Aumentam as chances de Y: O Último Homem virar série de TV | JUDAO.com.br

O FX encomendou um piloto, precisam aprovar ainda. De qualquer maneira, é o mais longe que o ótimo gibi de Brian K. Vaughan e Pia Guerra chegou depois de uma longa jornada tentando virar filme

Enquanto o primeiro filme do Homem de Ferro chegava às telonas, inaugurando o que hoje chamamos de MCU (sem que essa ideia existisse exatamente ainda), chegava às bancas a edição de número 60 e também o derradeiro capítulo de Y: O Último Homem, um bem-sucedido título da Vertigo que, um ano antes, teve seus direitos de adaptação cinematográfica devidamente adquiridos pela New Line Cinema. Uma década depois, em 2018, enquanto Tony Stark se prepara para aparecer em seu OITAVO filme pela Marvel, finalmente Yorick Brown vai ganhar a sua chance em uma tela, ainda que ela não seja mais aquela enorme, dos cinemas, e sim a menor, das telas de TV.

E de algumas pessoas apenas, inicialmente.

O FX solicitou um piloto baseado na HQ, que terá Michael Green (American Gods, Blade Runner 2049, Logan) e Aida Mashaka Croal (Luke Cage) como co-showrunners do projeto, além de Nina Jacobson (Jogos Vorazes) e Brad Simpson (Guerra Mundial Z) como produtores executivos, ao lado do roteirista original do gibi, Brian K. Vaughan (que, por sua vez, já teve sua experiência como roteirista/produtor de TV em Lost e Under The Dome).

A direção do piloto (que, bom, só vira série de verdade se a emissora gostar do resultado e der o chamado “sinal verde”) ficará a cargo de Melina Matsoukas, das séries Insecure, Master of None e também de uma porrada de clipes da Beyoncé — incluindo o já icônico Formation. Mais detalhes, como data de entrega do projeto e elenco potencial, devem ser conhecidos em breve.

Lançado em 2002, Y: O Último Homem, com roteiro de Vaughan e arte da desenhista canadense Pia Guerra, tem uma trama pós-apocalíptica relativamente simples, mas genial em sua execução. Exatamente no dia 17 de Julho de 2002, todos os mamíferos vivos com um cromossomo Y, incluindo embriões, morreram simultaneamente. Quando a gente diz “todos” são rigorosamente TODOS, do planeta inteiro.

Ou seja: não apenas os seres humanos do sexo masculino, mas os machos de todas as espécies de mamíferos morreram. A causa de tal tragédia global é totalmente desconhecida, só que uma coisa é fato: o planeta entra num verdadeiro caos. Não apenas porque morreu metade da população da Terra (e consideremos que alguns morreram, por exemplo, pilotando aviões ou dirigindo ônibus, levando um monte de gente com eles, homens e mulheres), mas porque rapidamente começa a incerteza: estaria a raça humana fadada à extinção?

A sacada aí é que o tal Y, o último homem do título, é um jovem chamado Yorick Brown. Especialista em números de fuga, ele e seu macaco de estimação, Ampersand, são os únicos machos que sobreviveram. O motivo? Ninguém faz a mais remota ideia. Nem eles. Para tentar evitar uma caçada ao moleque, a mãe de Yorick, uma congressista em Washington, designa a Agente 355 para protegê-lo e levá-lo até a geneticista em especialista em clonagem Dra. Allison Mann, que vai tentar entender porque o cara sobreviveu. Começa então uma espécie de road trip que os faz viajar até São Francisco e depois pra Austrália e pro Japão, passando grupos que querem capturá-lo e/ou matá-lo por uma série de razões, incluindo aí ninjas, um comando militar israelense e até uma milícia de nome Daughters of the Amazon.

Premiado com nada menos do que três Eisner Awards e também com a primeiríssima estatueta do Hugo Award para “melhor história gráfica”, em 2009, Y: O Último Homem foi recentemente publicado na íntegra aqui no Brasil via Panini Comics, em 14 encadernados — o último deles saiu em outubro de 2017.

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Em Julho de 2007, a New Line estava preparadíssima pra fazer o tal filme de Y, cujo controle dos direitos sempre esteve nas mãos de Vaughan e Guerra. Com roteiro de Carl Ellsworth e direção prevista para D. J. Caruso, a dupla responsável por Paranoia (2007). Caruso, aliás, estava planejando finalizar a história e já começar a gravar no verão americano de 2008, contando inclusive com uma reestruturação pelas mãos de Jeff Vintar (Eu, Robô, de 2004). Mas a treta começou aí, justamente porque esta versão, considerada bastante fiel aos gibis, fez os executivos terem um pé atrás sobre seu sucesso comercial. Logo depois, o próprio Vaughan meteu a mão na massa, com uma versão de roteiro bem mais distante dos quadrinhos, mas fracassou igualmente em conseguir a aprovação dos endinheirados.

O diretor também sempre pensou que o material original era longo demais para ser contado num único filme e tinha claro que o primeiro deles abordaria até o número 14, enquanto o restante seria dividido em outras duas continuações, formando enfim uma trilogia. Nesta época, tanto Shia LaBeouf (que já tinha trabalhado com Caruso em Paranoia e tava desfrutando do sucesso de Transformers) quanto Zachary Levi manifestaram interesse em ser Yorick — Zachary, fã do gibi original, até chegou a aparecer lendo a HQ na série Chuck, no episódio Chuck Versus the Nacho Sampler. E Caruso tinha na cabeça que Alicia Keys seria uma Agente 355 perfeita. Mas quando o estúdio bateu o pé que Y deveria ser um filme único, as tais “diferenças criativas” falaram mais alto e o diretor vazou do projeto.

As coisas ficaram paradas até 2012, quando o duo Matthew Federman e Stephen Scaia, produtores e roteiristas da série Jericho, entraram no circuito pra cuidar do roteiro. Segundo consta, a New Line tava empolgadona com esta versão e começou a procurar por um diretor — que apareceu na figura de Dan Trachtenberg (Rua Cloverfield, 10). “Enfim temos um roteiro que está mais perto do que jamais esteve, então bata na madeira”, disseo produtor David Goyer, em entrevista pro Mandatory.

Pelo jeito, não adiantou muito, porque o treco voltou a ficar estagnado.

Em Janeiro de 2014, num papo com o Comic Book Resources, Vaughan disse que naquele ano mesmo teríamos novidades sobre a adaptação, pro bem ou pro mal. “Pelo que entendo, os direitos de adaptação de Y devem retornar pra mim e Pia pela primeira vez em uma década se o tal filme da New Line não começar a rodar nos próximos meses”. Não começou. “Pois é, não vai rolar”, confirmou Trachtenberg no Twitter. “Mas está em mãos muito confiáveis (as dos criadores)”.

“Nós queremos contar uma história completa... mas não a história inteira”, afirmou o autor, em comunicado oficial, depois que a produção cinematográfica enfim foi dada como morta e enterrada. “Caso tivéssemos sucesso, aí sim o restante da aventura serializada poderia ser contado”. Pelo jeito, ele concordava com a visão de Caruso...

Aproveitando seus contatos no mundo da TV, Vaughan mexeu os pauzinhos para que esta aventura “serializada” virasse, afinal de contas, uma série. E por mais que o diretor francês Louis Leterrier tenha, em algum momento, se interessado pela história, o acordo rolaria com o FX lá por volta de 2015. “Está se tornando realidade bem devagar”, chegou a contar ele, dando um status pro Vulture enquanto falava de seu bem-sucedido novo título da Image Comics, Saga. “Não tenho nenhuma notícia que possa compartilhar, a não ser de que está tudo rolando felizmente”.

E aí rolou MESMO. ;)

É importante relembrar aqui pros teóricos de plantão do mundo das séries que Y: O Último Homem, tal qual o Lost do qual Vaughan participou, não chega ao fim — pelo menos nos gibis — te oferecendo todas as respostas. A maior delas, por exemplo, o que diabos causou a praga, permanece um mistério. Ou quase isso. Porque rolaram diversas teorias ao longo dos 60 números, mas nenhuma definitiva. E o escritor, claro, permanece bastante misterioso sobre isso.

“Eu acho que, sim, existe uma explicação definitiva, mas gosto que as pessoas não necessariamente saibam”, explica ele, ao IGN. “Nós sempre dissemos que contaríamos às pessoas o que causou a praga, mas nunca dissemos quando. Nós deveríamos ter contado no número 3. Talvez algo muito detalhado no fundo, que apenas algumas pessoas pegariam. (...) Mas a resposta real é que ela está em algum lugar destes 60 números, só que eu prefiro que cada leitor decida qual é ao invés de ficar forçando algo”.

Se a série mantiver esta ideia (e eu, de verdade, acho DEMAIS que deveria, diferente do que o Aronofsky fez com mãe!), pode ser que a turma que gosta de tudo muito explicadinho tenha em breve uma nova série pra odiar. <3