Will & Grace voltam chutando a porta da frente da Casa Branca | Judão

Forte nas muitas piadas feitas cirurgicamente pra sacanear o atual presidente dos EUA, retorno da série mais de uma década depois também é deliciosa adaptação às referências pop de hoje mantendo o charme de OUTRORA

Depois do retorno naquele delicioso micro episódio em apoio à candidatura de Hillary Clinton, dava pra sacar que ainda tinha lenha pra queimar com Will & Grace. Logo, não foi lá uma GRANDE surpresa a notícia de que a NBC encomendaria uma nova temporada de 16 episódios, a nona, 11 anos depois que o “series finale” foi ao ar. A surpresa, na real, seria saber como diabos isso seria conduzido. Porque, afinal, revival por revival, a gente tem aos montes por aí e 90% deles acabam se revelando apenas um espetáculo da mais pura vergonha alheia.

Pra mim, no caso de Will & Grace, ainda tinha um agravante: o olhar cínico e desacreditado de quem não achava que podia sair qualquer coisa de bom do retorno de sua sitcom favorita assim, do mais absoluto nada, para uma temporada completa. Tudo cheirava ainda à desconfiança, ainda que EM MEU CORAÇÃO eu não quisesse, de fato, desconfiar. Só queria acreditar. Só vem.

O ponto é que não haveria momento MELHOR para que Grace Adler se separasse e fosse novamente pedir arrego pro eterno amigo Will Truman. Um mundo cada vez mais intolerante, racista, homofóbico, precisa de dois gays sendo simplesmente fabulosos na TV e esfregando isso na SUA, na SUA e sim, na SUA cara. E, em nome de Cher, como eu estava enganado. AINDA BEM. Will & Grace abriu o novo ano de trabalho mostrando inteligência, carisma e um humor afiadíssimo, tudo isso ancorado em diálogos ágeis e na atuação de um elenco absolutamente enxuto.

Acertadamente, eles não perdem lá muito tempo com didatismo barato pra te explicar o que aconteceu com os personagens nestes últimos anos. Basta apenas a Karen sendo a Karen e um copo de bebida para fazer a magia acontecer em cinco minutos. É uma solução divertida, que funciona bem demais, tira logo o elefante branco da sala e tem rigorosamente tudo a ver com a MITOLOGIA de Will & Grace.

Eric McCormack, Debra Messing, Megan Mullally e Sean Hayes estão tão à vontade que, de verdade, não parece que mais de uma década se passou. Eles são aquilo que, aparentemente, nunca deveriam ter deixado de ser.

Will, Grace, Jack e Karen estão ali e foda-se. É isso que você precisa saber. Siga em frente.

Riquíssima em referências pop desde sempre, a série obviamente se atualizou para o mundo de hoje. Jack usa o Grindr para procurar o pega da vez. Will e Grace têm na ponta da língua pequenas pérolas de sabedoria sobre o clã das Kardashian. E a Karen... bom, a Karen é amigona da Melania Trump. Em um grupo no qual a dupla principal é total e completamente #TeamBarackOBama e Jack é apenas Jack, vivendo em um mundo só seu no qual é ditador absoluto e nada mais importa a não ser as suas muitas tentativas de ser famoso.

É aí, aliás, que este quarteto fantástico mais acerta. Nas dezenas de corajosas e diretíssimas piadas envolvendo a nova família a tomar conta da Casa Branca. Tudo começa quando Will conhece um senador que é, em termos de posicionamento, rigorosamente tudo que ele mais abomina na face da Terra. Conservador pra caralho, vota contra as principais leis ambientais... Mas o cara é lindo e tá afim dele. O quão hipócrita seria ir até Washington para conhecê-lo? Bom, tão hipócrita quando Grace aceitar um trabalho em particular de decoração de interiores para um cliente bastante poderoso?

Nesta nossa existência eterna e TENSAMENTE polarizada, tanto ele quanto ela acabam saindo de suas bolhas para entender como e se poderiam se relacionar com gente que pensa e se posiciona de um jeito completamente diferente. Gente que não seja, bom, a Karen.

Talvez esta nova temporada de Will & Grace esteja pregando para iniciados? Talvez, é de fato um risco. Talvez seja uma série conversando apenas com o seu público fiel de outros tempos, sem atrair uma nova leva de fãs. Talvez, talvez. Mas, ainda assim, é um discurso necessário PRA CARALHO. É, mais uma vez, a cultura pop falando sobre política, do seu jeito, sob um novo prisma, um novo olhar.

E, neste caso, bem mais cheio de charme e estilo.