X-Men: Fênix Negra é genérico e dispensável | JUDAO.com.br

A primeira franquia dos mutantes se despede dos cinemas sem deixar saudades

A franquia X-Men nos cinemas sempre sofreu com decisões criativas equivocadas e dividiu opiniões ao longo de seus quase 20 anos nos cinemas. Com a desculpa de múltiplas linhas do tempo, os filmes permitiram que determinados acontecimentos não fossem relevantes, tornando as histórias em um amontoado de problemas de continuidade e narrativa.

Em sua despedida antes de retornar pras mãozinhas da Marvel, a franquia parece realmente não ter aprendido com seus próprios erros e sai pela porta dos fundos de maneira melancólica.

Na estreia da semana, X-Men: Fênix Negra, os heróis são enviados em uma missão espacial. Durante o resgate de uma equipe de astronautas, Jean Grey quase morre salvando todo mundo de uma misteriosa força cósmica que, ao retornar pra casa, se torna extremamente poderosa, mas também muito instável. A medida que a situação sai do controle, os heróis mutantes precisam se unir para tentar controlar Jean.

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A história se passa em 1992 – uma década depois de X-Men: Apocalipse e 30 anos depois de X-Men: Primeira Classe -, quando os mutantes agora são vistos como heróis pela população e úteis para o governo em momentos de necessidade. Com uma linha direta com o próprio presidente, Professor Xavier se acostumou com a adoração dos humanos e envia seus alunos para missões cada vez mais arriscadas, o que desperta questionamentos em Raven e Hank, o que restou de seus primeiros pupilos.

O inegável desejo de aceitação de Xavier seria uma trama muito mais interessante do que uma heroína superpoderosa descontrolada, mas o roteirista e diretor Simon Kinberg preferiu entregar sua própria recriação falha de X-Men 3: O Confronto Final. Enquanto a primeira tentativa de adaptação da clássica saga dos gibis foca na luta entre os mutantes, esse novo longa apresenta uma trama desnecessariamente complicada sobre uma forte heroína que perdeu o controle ao descobrir segredos de infância e alienígenas sem nome com planos malignos óbvios que dizem ter a resposta que Jean precisa.

Importante ressaltar aqui: que vilões óbvios e descartáveis foram estes, uma versão sem personalidade dos skrulls?

Não colabora em nada o fato de que X-Men: Fênix Negra tenha diálogos previsíveis e um ritmo completamente equivocado, dando a impressão de um prólogo excessivamente longo. Quando menos esperamos, o clímax surge sem criatividade e com excesso de CGI ruim.

Além do ritmo, a produção não se preocupou em criar um universo, tornando X-Men: Fênix Negra uma história plana do começo ao fim ,com o roteiro apenas se aproveitando de elementos já apresentados em momentos anteriores da franquia – uma bagunça por si só, não esqueça.

Não tem conexão direta com o filme anterior (os uniformes apresentados no final de Apocalipse sumiram e tampouco se menciona o momento no qual Jean já tinha manifestado um poder similar ao da Fênix). Também não existe explicação ou até mesmo motivo para essa história ser ambientada nos anos 1990, por exemplo. O espectador só sabe que a trama se passa nesse período porque o filme aponta essa data, já que não recriaram qualquer aparência da década no design de produção ou no próprio figurino dos atores.

E apesar dos esforços de Sophie Turner, a atriz não teve o que trabalhar em sua personagem a partir de um roteiro fraco e apressado, sem construção consistente da luta da personagem com o poder da Fênix dentro de si ou até mesmo do seu próprio poder.

O ponto mais interessante das histórias dos X-Men é o processo de aceitação dos mutantes no mundo dos humanos e a linha entre ser aceito e ser visto apenas como uma arma por forças governamentais. Esse questionamento sobre os limites para ser aceito, fazer parte de algo e principalmente se aceitar é o que torna o universo X-Men tão fascinante. X-Men: Fênix Negra apenas arranha um elemento narrativo essencial nesse universo.

Mas o pior ponto de muitos questionáveis é o filme tentar passar uma mensagem sobre empoderamento feminino que se autodestrói durante a história, quando mostram que uma mulher extremamente poderosa é perigosa demais por não conseguir controlar seus próprios sentimentos. Meu alerta de roteiro escrito por um homem apitou enlouquecidamente a partir daí, principalmente quando a morte de uma personagem feminina serve de motivação para personagens masculinos.

Não é a primeira vez que vemos Jean Grey passar por essa transformação nesse mesmo universo, mas é inevitável não pensarmos se realmente nos importamos com o drama da personagem ou até mesmo com essa franquia. E a resposta é preocupante...

Ah, que saudades daquela Primeira Classe.