CEO do Cinemark não tá preocupado com serviços de streaming, não. | JUDAO.com.br

Numa daquelas tradicionais conversas com acionistas, o poderoso chefão de uma das maiores exibidoras de cinema do planeta reafirma seu compromisso com o tempo de exibição entre uma plataforma e outra — e tenta passar a mensagem de que não tá preocupado com Netflix e afins. “O maior impacto do streaming foi no jeito de ver televisão”, diz.

Quando rolou toda aquela conversa sobre a democratização do cinema nas redes sociais, causada pelo tema da redação do ENEM, vi pelo menos uns três tweets que tinham um tom bem parecido: “o cinema começou a ficar mais democrático agora que eu consigo assinar um Netflix e ver filmes sem pagar uma fortuna de estacionamento e pipoca”. Tudo bem que tem aí uma OUTRA questão 100% brasileira sobre todo mundo poder ter acesso a um serviço de streaming decentemente, mas deu pra entender o ponto, né?

Um comentário destes só reforça, em teoria, o que seria uma “guerra” declarada do cinemão tradicional das salas físicas contra a sua contraparte digital, com medo de perder público, né? Pois bem. Esta semana, o Cinemark, que a gente conhece bem, um dos maiores circuitos exibidores do planeta (só aqui no Brasil eles representam 30% de todo o mercado e são maiores que os três principais concorrentes juntos, com mais de 600 salas em 17 estados), teve que fazer uma daquelas reuniões com acionistas/analistas, nas quais precisam reportar resultados para engravatados endinheirados, aquela história. E os homens da grana, apesar de satisfeitos com os números do último trimestre, estavam igualmente bastante dispostos a entender este novo cenário, com Netflix batendo na porta, se isso derrubaria os dividendos, se a empresa estava preparada pra entrada de um monte de outras gentes no cenário, Disney+, HBO Max...

E, bom, de acordo com informações sobre o conteúdo da conferência obtidas pelo Deadline, Mark Zoradi, ex-executivão da Disney e atual CEO do Cinemark, parece que a empresa não tá lá muito preocupada com esta turma do streaming aí. Quando começaram a pressionar o cara sobre as janelas — o período de tempo usual no mercado entre a estreia de um filme numa plataforma e sua chegada na próxima — e sobre a negociação em vão para se ter O Irlandês, de Martin Scorsese, nas salas da exibidora antes da estreia no Netflix, em 27 de novembro, ele não titubeou.

“O maior impacto que o streaming teve foi na forma em que se mudou o jeito de ver televisão dentro de casa”, afirmou Zoradi, reforçando que as visitas aos cinemas se mantiveram “relativamente consistentes” apesar dos bilhões gastos na produção de conteúdos originais em plataformas on-demand. “Isso remonta a algo que vimos há cerca de 25, 30 anos. Consumidores fanáticos de entretenimento e espectadores que vão aos cinemas são rigorosamente as mesmas pessoas”. E embora tenha MAIS UMA VEZ reafirmado seu compromisso com a questão das janelas (“não nos imagino abrindo uma exceção para filmes vindos do streaming”), foi bastante otimista: “Na verdade, somos encorajados pelo que está acontecendo em relação às plataformas de streaming, porque achamos que elas continuarão fornecendo conteúdo adicional e acho que haverá alguma polinização cruzada”.

A tal “polinização” a qual ele se refere, com cinema plantando sementes pro cinema e vice-versa, foi exemplificada pelo executivo com um exemplo meio velho, talvez: High School Musical, o filme arrasa-quarteirão do Disney Channel que depois foi parar nas telonas com suas continuações, coisa e tal.

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A gente só queria lembrar que, lá em 2015, quase CINCO ANOS ATRÁS, quando escrevemos o texto “O filme é meu e eu assisto onde e quando eu quiser!“, justamente sobre o começo desta discussão toda sobre novas e velhas plataformas, hábitos de consumir cinema mudando e afins, entrevistamos o João Gabriel, na época com seus 30 e poucos anos de idade. Um cara que foi rato de locadora, que começou a colecionar DVDs/Blu-rays, que tinha um acervo de mais de 350 títulos, que ia ao cinema pelo menos uma vez por semana. Só que aí...

“[Cinema] Só quando rola um daqueles blockbusters do momento, que valem o ingresso de uma sala IMAX”, explicou. Locadora é coisa do passado, já que ele assina serviços de streaming e, ao mesmo tempo, recorre ao Popcorn Time quando “não quer esperar tanto para ver aquele filme sobre o qual todo mundo está comentando”. Comprar DVDs? Só quando rola o saldão das Lojas Americanas, com títulos a R$ 12,90.

Tivemos este papo com o João há cinco anos — vocês acham que algo mudou? Pra trás, quero dizer? Ele voltou a comprar DVDs, tá indo cada vez mais ao cinema? Quantos Joãos existem por aí, que você conhece? E a minha filha, hoje com 16 anos, vocês não acham que é disso para AINDA MAIS?

Pois se de um lado o menino Cinemark faz cara de blasé e finge não dar muita bola pra turma do Netflix, do ooooooutro lado temos um Netflix igualmente cagando e andando pro Cinemark. “A internet foi ruim pras livrarias, foi dura pros jornais, horrível pras locadoras, mas ótima pros restaurantes”, afirmou o CEO da galera de streaming de Los Gatos, Reed Hastings, durante o evento de inovação Dealbook Conference, realizado esta semana pelo jornal New York Times. “Os cinemas são uma experiência para sair de casa, um passeio. Se os cinemas querem exibir os filmes do Netflix uma vez que eles estão no Netflix, apenas porque as pessoas querem ter esta experiência em grupo, isso é ótimo”.

Lembremos que esta é, aliás, um pouco da ideia do potencial novo produto do iQiyi, maior e mais reconhecido serviço de streaming da China: você aluga uma mini-sala de cinema, escolhe qualquer produto da biblioteca de streaming dos caras e assiste com seus amigos, tudo equipado com tecnologia de ponta e certificação de som THX.

E lembremos também que, ao contrário do que diz nosso amigo do Cinemark, o Netflix NÃO se enxerga como um canal de TV e está certíssimo. Pra eles, a concorrência não está na TV, nos outros serviços de streaming e tampouco nos cinemas. Conforme eles também deixaram claro numa comunicação para os seus acionistas: “nós competimos (e perdemos) mais para o Fortnite do que para a HBO”.

Aqui em casa, Netflix e Cartoon Network ambos perdem igualmente pro Brawl Stars, mas vocês entenderam o ponto. ;)

Pra tornar a equação ainda mais complexa, basta dar uma olhada nos resultados de Beyond the Big Three, um estudo conduzido pela MediaMorph, uma plataforma de gerenciamento de direitos autorais sobre conteúdos focada em transações TVOD, SVOD e AVOD, a respeito do futuro cenário no qual toda grande empresa de entretenimento do planeta (inclusive aquelas que são as grandes parceiras do Senhor Cinemark) pretende ter o seu próprio serviço personalizado de streaming. De todos os ouvidos via TV Time, o serviço online que hoje faz parte do mesmo grupo da MediaMorph, mais de 7.000 pessoas nos EUA, Canadá, Holanda e Austrália, mais de 70% afirmam estar confusos e achar que teremos streamers demais — num péssimo sentido — para se escolher daqui pra frente.

Menos da metade dos respondentes afirmaram ter qualquer intenção de adicionar mais um serviço de streaming ao que já assinam — e 67% dizem claramente que a necessidade de ter que escolher entre serviços é um saco e pode fazê-los até desistir de uma eventual troca. 58% deles, aliás, afirmam que uma das coisas mais chatas seria ter de criar e gerenciar diversas contas em diversas plataformas (pense que uma Apple TV da vida não vai ter mais o app do Netflix, por exemplo, já que a empresa da maçã TAMBÉM está lançando seu serviço de streaming).

Nesta pesquisa, no entanto, talvez justamente por trabalhar na tal “polinização cruzada” a qual o homem forte do Cinemark se referiu, quem tá se dando melhor é o Disney+, que 70% dos entrevistados dizem ser uma possibilidade forte de troca pelo que é atualmente o seu serviço de streaming oficial. O motivo? O catálogo mas também as séries que prometem conversar com os filmes da Marvel, de Star Wars, estas franquias todas aí.

Ah, estes anos que se aproximam prometem trazer MUITAS mudanças pra este papo — definitivamente, de um tamanho bastante diferente do papo “rádio x TV” do qual se lembra o nosso bom Zoradi...

E este papo de que a tal reunião de #Friends FINALMENTE deve acontecer, só que num especial pro serviço HBO Max? https://t.co/R79qmg2KqJ