Um bom elenco, uma ideia interessante... Mas Wasp Network não conseguiu fazer jus a nenhum dos dois. | JUDAO.com.br

Baseado no livro do jornalista brasileiro Fernando Morais, Wasp Network tem um problema bastante claro de edição e execução da história ao acrescentar informações demais que não ajudam na construção do ritmo.

Baseado no livro do jornalista brasileiro Fernando Morais intitulado Os Últimos Soldados da Guerra Fria, Wasp Network conta a história de cubanos dissidentes que saíram do país entre o final da década de 1980 e o início de 1990 para se instalar em Miami. O enredo segue René (Edgar Ramírez), um instrutor de vôo que pegou seu avião de trabalho e desertou para os EUA, deixando a esposa Olga (Penélope Cruz) e filha Irma (Osdeymi Pastrana Miranda) para trás. No mesmo período, o militar Juan Pablo (Wagner Moura) nada até Guantánamo para pedir asilo aos EUA. Em solo americano, os dois pilotos acabam se juntando à Fundação Nacional Cubano-Americana para acelerar o colapso do regime de Fidel Castro.

Olivier Assayas, diretor e roteirista de Wasp Network, que tem diversos dos seus filmes na programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, afirmou em coletiva de imprensa depois da exibição do filme que seu objetivo era contar apenas os fatos reais que envolvem essa história, deixando de lado qualquer reimaginação dos eventos. Usando um livro tão cheio de detalhes como base, Assayas teve um grande problema em simplificar um tema complexo e com tantas informações importantes em uma trama cativante e envolvente.

Ao se apegar com tanta firmeza aos fatos, Wasp Network não consegue entregar picos dramáticos significativos que nos mantenham entretidos na narrativa. São muitos personagens e eventos importantes e a narrativa simplesmente segue os acontecimentos exatamente como um livro de história faria. Quando o enredo pega um caminho mais próximo de um thriller de espionagem, o ritmo do filme não segue essa mesma linha e o resultado acaba sendo desigual.

Wasp Network tem um problema bastante claro de edição e execução da história ao acrescentar informações demais que não ajudam na construção do ritmo. Ao mostrar todas as mudanças que René passou nos EUA, o filme parece dar voltas desnecessárias para chegar no que realmente importa. É curioso ver a mudança na vida dos personagens ao longo de oito anos, mas é muito fácil se perder em quanto tempo realmente se passou desde o momento em que René entrou em um avião e fugiu.

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Intercalando entre diferentes personagens constantemente, a história se torna uma série de eventos aleatórios até o momento em que Assayas une os personagens sem uma construção adequada. O cineasta tem uma óbvia – e declarada – visão afastada dessa história e da realidade dos cubanos que fugiram (ou não) do seu país, prejudicando bastante a criação do elemento humano que é sempre fundamental em narrativas sobre países divididos por ideais políticos, o que é uma pena, porque o elenco de Wasp Network é incrível e entrega boas atuações com o que tem em mãos, apesar do material irregular.

Ainda durante a coletiva de imprensa, perguntei à Ramírez como foi fazer um filme sobre exilados sendo ele mesmo um exilado venezuelano e sua resposta foi mais interessante do que a construção do seu personagem. Apesar de René e o ator terem histórias e posições diferentes, Ramírez afirmou que parte do processo de atuação é se colocar no lugar do outro e ter empatia mesmo que, segundo ele mesmo, tenha sido doloroso estar nesse papel.

Infelizmente, Cruz não estava no Brasil para comentar sobre seu papel de uma mulher que foi deixada para trás com uma filha pequena em um país sofrendo um colapso econômico com o fim da União Soviética. Entre todos os personagens, Olga é a pessoa com quem podemos nos relacionar e simpatizar com mais facilidade pela situação em que se encontrou por culpa do marido. Parte dessa simpatia também está no fato do seu arco dramático ser bastante simples.

Assayas teve a rara oportunidade de filmar em Cuba, o que rendeu imagens panorâmicas lindíssimas do país e um tom mais crível ao material. Mas sem a construção adequada da tensão que uma história como essa merece ou um envolvimento emocional que nos aproxima dos personagens e de suas realidades, Wasp Network peca por uma falta de emoção que combine com o propósito do filme.

Pelo menos, me deu vontade de ler o livro.