Docinho da América: mais que um Road Movie, uma experiência | JUDAO.com.br

Um dos mais interessantes filmes de 2016 chega ao Brasil via Netflix e oferece uma série de elementos dignos da sua atenção, incluindo um Shia LaBeouf excelente

Docinho da América (American Honey) é o Road Movie definitivo. Não por ser o mais engraçado ou triste ou tecnicamente ESMERADO, mas por ser um daqueles filmes que transcendem o lugar-comum do cinema enquanto entretenimento, proporcionando uma verdadeira experiência de vida: visceral, reflexiva e REVERBERANTE.

O filme, já disponível no Netflix, foi dirigido por Andrea Arnold, vencedora do Oscar de melhor curta-metragem em 2005 por Wasp, e produzido de forma independente com um orçamento minúsculo — pros padrões gringos, claro — de cerca de 3,5 milhões de doletas. Ele conta a história duma garota de mais ou menos 18 anos que embarca numa louca jornada pelos EUA ao lado de um desconjuntado grupo de vendedores de revistas.

Seu nome é Star, e ela é interpretada com enorme energia e um toque preciso de insensatez PUERIL pela estreante Sasha Lane (descoberta pela diretora enquanto tomava sol durante o Spring Break). Encarregada de cuidar dos dois filhos dum bêbado que ocasionalmente a agarra, ela decide largar tudo depois de cruzar os olhos com Jake (Shia LaBeouf), o principal vendedor da tal equipe de vendas, em uma loja de conveniência. Recrutada por ele, a garota usa essa oportunidade para escapar da vida que levava até então.

Star é o tal “docinho da América” – uma jovem sem esperança cuja frustração é produto de um sonho de sucesso falido. Junto dela, o espectador passa a integrar um grupo de jovens que, um dia, foram como ela mas, confrontados com a realidade do país (e mais, da vida), resolveram se entregar a uma existência mais animalesca, imediatista e hedonista, dentro dessa segurança coletiva. Uma ALCATEIA HUMANA, digamos. :D

Entre eles rola de tudo: bebedeira, sexo, brigas, dança de roda na fogueira, roubos e, claro, venda de revistas. Anárquico? Sim, mas aparentemente racional quando você vai mais fundo no que é fazer parte duma equipe de venda de publicações impressas num mundo cada vez mais digital. Como bem ilustrou a Atlantic numa matéria de 2015, essa é talvez a única opção para jovens delinquentes sem maiores perspectivas de vida poderem trabalhar e, simultaneamente, se entorpecerem a ponto de não sofrer ainda mais com sua situação num EUA pós-crise.

Só que não é exatamente assim com Star. Por mais que sua história não seja das mais agradáveis, ela é ingênua, até mesmo inocente, e isso a faz inconsequente, provocando atritos com Jake e uma parte do grupo e colocando-a em situações de perigo real.

Além de funcionar como o Coelho Branco nessa história subvertida de Alice no País das Maravilhas, o personagem de LaBeouf é o contraponto perfeito a essa pureza de Star. Experiente, intenso e malicioso, Jake é a referência a ser seguida dentro do grupo de vendedores – o personagem que melhor resume o que é fazer parte de tudo aquilo, seja em seus momentos de alegria, diversão ou em seus inesperados rompantes de raiva.

“Para Docinho da América, Arnold nunca deu um roteiro a LaBeouf, apenas uma foto em preto e branco de uma floresta, para inspiração. Ele ganhava uma página de diálogo a cada manhã, antes de cada dia de gravação”, reportou a Variety num excelente perfil do ator, publicado em  2016. Nele, Shia revelou ainda ter feito laboratório com uma verdadeira equipe de vendas de revistas, organizada por membros dos Alcoólicos Anônimos. Mal sabia ele que o próprio processo de filmagem de Arnold já poderia ser considerado um laboratório.

Durante sete semanas, atores e equipe viajaram, gravando cenas em ordem cronológica e espelhando na realidade elementos do filme, como composição de quartos em hoteis de beira de estrada. “Nos unimos com força”, disse LaBeouf. O que fica claro nas 12 tatuagens que o ator fez ao longo das gravações, ao lado de outros atores, que incluem dois retratos da cantora Missy Elliot em cada joelho.

Toda essa entrega está explícita no filme, seja tanto por parte de todo o elenco secundário (predominantemente composto por ~não-atores escalados por Andrea em testes feitos em Wal-Marts e estacionamentos) quanto por parte de LaBeouf. Na primeira instância, torna-se incrível ver o quão diverso e, por que não, ESQUISITO é o grupo formado pelos vendedores. Com mais de 100 anos de história do cinema, ainda é raro vermos uma grande coleção de pessoas estranhas protagonizando um filme, sem aquela esperada polidez Hollywoodiana, o que só confere maior credibilidade à experiência da viagem do filme.

Já num segundo momento, temos LaBeouf entregando uma de suas melhores atuações na vida, depois de ir de alívio cômico da Disney a jovem ator promissor, passando por filho frustrado de Indiana Jones, protagonista de Transformers, piada batida de internet, plagiador alcoólatra até, enfim, atingir a fase em que reside agora: uma renascença mergulhada na produção independente e arte performática.

Entre iniciativas estranhas como #AllMyMovies e aquela parada do saco na cabeça, ele enfim parece ter encontrado seu lugar no cinema: como um confrontador de convenções. Um ator no sentido mais artístico da palavra, sem grandes vaidades ou medo de ousar.

Com tudo isso, Docinho da América extrapola a expectativa criada tanto por sua premissa quanto por seu formato narrativo, tornando irrelevante sua duração exagerada de mais de 2h30 de filme. Não é um filme-espetáculo, cheio de grandes conflitos e drama exagerado. É sutil, fugindo dos exageros narrativos em troca de uma história mais realista, crível.

Mas se você topar embarcar nessa jornada de amadurecimento e reflexão sobre a juventude num EUA (e, por que não, num mundo) pós-crise, perceberá que, embora pareça longa e tortuosa, a viagem pode ser mais curta e agradável do que você imagina.