Will Eisner, o nosso coração na tempestade | Judão

A reveladora (e, infelizmente, atual) história do maior gênio das histórias em quadrinhos, que completaria 100 anos esta semana

“Nós temos essa história de soluções impossíveis para problemas insolúveis”. Foi assim que, certa vez, Will Eisner descreveu a própria vida em uma conversa com Michael Chabon, num relato que, depois – junto com o de quadrinistas como Jack Kirby – resultaria no livro As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay.

Eisner, que teria completado 100 anos na última segunda-feira (6), é realmente o resultado de combinações improváveis. A família era de judeus: Shmuel, o pai, nasceu na Áustria-Hungria; Fannie, a mãe, veio da Romênia. Ambos fugiram para os Estados Unidos por conta da Primeira Guerra Mundial, que foi especialmente nefasta para o Leste Europeu. No novo país, eles sofreram com a barreira da língua. William Erwin Eisner, o primeiro filho, nasceu em 1917 no Brooklyn, em Nova York, seguido por mais dois irmãos: Julian e Rhoda.

O pequeno Will não teve uma infância fácil. Foi vítima do antissemitismo, que já crescia na esteira de eventos que levariam o mundo à Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, a própria família dele não seguia todos os ensinamentos da religião. Quando se viu negado, junto dos pais, a entrar em uma sinagoga por não ter dinheiro para a entrada, jurou que nunca mais seguiria a religião.

Veio a grande depressão. Shmuel, já chamado de Samuel entre os americanos, mal havia conseguido se estabilizar em algum emprego nos anos anteriores, então a situação financeira da família se agravou. Obrigado pela mãe, Will foi vender jornais nas ruas – uma função na qual os garotos disputavam as melhores esquinas, literalmente, no tapa. Ele tinha 13 anos.

Ele continuou indo para a escola, lia pulps (pequenas e baratas revistas de ficção) e, ainda jovem, fez as primeiras tiras para o jornalzinho da escola. Depois de formado, foi surgindo um trabalho aqui, outro lá, muitas vezes usando o nome de Willis B. Rensie. Inclusive, fez artes para as tão amadas pulps por $10 a página – cerca de $180 em dinheiro de hoje. O objetivo final era fazer uma faculdade na área de arte, mas boas universidades não aceitavam judeus.

Já era 1936 quando Will encontrou um velho colega de high school: ninguém menos que Bob Kane que, anos depois, criaria o Batman. Bob pediu que o amigo de 19 anos tentasse vender alguns de seus trabalhos para a Wow, What A Magazine!, compilação de tiras de jornal que era vendida por 10 cents, mas que estava procurando material inédito. Assim, a revista publicou, na edição de número 3, a história de Captain Scott Dalton, sobre um herói que viajava para diversos mundos em busca de relíquias.

Ali começava, ainda de forma tímida, o mito.

Harry Karry, uma das primeiras criações de Eisner, publicada com o pseudônimo de Willis B. Rensie

Eisner era extremamente jovem em uma mídia ainda mais iniciante. As tiras de jornal eram o principal expoente, herdeiras diretas dos cartuns iniciados no século anterior. “Comic books” nada mais eram que compilações daquele material seriado, buscando o público de crianças de famílias falidas durante a depressão. Era um entretenimento barato, simples e, muitas vezes, inspirador.

Não existiam grandes editoras, publishers, autores... Todos os quadrinistas – que nem eram chamados assim – eram extremamente mal pagos, topando tudo que aparecia. Entre elas estavam as chamadas “Tijuana bibles”, publicações pornográficas. Eisner chegou a receber um convite para desenhar para uma delas, mas se recusou. “Uma das decisões morais mais difíceis da minha vida”, disse ele, anos depois.

Como era quase que uma regra não escrita naqueles tempos, a Wow não durou muitas edições. Porém, o editor Jerry Iger havia percebido o potencial daquele jovem. Juntos, eles criaram a Eisner & Iger, ou Art Syndication Company, enfim, nunca houve exatamente um nome oficial para a iniciativa. Lá, passaram a produzir HQs sob demanda na segunda metade dos anos 1930, empregando caras como Jack Kirby.

Mais ou menos na mesma época, a pequena Detective Comics Incs. publicou a primeira edição de um gibi chamado Action Comics. No miolo e na capa, um personagem criado por dois judeus ganhava o estrelato. Era o Superman. A partir daquele momento, as histórias em quadrinhos nunca mais seriam as mesmas.

O surgimento do Superman mudou tudo, para Eisner e para os quadrinhos de forma geral.

Numa época na qual as pessoas precisavam de uma inspiração para enfrentar tempos difíceis, Action Comics #1 vendeu muito. Em pouco tempo, todo e qualquer Publisher envolvido com quadrinhos quis ter um Superman para si. Após algumas iniciativas nesse sentido via Eisner & Iger, o telefone de Will tocou no final 1939. Era Everett M. Arnold, o Busy, da Quality Comics, convidando o quadrinista para um almoço.

Não existe almoço grátis e Will deixaria a sociedade com o amigo Iger, que na época já era rentável, e se dedicaria a criar um personagem para estrelar uma revista em quadrinhos, que por sua vez seria vendida por uma “syndicate” para ser encartada em jornais de domingo – tudo para competir com as revistas de 10 cents. A condição final para o acordo: o personagem a ser criado seria totalmente de Will Eisner.

“Em minhas discussões com ‘Busy’ Arnold, o pensamento dele centrava em um personagem tipo super-herói – um personagem mascarado, nós não usávamos a palavra ‘super-herói’ naquela época... E eu argumentei veementemente contra isso porque eu estava cheio de criar heróis mascarados na Eisner & Iger...”, contou o quadrinista em uma entrevista no final dos anos 1970. “Então, numa noite, lá pelas três da manhã, eu ainda estava trabalhando, tentando encontrá-lo – eu só tinha uma semana e meia ou duas semanas para produzir a primeira edição, o acordo todo foi feito meio que na pressa – e eu surgi com esse herói fora da lei, adequado, eu senti, para o público adulto”.

Assim nascia The Spirit, que estreou em junho de 1940 e foi até 1952, estrelando o encarte de 16 páginas que acabaria conhecido como “The Spirit Section” e, eventualmente, alcançaria uma tiragem de 5 milhões de exemplares.

Spirit no lápis e nanquim de Eisner, já nos anos 1960

Aquilo acabou sendo a grande mudança na carreira do jovem autor. As revistas em quadrinhos eram, basicamente, para as crianças. Porém, ao levar o Spirit para os jornais, com a formatação que ele pensou, o alçou a um público mais velho. “Eu queria escrever coisas melhores que super-heróis. Quadrinhos eram um gueto”, disse ele em 1997. “Eles me perguntaram se eu poderia colocar um uniforme [no Spirit]. Eu coloquei uma máscara nele e disse: ‘Sim, ele tem um uniforme’”.

Uma das maiores críticas, ao menos aquela que sobreviveu ao tempo, não foi relacionada à máscara. O parceiro de Spirit, Ebony White (“Ébano Branco”, em português) era uma representação racista e estereotipada dos negros. Anos depois, o quadrinista reconheceu que houve certo exagero, mas que havia feito isso com “responsabilidade”. “Na época, humor na nossa sociedade consistia em falar inglês errado e ter uma diferença física como identidade”. Com o tempo, Ebony foi ganhando importância nas histórias e Eisner introduziu um outro personagem negro, o detetive Grey, que desafiava os estereótipos da época.

Entre 1941 e 1942, Eisner foi convocado a servir o exército. Era a Segunda Guerra Mundial. No entanto, o jovem quadrinista não serviu no front. Após ter um período para colocar as coisas em ordem e deixar o Spirit nas mãos de ghost writers, ele foi servir em Aberdeen, Maryland, num campo de treinamento – onde foi criar HQs para auxiliar nesse fim. Lá, Eisner criou a HQ mimeografada Army Motors, focada em treinamento.

Depois da guerra, Will voltou à vida de civil. Aos poucos, a febre dos quadrinhos foi morrendo, levando The Spirit e sepultando todas as iniciativas do quadrinista na época. Ainda assim, Eisner acreditava que a chegada da televisão poderia servir como trampolim para novos leitores. Além disso, com a experiência no exército, passou a produzir material visual para o governo, agências e empresas. Com a retomada dos gibis na chamada Era de Prata, o Spirit voltou a ser republicado, com eventuais novas histórias.

A história de Will Eisner, o quadrinista, poderia acabar por ali. Afinal, ele havia conquistado um certo nome e, mais do que tudo, havia “rompido” a bolha do gueto, como ele mesmo chamava, ao produzir materiais para grandes empresas. Só que, em seu ÂMAGO, ele nunca deixou a verdadeira paixão de lado.

Mais do que qualquer um, Eisner se tornou um estudioso das histórias em quadrinhos, a mídia. Fascinado pela comunicação e formatos, o autor começou a agregar elementos de outras linhas de estudo para interpretar, categorizar e melhorar as HQs. Ainda nas páginas de revistas do Spirit, Will publicava essas análises e estudos — isso enquanto todo mundo via os quadrinhos como um entretenimento barato para crianças.

Em 1972, a empresa que Eisner tinha fechou as portas. Com tempo de se dedicar de forma total aos quadrinhos, o autor se debruçou em seu próprio passado, não em busca de uma continuação para o Spirit, mas de histórias mais maduras.

A publicação só aconteceu em 1979, com quatro contos, todos se passando no mesmo cortiço no Bronx dos anos 1930. No primeiro, um homem religioso desiste da própria fé após a morte da filha adotada; no segundo, uma antiga diva tenta seduzir um jovem cantor de rua, que, pelo outro lado, acha que poderá tirar vantagem dela; na terceira, um valentão racista se suicida após acusações falsas de pedofilia; na última, aborda um grupo de personagens viajando para as Montanhas Catskill. De forma geral, todas as HQs lidam com preconceito, desilusão, violência e identidade étnica.

O título do encadernado, que também dava nome ao primeiro conto? Um Contrato com Deus. Em 2001, Will revelou que a história surgiu após perder a filha Alice para a leucemia, em 1970. Ela tinha apenas 16 anos.

Publicada pela pequena Baronet Books, Um Contrato com Deus rapidamente alcançou um status cult, sendo a primeira história em quadrinhos a ser chamada, de forma ampla, de graphic novel, popularizando o termo.

Um Contrato com Deus é o grande marco para popularizar as graphic novels.

A partir de então, Will Eisner publicou outras diversas histórias, como Força da Vida e Avenida Dropsie (ambas continuações de Um Contrato com Deus), Assunto de Família, Pequenos Milagres, Nova York – A Vida na Grande Cidade, O Sonhador e por aí vai.

Entre essas todas, Ao Coração na Tempestade merece um parágrafo especial, já que relata a própria infância do autor. “Eu comecei esse livro com a intenção de escrever uma graphic novel que fosse sobre a ‘biologia do preconceito’”, contou Eisner em 2000. “Ao invés de usar frias pesquisas escolares, eu pensei que seria mais interessante contar minha própria experiência pessoal. Quando cheguei ao fim do primeiro terço, eu percebi que estava produzindo uma autobiografia. Eu fiz uma longa pausa. Para escrever algo tão revelador da vida de alguém precisa de uma coragem considerável”.

De alguma forma, toda essa contribuição para o mundo dos quadrinhos ainda era pouco para Will. Ele, que não pode fazer faculdade, foi dar aulas na School of Visual Arts, de Nova York, ajudando a formar novas gerações de quadrinistas. Mais do que isso: ele reuniu as antigas lições da publicação do Spirit com as novas aulas, trazendo ao mundo uma de suas maiores contribuições: o livro Quadrinhos e Arte Sequencial, de 1985.

Até então, livros sobre HQs eram, basicamente, aulas de anatomia. O que Eisner fez foi compartilhar com o mundo todos os estudos que ele fez, mostrando que HQs são muito mais do que uma sequência de artes e textos. Ele, inclusive, foi o responsável por cunhar a expressão “arte sequencial”, definindo exatamente o que ela é.

A continuação, Narrativas Gráficas, veio em 1996. Juntos, os dois livros são – peço perdão pela alegoria religiosa ao escrever sobre o Eisner, mas aqui ela é necessária – a bíblia dos quadrinistas e jornalistas especializados. Ninguém nunca entendeu tão bem (e nem vai entender) esta mídia quanto ele.

Will Eisner morreu em 3 de janeiro de 2005, vítima de complicações de uma cirurgia no coração que fez dias antes, sendo enterrado ao lado da filha. Hoje, a maior premiação dos quadrinhos nos EUA, que acontece durante a San Diego Comic-Con, recebe o nome de Eisner Awards.

Ainda assim, meio que assustadoramente, a história dele continua atual. Como era há um século, o mundo vive suas ondas de refugiados, seus preconceitos, seus muros e divisões. Só mudou a cor da pele, a religião e a região de origem no mundo.

Nesse seu aniversário de 100 anos, somos nós que agradecemos, Will. E vamos tentando não cometer os mesmos erros que cometeram com você lá atrás. Mesmo que seja por meio de soluções impossíveis para problemas insolúveis...