Jordan Peele usa seus medos (e genialidade) pra fazer um monte de filmes em um | JUDAO.com.br

Pode ser só um survival horror. Mas pode ser muuuuito mais, se você quiser.

Nós é um filme de terror”.

Não sei se foi em resposta a perguntas de TRANSEUNTES que paravam o diretor, roteirista e produtor do filme, Jordan Peele, na rua e nas redes sociais, mas ao postar isso em seu twitter, Peele usou do mesmo expediente na época de Corra!. Na época, ele fez questão de avisar a todos que a produção se tratava de um documentário — e se você acha que Corra! não é um doc por qualquer razão, talvez você devesse ouvir mais as pessoas à sua volta, especialmente as não brancas.

Nós é mesmo um filme de terror, que surgiu do pavor que Jordan Peele tem de Doppelgängers — que, de acordo com a Wikipedia, “é um monstro ou ser fantástico que tem o dom de representar uma cópia idêntica de uma pessoa que ele escolhe ou que passa a acompanhar, o que hipoteticamente pode significar que cada pessoa tem o seu próprio”. Se quisermos ser mais específicos sobre o gênero, é o tipo survival: uma família se vê perseguida por outra (formada pelos tais doppelgängers) e precisa, bem, sobreviver. E é aquele monte de sangue, correria, gritos e olhos ESBUGALHADOS e assustados pra lá e pra cá — e, dessa maneira, podemos resumir Nós.

A questão é que essas duas famílias são formadas por Lupita Nyong’o, em seu primeiro papel de protagonista, a Adelaide; Winston Duke como o seu marido, Gabe (ele é M’Baku de Pantera Negra e Vingadores: Guerra Infinita, pra quem não ligou o nome à pessoa); e os INFANTES Shahadi Wright Joseph (Zora) e Evan Alex (Jason). E assim: você não faz um simples filme de terror se Lupita Nyong’o é sua protagonista. Você não faz um simples filme de terror se você é Jordan Peele.

E ele realmente não fez.

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“Fazer um filme que as pessoas queiram ver mais de uma vez (...) é o que eu considero a maneira mais divertida de contar uma história” disse Jordan Peele em entrevista ao podcast The Big Picture, explicando que é por isso que enche seus filmes de camadas, camadas, mais camadas, easter eggs e referências. “As pessoas assistem de novo e encontram mais e mais coisas”.

Pessoalmente, não gosto da ideia de que um filme tenha de ser assistido mais de uma vez pra ser compreendido. O emissor é sempre o responsável pela mensagem que transmite e “assiste de novo que você vai entender” num filme é uma cagada sem tamanho — chega até a ser desrespeitoso com quem assiste. Mas o que Jordan Peele fez com Nós e até mesmo Corra! (sim, vai ser impossível dissociar um do outro, ainda que não tenham uma ligação direta) é entregar diversos filmes em um.

Numa primeira vista, você pode ter assistido somente a um survival horror. Mas se você for ao cinema de novo, você pode encontrar diversos questionamentos políticos. Você pode perceber que o elenco principal é todo formado por pessoas não brancas, que o marido não é o que chama(va)m por aí de chefe de família; outra vez no Blu-ray e uma série de questões sobre estresse pós-traumático, como lidamos com o outro, como lidamos com o nosso igual, nossos demônios (que muitas vezes estão dentro das nossas cabeças). Bem, você pode até encontrar paralelos com Celeste, se você quiser — isso sem contar as referências e homenagens e coisinhas escondidas (uma muito legal acontece no parque de diversões, logo no começo. Presta atenção no que a mãe fala para a filha e esteja com seu livrinho de referências de filmes dos anos 80 aberto).

Numa dessas vistas você vai perceber também o que Lupita fez, tanto como a Adelaide como a Red — é pra realmente não pensar em outra coisa. É querer assistir aos trailers logo que sai do cinema, só pra ver mais e mais daquilo tudo que ela entrega, já pensar em comprar ingresso pra outra sessão e por aí vai. E ISSO FALANDO APENAS DA LUPITA, porque até mesmo as crianças tem atuações realmente muito boas, com destaque pras duas meninas.

Em Nós as dinâmicas são tão diferentes do que estamos acostumados a ver num filme que, mesmo que esteja num casamento falido, dá um alívio enorme ver a Elizabeth Moss “não sofrendo” pela primeira vez na vida, além de ser a atriz maravilhosa que ela é. :)

Nós é um filme denso. É diferente de pesado, porque há diversos momentos em que rir é a única opção e possibilidade. Na verdade, pensando agora, Nós pode ser até um filme leve dependendo do ponto de vista que você tiver olhando. Mas lembra aquela história sobre um filme nunca ser só um filme? Por mais que você não CAPTE um assunto numa primeira vez, na segunda vai conseguir e assim vai sentindo o filme te envolver mais e mais até ele te dominar completamente.

Claro, há toda a questão comercial que um filme ser assistido diversas vezes carrega. É ótimo pro estúdio alguma coisa assim. Mas se você assiste a um único filme mais de uma vez e tem diferentes experiências... Me parece trabalho de alguém que, NO MÍNIMO, sabe MUITO bem o que tá fazendo, não?

E Jordan Peele sabe.

E então que parece que NÃO vai mais ter Billie Eilish no #Lolla. Mas também parece que vai ter Billie Eilish no Brasil SIM, sozinha, em "locais grandes". https://t.co/dRXQ1s2KTW