Finalmente o AC/DC se rende ao poder do streaming | JUDAO.com.br

Lendária banda australiana libera simultaneamente seu catálogo no Spotify, Deezer, Rdio e no recém-lançado Apple Music. Mas… por que demorou tanto?

“Sim, AC/DC está agora no Spotify. Aumente para o volume 11!”, disse, em tweet pra lá de empolgado, o criador e CEO da plataforma, Daniel Ek.

Na real, ele não foi o único a celebrar. As redes sociais estavam em festa. E todos os demais serviços de música via streaming soltaram fogos, do Rdio ao Deezer, passando ainda pelo Apple Music, que iniciou atividades nesta terça (30) já com um reforço de peso.

“Um sinal de que a música via streaming entrou pra valer no mainstream: o AC/DC está a bordo”, declarou o jornal The New York Times.

Até o momento, a banda era considerada uma das grandes ausências do mercado fonográfico tradicional em sua versão digital.

Pudera: estamos falando de um grupo que, apenas nos EUA, de acordo com dados da RIAA (Recording Industry Association of America), vendeu sozinho mais de 72 milhões de discos.

Não é pouca coisa.

Eles já tinham demorado um tempão para se render ao passo anterior, a música via download: enquanto o Metallica, aquele mesmo que travou uma verdadeira (e vergonhosa) batalha contra o Napster, disponibilizou seu acervo para venda no iTunes em 2006, o AC/DC só arriscou este movimento no final do ano passado, ao liberar seu mais recente disco, Rock or Bust, para ser vendido digitalmente.

Considerando que, em 2008, o vocalista Brian Johnson afirmou para a Reuters que o iTunes era “um monstro” e que “matará o mundo da música se não tomarmos cuidado”, digamos que até que foi uma evolução, né? ;)

“Sempre fomos uma banda que, se você ouve no rádio, bom, vai ser algo de apenas três minutos. Geralmente, as melhores músicas estão no disco”, tentou justificar, em 2011, o guitarrista e ícone Angus Young, em papo com o The Guardian.

Basicamente, o que o músico quis dizer é que eles não gostavam de vender suas canções individualmente, com a premissa de “não impactar a experiência do ouvinte” mas que também pode se justificar tranquilamente como sendo algo na linha de “se as pessoas vão comprar só as músicas que querem, ao invés de um disco completo, o quanto de prejuízo teremos no final do dia?”).

A grande questão que fica é: por quê? Digo, por que agora, AC/DC?

Há quem afirme que eles entenderam o poder da música digital ao verem os resultados das vendas de Rock or Bust no iTunes. Seu disco anterior, Black Ice (2008), vendeu 784.000 cópias na primeira semana, sendo comercializado apenas via site oficial da banda e rede Walmart de supermercados. Eis que RoB, via iTunes, se tornou rapidamente um dos cinco discos mais vendidos na semana de estreia, com 172.000 “unidades” somente no formato digital. Um número bastante expressivo para uma plataforma que eles simplesmente ignoravam.

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E como este 30 de junho de 2015 também marcou o lançamento oficial do serviço de streaming da própria Apple, sua “parceira” com o iTunes, acabou sendo tudo um esforço coordenado e conjunto. Pode ser. É, pode ser.

A Newsweek aposta, por exemplo, que o contato com um monte de jovens bandas indies que estão há anos fazendo uso inteligente do poder da música digital no palco do Coachella, onde foram headliners este ano, pode ter ajudado a abrir a cabeça dos velhos dinossauros. É outra possibilidade.

Mas, além destes dois fatores, talvez uma terceira questão inclua uma renegociação poderosa dos royalties recebidos por stream. Considerando todas as variáveis (incluindo um percentual de popularidade que é, basicamente, a quantidade de streams de um artista sobre a quantidade de streams total de toda a plataforma), o Spotify, por exemplo, chega a uma média geral de pagamento entre US$ 0,006 e US$ 0,0084 por stream.

Sean Kinney, baterista do Alice in Chains, já afirmou publicamente, para quem quiser ouvir: “Vale lembrar que certos músicos revelaram publicamente os royalties recebidos pela transmissão de suas canções e, em certos casos, a sua música é tocada 10 milhões de vezes, entretanto, o valor recebido é de apenas 111 dólares”.

Será que, para valer a pena de verdade, o AC/DC não fechou um valor mais, digamos, adequado com todas as plataformas? Um valor único? Algo que estivesse mais de acordo com o seu tamanho e com o seu potencial de vendas e popularidade? Nenhum dos dois lados se manifestou a respeito até o momento. Mas já sabemos que poder de barganha, ah, isso eles têm... ;)

Artistas como Beatles (apenas a banda, não os músicos individualmente), Prince, Bob Seger, Taylor Swift (claro!), Thom Yorke (vocalista do Radiohead) e Garth Brooks ainda não estão disponíveis no Spotify – em sua grande maioria, por discordarem dos métodos e dos valores de remuneração por faixa que o Spotify pratica.

Brooks, um dos maiores astros country dos EUA, por exemplo, fez questão de lançar seu próprio serviço, o GhostTunes, para servir de casa para suas canções online.

É como dizem uns poetas lá da Austrália: Dirty Deeds Done Dirt Expensive. Só faltava acertar quanto.