Ziggy Stardust: o homem das estrelas que caiu na Terra | Judão

Como a fixação de David Bowie por temas espaciais e ficção científica o ajudou a criar a persona que o transformou definitivamente em rock star

Existe uma daquelas lendas do rock, do tipo que ninguém se preocupa muito em contestar, que diz que o jovem inglês David Robert Jones, nascido em Janeiro de 1947, resolveu mudar seu nome artístico para evitar ser confundido com um outro cantor britânico homônimo, o Davy Jones que se tornaria frontman dos Monkees. Com um sobrenome fictício inspirado no Coronel Jim Bowie, que pode ser visto no filme O Álamo (1960), e no instrumento de combate que ele ajudou a tornar famoso, as chamadas facas Bowie, surgia David Bowie.

“Eu gosto da ideia de que estas facas eram afiadas dos dois lados, então elas podiam cortar em ambos”, explicou ele, em entrevista pra BBC. “Eu sentia que tinha algo terrivelmente ambíguo sobre este nome”.

Mas o motivo que o levou VERDADEIRAMENTE a mudar de nome, ah, isso é coisa que ele jamais confirmou pra ninguém. “Em resposta às suas perguntas, meu verdadeiro nome é David Jones e eu não tenho que te contar porque eu mudei”, escreveu ele em uma já histórica carta para uma de suas primeiras fãs nos EUA, lá em 1967. E foda-se, né. Porque David Bowie não era só um nome, mas também uma persona artística, uma das muitas que ele teve ao longo dos anos.

A mais famosa de todas, sem sombra de dúvidas, era o alienígena roqueiro de cabelos laranjas que praticamente dominou a vida do cantor — que se vestia como ele também fora dos palcos, que dava entrevistas falando e gesticulando como ele e chegava ao ponto de querer fazer as pessoas realmente acreditarem que ele era um extraterrestre em missão de paz por aqui: um sujeitinho egocêntrico e inesquecível de nome Ziggy Stardust.

A primeira apresentação de Bowie trajado e incorporando Ziggy Stardust, devidamente acompanhado por sua banda de apoio, os Spiders From Mars (Mick Ronson na guitarra, Trevor Bolder no baixo e Mick Woodmansey na bateria, a mesma formação consolidada no álbum anterior, Hunky Dory), aconteceu em um pub chamado Toby Jug, num subúrbio londrino, no dia 10 de Fevereiro de 1972. O álbum conceitual The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, o quinto de estúdio da carreira do cantor, sairia meses mais tarde, em Junho. Em termos sonoros, o disco era puramente glam rock, com um quê do hard de The Man Who Sold the World, mas sem deixar de lado a experimentação que tinha começado no disco lançado antes. Os temas das letras falavam essencialmente sobre sexualidade e tinham, vá lá, um tom considerável de crítica social e política, tudo girando ao redor da jornada de Ziggy Stardust na Terra.

Ziggy Stardust é a manifestação humana de um alienígena, que vem para o nosso planetinha oferecer uma mensagem de esperança nos últimos cinco anos de sua existência, já que a humanidade abusou e sugou até a última gota dos recursos naturais por aqui, até que ele acaba conhecendo o mundo do rock e se afunda em seus próprios desejos. Promíscuo, vaidoso, enigmático e provocador, usando drogas como se não houvesse amanhã, Ziggy acaba destruído pelos próprios instintos e também pelos fãs que passou a inspirar quando se tornou rock star.

“Estamos num mundo no qual todas as crianças têm aquilo que elas achavam que precisavam”, explicou Bowie, sobre o conceito da trama de Ziggy, em uma entrevista ao icônico escritor William S. Burroughs para a edição impressa da Rolling Stone. “Os adultos perderam sua conexão com a realidade e as crianças são deixadas para pilhar tudo como quiserem. Ziggy está em uma banda de rock em um mundo no qual os jovens não querem mais rock. Nem existe eletricidade para tocar. O fim vem quando os Infinitos, os aliens, se aproximam. Eles são mais como buracos negros, mas eu lhes dei formas humanas porque seria muito complicado explicar um buraco negro no palco”.

Em seus sonhos, Ziggy é avisado para escrever sobre a chegada do Homem das Estrelas – então ele escreve Starman, que é a primeira notícia de esperança que as pessoas ouvem em muito tempo depois de saberem que seus dias estão contados em Five Years. Os Infinitos, estes alienígenas que pulam de universo para universo usando buracos negros, viram o seu assunto recorrente. Estes aliens que desembarcam no Greenwich Village não se importam com a gente, já que temos pouco ou quase nenhum uso para eles, usando pedaços de seu emissário para assumir uma forma real, já que em seu estado original eles são apenas anti-matéria e não podem existir aqui. Ziggy, uma espécie de Surfista Prateado do rock, se encanta pelas tentações humanas e, em Rock ‘n’ Roll Suicide, ele é feito então em pedaços em pleno palco.

Pouco antes de seu pai morrer, Bowie já tinha flertado com os temas espaciais, como em Space Oddity, seu maior sucesso até então, a história desesperadora e claustrofóbica de um homem perdido no espaço. Mas Ziggy começou a ser construído rapidamente ainda na estrada, na turnê anterior, como uma verdadeira colcha de retalhos de influências. O cantor inglês Vince Taylor, tão sexy quanto problemático, que passou a sofrer sérios problemas com alucinógenos e saía dizendo por aí que era mensageiro divino, uma mistura de deus e alienígena, era uma delas. O cantor texano de psychobilly conhecido como The Legendary Stardust Cowboy era outra mais óbvia, até mesmo pelo nome – complementado pelo “Ziggy”, que veio de uma loja de roupas que Bowie viu quando estava a bordo de um trem e, bom, ajudava a dar um clima Iggy Pop pra coisa toda.

Por falar nele, tanto Iggy quando Lou Reed também foram misturas que ajudaram a dar cor ao DNA de Ziggy Stardust, assim como o veterano do rock Gene Vincent e até seu próprio designer de figurinos, Kansai Yamamoto.

As performances ao vivo era totalmente teatrais, em parte inspiradas no trabalho de um de seus professores, Lindsay Kemp, um ator, dançarino, coreógrafo e mímico que fez sucesso na década de 70. Em um daqueles momentos que entraram para a história e se tornou capa de tudo quanto era jornal na época, Ziggy se ajoelhava de frente para seu guitarrista, Mick Ronson, a masculinidade aflorada que se contrapunha ao visual andrógino de Bowie, puxava sua bunda e simulava fazer sexo oral. O cantor adorava colocar fogo na polêmica de sua sexualidade ambígua, que era comentada anos antes e agora passou a se tornar assunto recorrente em pauta, elevado à décima potência. “Sou gay e sempre fui, mesmo quando era David Jones”, disse ele em uma entrevista icônica para a Melody Maker, em 1972. Mas na época o músico era casado com uma mulher e tinha um filho. OHHHHHHHHHH! Era Bowie falando e admitindo ser bissexual? Ou era Ziggy comentando seus prazeres terrestres? Naqueles anos, era muito difícil saber. “Fora dos palcos sou um robô. No palco eu adquiro emoção”, afirmou ele ao biógrafo David Buckley. “Provavelmente por isso prefiro me vestir como Ziggy do que como David”.

Embora o disco em si tenha sido gravado rapidamente, em cerca de 10 dias, Bowie dedicou grande parte de seu tempo a construir este conceito de apresentação mais performática. Levou seus colegas de banda para ver muitas referências, mas não shows musicais e sim peças de teatro e eventos de dança, de balé. “Foi uma revelação”, conta o batera Woodmansey para a Rolling Stone. “Começamos a aprender na prática como fazer um SHOW e não apenas fazer música”.

Esta relação de Bowie com Ziggy se manteve ao longo de uma enorme e exaustiva turnê de 18 meses — a mesma que, é preciso admitir, consolidou de vez a carreira do frontman no universo da música. Foi Ziggy Stardust que o transformou em ícone pop, que fazia as plateias enlouquecerem, que conquistava homens e mulheres sem distinção, que mexia com todo mundo de uma maneira bastante selvagem. No livro Starlust: Secret Life of Fans, de Fred e Judy Vermorel, de 1985, um fã contou que “Muitos homens jogavam as cuecas pra cima e mostravam o pênis. Uma garota chupava alguém enquanto, ao mesmo tempo, tentava sacar o que acontecia ao redor. Achei aquilo extraordinário, porque ninguém tinha inibição nenhuma”. O tecladista Mike Garson, que acompanhou a banda durante muitos anos, tende a acreditar nos relatos. “Eu ouvia estas histórias todas do que rolava na plateia e, bom, eu acredito. Eu via muita coisa maluca rolando”.

No ano seguinte, em 1973, David Bowie lançaria Aladdin Sane, aquele álbum com a icônica foto do raio maquiado no rosto. Embora, na teoria, fosse um disco com um outro personagem, na prática estávamos falando de uma “evolução” de Ziggy, que continuava tomando conta do palco. O próprio Bowie chamava o disco de “Ziggy in America”, justamente por se tratarem de faixas escritas durante a turnê norte-americana do álbum anterior. Assim, emendando uma turnê na outra, um álbum no outro, Bowie já era Ziggy Stardust sem tempo pra respirar há mais de um ano.

“Durante anos, Ziggy não me deixava sozinho. Foi quando as coisas começaram a desandar. Minha própria personalidade tinha sido afetada. Ficou perigoso demais. Eu passei a duvidar da minha própria sanidade”, contaria ele mesmo em Moonage Daydream, um livro sobre sua fase como Ziggy Stardust. Todo mundo começou tratá-lo como se ele fosse mesmo Ziggy, botando fé na mensagem. “E eu me convenci de que era um messias. Não conseguia decidir se estava criando os personagens, se eles me criavam ou se todos éramos um só. Agora, estava escrevendo para um tipo diferente de projeto e completamente entediado com todo o conceito de Ziggy. Não conseguia manter o foco na apresentação. Estava esgotado e infeliz”.

Então, veio a decisão de MATAR Ziggy, esta caricatura em forma de ET das estrelas do rock. Era Bowie se recriando mais uma vez. No dia 3 de Julho de 1973, no palco do Hammersmith Odeon, em Londres, o homem da poeira estelar fez a sua derradeira apresentação – ainda que quase ninguém soubesse disso. Do seu time particular, apenas seu empresário na época, TonyDeFries, e o guitarrista Mick Ronson estavam ligados da decisão que Bowie tinha tomado com relação ao seu personagem. Pouco antes de Rock ‘n’ Roll Suicide, a música que encerra o disco que carrega o nome do personagem, eis que ele me solta: “De todos os shows desta turnê, este em particular vai ficar em nossos corações não por ser o último show da turnê, mas por ser o último show que faremos. Tchau. Amo vocês”.

A imprensa e os fãs piraram porque, afinal, era David Bowie anunciando a sua aposentadoria. Não, não era. Era, isso sim, David Bowie deixando seu personagem pra trás. E demitindo o restante da banda no processo, sem que eles sequer pudessem imaginar.

Neste mesmo dia, o diretor D. A. Pennebaker estava no Hammersmith com sua equipe de filmagem, rodando um documentário batizado apenas de Ziggy Stardust and the Spiders from Mars e lançado, em alguns territórios e depois na versão para vídeo, com um “The Motion Picture” no final. O documentarista, que estava planejado pra rodar um show com Marc Bolan (doce ironia, uma das inspirações do visual de Ziggy, ao lado do mestre do shock rock Alice Cooper), conhecia pouco da carreira de Bowie e tinha planos de, no máximo, rodar uns 20 minutos. Mas foi só ver uma apresentação desta turnê para entender o poderio teatral do camaleão, o quanto aquilo tudo daria cinema do bom. Foi um registro intenso, ainda que cheio de problemas técnicos, da despedida do messias que veio nos trazendo a sua palavra e acabou intoxicado com a nossa. O ET se tornou humano.

É como diz a música: “Making love with his ego, Ziggy sucked up into his mind. Like a leper messiah, when the kids had killed the man, I had to break up the band”.