DC Comics rompe com a Diamond em movimentação histórica | JUDAO.com.br

Mais do que o fim de uma era, o encerramento das relações entre uma das grandes do mercado americano de gibis e a maior distribuidora dos EUA é um momento que pode alterar para sempre uma dinâmica que a pandemia já estava forçando a mudar

“Vamos encontrar métodos alternativos de distribuição”. A resposta da DC Comics ao caos que se instaurou no mercado americano de quadrinhos, quando a editora teve que se justificar em comunicação oficial às lojas de quadrinhos, já dava um sinal de que, mais até do que a concorrente Marvel, a empresa não tinha ficado nada satisfeita com a distribuidora Diamond. Afinal, a gigante da distribuição, além de não estar entregando mais nada, também suspendeu os pagamentos aos seus fornecedores (AKA as editoras de HQs). Mexeu no bolso, então...

A gente explicou tudo aqui, mas cabe um resumo: nos EUA, diferente do que rola por aqui, quem dita as regras no mundinho dos comic books é o chamado “mercado direto”. Basicamente, onde os gibis são vendidos DE FATO é nas chamadas comic shops. Então, a Diamond, que vivia até o momento praticamente uma situação de monopólio, recebia as solicitações das lojas, que informam quais títulos querem vender, mandava pras editoras que, por sua vez, enviam, por meio da distribuidora, as publicações.

Mas veio o coronavírus, o isolamento social, as lojas foram forçadas a fechar as portas, as editoras pararam de imprimir gibis físicos... Aí, loja não paga distribuidora, que por sua vez, não paga editora. Equação simples. Junte a isso o fato de que os lojistas, claro, fazem uma boa pressão para que as editoras não privilegiem os lançamentos digitais e aí fica a dúvida, diretamente dos grandalhões do mercado editorial: “legal, então, querida Diamond. Se as lojas querem vender quadrinhos impressos mas não conseguem, que nova dinâmica para que todo mundo (incluindo A GENTE, grandes conglomerados) continue sendo pago vocês sugerem?”.

A solução, óbvio, não é simples. E aí a DC, que representa cerca de 30% (em números de 2019) do mercado da terra do Tio Sam, seguiu em frente e anunciou o encerramento da parceria de 25 anos com a Diamond. O mercado inteiro, claro, ficou chocado.

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“Reconhecemos que, para muitos de vocês, esta pode parecer uma decisão causada pelo atual momento”, afirmaram os representantes da DC em um e-mail enviado para os revendedores e ao qual o THR teve acesso. “No entanto, podemos garantir que esta mudança nos planos de distribuição da DC não foi simples e é resultado de um longo período de pensamento e consideração. Esta mudança de direção está em linha com a visão estratégica macro da DC, cujo objetivo é restabelecer a saúde e fortalecer o mercado direto, assim como ampliar o número de fãs que leem nossos gibis em todo o mundo”.

Eles ainda afirmam que, COINCIDENTEMENTE, calhou do contrato da DC com a Diamond ter expirado neste mesmo período. ¯\_(ヅ)_/¯

Claro que Steve Geppi, fundador e CEO da Diamond, não deixou de mandar a sua própria declaração para os revendedores, na qual explica que um acordo de renegociação estava sendo conversado com a a DC há meses, para que eles continuassem como parte de sua rede de distribuidores, agora múltipla. O papo foi, voltou, pediram uma extensão até o dia 30 de Junho, depois algo que durasse ao longo de Julho... e aí, em tese, silêncio total até o anúncio da última semana. “Embora a gente tivesse antecipado que isso podia acontecer, ficamos, como muitos na indústria, desapontados pela decisão abrupta”, diz ele. “Mas cada grande mudança também apresenta uma grande oportunidade. Somos uma empresa forte e nosso sucesso não depende das ações de apenas um parceiro de negócios”.

Basicamente, agora a DC vai contar com a estrutura da igualmente gigante Penguin Random House, uma das principais editoras em língua inglesa do mundo, para distribuir as graphic novels, encadernados, colecionáveis e afins. Já os gibis de linha, os mensais de sempre, serão divididos entre duas empresas recém-criadas, a Lunar Distribution (Costa Oeste) e a UCS Comic Distributors (Costa Leste). Na verdade, desde abril a Distinta Concorrência já vinha experimentando trabalhar com ambas, o que começou a gerar um cheirinho de desconfiança no ar.

Mas assim, na real, real MEEEEEESMO, as duas já tinham experiência trampando com a Diamond, já que ambas são clientes da distribuidora. Enquanto a DCBS, que está por trás da Lunar, é uma gigantesca empresa especializada em encomendas e envios de quadrinhos pelo correio, a UCS é uma iniciativa da imensa Midtown Comics, que tem três lojas em Manhattan e um site de comércio eletrônico. Tamos falando, sem exagero, da maior loja de quadrinhos dos Estados Unidos.

Olha só, por um lado, claro que é positivo demais evitar um monopólio — que é SEMPRE uma coisa ruim, não só para os negócios (em especial os pequenos, inevitavelmente esmagados) mas também para o consumidor. Nem vamos entrar aqui no papo Disney compra Fox mais uma vez, mas vejamos um exemplo LOCAL, também relacionado ao mercado editorial. Porque, CINCO ANOS atrás, estávamos nós falando aqui sobre a fusão de Dinap e Chinaglia, duas empresas de distribuição concorrentes que viraram uma só e estavam sob o controle da Editora Abril. Claro que Panini, Globo e demais concorrentes chiaram, afinal a nova empresa teria nas mãos 100% da distribuição para as bancas de todo o Brasil.

As coisas mudaram bastante de lá pra cá — a começar pelo fato de que a Abril, né, hoje tá longe de ser uma gigante como outrora. Mas se da mesma forma isso seria prejudicial para todo o mercado daqui, pensa lá fora, com uma única distribuidora sendo responsável pelos quadrinhos de Dark Horse Comics, IDW Publishing, Image Comics e ainda Marvel e DC. Tudo no mesmo pacote. Pensa que a Diamond podia decidir que era do jeito que ela queria e com o PREÇO que ela queria... ou então a lojinha ia ficar sem os medalhões todos.

Mas veja só, o ponto é que, apesar do fim de um monopólio, tem muita gente achando que a solução não vai ajudar muito. Porque a Diamond pode decidir não levar o restante de seus gibis pra Midtown Comics e DCBS, por exemplo. Afinal, eles agora são competidores diretos por controlarem seus próprios canais de distribuição e por terem roubado os produtos da DC... Mas tem ainda o outro lado: o quanto duas distribuidoras controladas por LOJAS de quadrinhos vão ser benevolentes com OUTRAS lojas de quadrinhos? Já tem gente reclamando, por exemplo, do aumento dos custos de distribuição e também dos baixíssimos descontos oferecidos.

“Eu não tenho um comentário respeitoso a fazer”, afirma Bret Parks, dono de três lojas Ssalefish Comics, em entrevista ao GamesRadar / Newsarama. “Não dá pra pensar em nada positivo vindo disso. Só quero que a DC vá embora ou então demitida seu time de vendas e comece tudo de novo”. Já J.C. Glindmyer, da Earthworld Comics, afirma que foi um verdadeiro soco no estômago que recebeu ao reabrir as portas pela primeira vez em dois meses. “Como a parte das lojas, vou pedir meus exemplares, o mínimo para as prateleiras, mas não vou mais investir recursos significativos em projetos futuros”. E Ryan Seymore, da Comic Town, tem a melhor frase de todas:

Eles estão lidando com isso como se o Capitão Gancho fosse um proctologista

No entanto, o Bleeding Cool acionou alguns contatos de bastidores e, segundo consta, talvez exista ooooooooutro motivo para a mudança — um motivo que tenha menos a ver com “a visão estratégica macro” e mais com dinheiro. Mas não do jeito que a gente especulou lá em cima, sobre a Diamond ter suspendido os pagamentos. O que rola é que Pamela Lifford, presidente da Warner Bros. Consumer Products, não seria a pessoa mais apaixonada do mundo pelos gibis mensais da DC. Eles seriam caros, dariam um trabalho editorial e de produção miserável e demandam prazos sempre apertadíssimos. E o que é pior: geram menos dinheiro do que geraram um dia.

Então, a ideia seria gastar menos dinheiro do que era na época da Diamond, cobrar mais dos revendedores e, enquanto isso, se preocupar REALMENTE é em expandir o mercado de graphic novels originais e começar a se focar cada vez mais no mercado de LIVRARIAS, aquele dos leitores “selecionados”, dos colecionadores, com um produto final mais caro e no qual a Penguin Random House tem experiência de sobra para ajudá-los a cobrir ainda mais. Para os mensais, que dão um trabalhão e demandam uma logística gigante de distribuição, ora essa, eles teriam o temido DIGITAL.

Se o caminho for este, UAU. É aí que a porca definitivamente vai torcer o rabo. Aguardemos.