conseguir cuidar de quem se ama e uma visão mais cinzenta da vida. Agora, preserve a alta qualidade da PELÍCULA.

Eis, aqui, o prato da vez. ;D

Wheelman é, antes disso tudo, um estudo de personagem daqueles que só o confinamento num espaço apertado pode proporcionar. Seja um armazém para meia dúzia de pessoas em Cães de Aluguel, um caixão prum Deadpool em Enterrado Vivo, uma cabine telefônica pro (lindo do) Colin Farrell em Por Um Fio ou até, ironicamente, a imensidão do espaço para a Miss Simpatia em Gravidade, tanto faz. Prender o espectador junto a um protagonista é um artifício rasteiro porém brilhante para se desenvolver rapidamente vínculos intensos — o que o diretor e roteirista Jeremy Rush faz sem pestanejar aqui.

Nesse caso se aproximando mais de Locke – o tour de force de Tom Hardy lançado em 2013 que consiste, basicamente, numa série de diálogos proferidos pelo bonitão ao volante dum carro – Wheelman deixa sua câmera quase todo o tempo confinada no veículo dirigido por Grillo, restringindo-se apenas a movimentos rotativos ou trocas de ângulos de alguma forma ligados ao automóvel. É uma escolha ousada que facilmente vai alienar alguns espectadores impacientes, mas que é DETERMINANTE para fazer de Wheelman mais do que só outro filme de ação genérico.

Sem pressa, o filme começa ao passo que acompanhamos o começo de um trabalho de Grillo (e seu personagem identificado por todo o filme apenas como “wheelman”, claro). De início, as coisas já dão sinal de que vai dar bosta com o carro destinado à fuga: uma BMW vermelha, nada discreta, selecionada à revelia do motorista pelo contratante. O quadro só piora com a chegada dos dois desconfiados e ~desconfiáveis caras (um deles, absolutamente INSUPORTÁVEL) chamados para executar a missão: o roubo de aproximadamente R$ 200 mil de um banco. Foda.

Só que a merda atinge o ventilador de vez mesmo quando, com uma ligação, Grillo é informado que será morto pela dupla assim que a grana for colocada no carro. Ele é obrigado a fugir, só que acaba mergulhado numa sequência insana de mais merdas envolvendo duas organizações criminosas rivais em conflito.

Existe um quê de retrô em Wheelman, não só por um ritmo mais cadenciado, uma fotografia de cores mais lavadas e determinados enquadramentos cheios de pequenos detalhes visuais – todos remetentes ao neo-noir –, mas também por detalhes menores, como os letreiros iniciais, que vêm em amarelo bem vivo e acompanhados do copyright (no caso do título). Fica claro que este é um filme feito para homenagear uma época passada do cinema, também como Baby Driver, mas com intenções finais bem distintas. Por exemplo: enquanto Baby é um poço de concentração e finesse ao volante, nada diferente de personagens vividos por Steve McQueen e Ryan O’Neill, o motorista de Grillo está em constante estresse, sempre mudando sua expressão facial e sempre no limite. Uma subversão interessante, acompanhada de uma homenagem.

Já nos minutos iniciais do filme, Grillo exala uma vibe tão HOMEM COMUM, entregando suas falas com um misto de cansaço, tédio e preocupação, que o faz instantaneamente relacionável. Tá lá um cara bem “na dele”, tentando executar o típico malabarismo de trabalho/família/saúde mental, mas fodido justamente pelo primeiro elemento a ser equilibrado ser um dos mais extremos, perigosos e estressantes possíveis. Seus diálogos com a ex-mulher, Jessica (Wendy Moniz), e principalmente a filha, Katie (Caitlin Carmichael), não só ajudam a estabelecer de forma prática uma motivação e um OUTLINE moral do personagem, como são totalmente críveis, relacionáveis e até divertidos – quando não tragicamente angustiantes.

Um intérprete extremamente físico, Grillo acaba por exercitar muito mais os seus músculos dramáticos nesse papel, principalmente porque a restrição imposta à câmera por Rush não permite tanto espaço para chutes, socos e afins quanto em outras oportunidades – e isso é fantástico. Alternando entre raiva, medo, euforia e puro desespero, Grillo desaparece no personagem de uma forma raramente vista em protagonistas de filmes de ação por aí (incluindo os seus próprios). Não vai demorar para você se pegar questionando como os maiores papeis da carreira do cara foram só um capanga que se explodiu nos filmes da Marvel ou o protagonista da franquia bastante questionável Uma Noite de Crime.

Além disso, há de se respeitar muito qualquer ator que consiga fazer 1h de filme funcionar só trocando marchas, girando volante e falando no celular. E Grillo consegue. Consegue MUITO!

É só depois de dois sufocantes (mas extremamente divertidos e envolventes) terços praticamente disso que Wheelman mostra sua verdadeira face. Usando não só de uma, mas de duas geniais viradas, o filme promove uma inesperada CALEFAÇÃO emocional, mergulhando de vez na temática paternal que levantei lá no início do texto.

Não vou me prolongar na questão porque, quão mais de surpresa você for pego, mais deverá se divertir e emocionar. Só registro aqui que a JOVENE Caitlin Carmichael, com apenas 13 anos e tal qual Angourie Rices e Hailee Steinfelds antes dela, se revela um diamante bruto do cinema hollywoodiano já em um de seus primeiros papeis de destaque. Ladra de cenas de primeira linha, a menina!

No ano em que grandes filmes como Logan, Guardiões da Galáxia Vol. 2 e Blade Runner 2049 tocaram, num nível ou noutro, na temática da paternidade, Wheelman oferece mais uma perspectiva sobre essa relação: ecoando O Poderoso Chefão, ilustra como, quão mais próximos de seus pais os filhos estiverem, mais estarão fadados a repetirem caminhos, ainda que essa nunca tenha sido a vontade inicial dos velhos.

A menos, quem sabe, se estes aceitarem se tornar estranhos antes que o pior aconteça.