Laboratório Fantasma: o nome da liberdade de Emicida | JUDAO.com.br

Como um coletivo que vendia camisetas e CDs na rua virou um titã da indústria musical nacional – e, ainda assim, preservou sua independência

É bem provável que uma galera mais ligada no cenário do rap nacional discorde, mas enquanto ouvinte ocasional do estilo, pra mim não resta dúvida: Emicida é, hoje, o maior rapper do Brasil – o cara que mais tem quebrado barreiras para, com rimas diretas, nervosas e impiedosas, levar a realidade da periferia aos espaços tão frequentemente negados à sua população.

Nascido na Zona Norte de São Paulo, Emicida tomou da saudosa MTV Brasil à rede do Plim Plim; mandou suas rimas para plateias lotadas em shows próprios, em festivais nacionais, e até na gringa, no Coachella; tomou até a passarela do São Paulo Fashion Week, com uma coleção de roupas com inspirações na cultura africana. E em todas essas situações, das menores às maiores, o fez de forma livre; independente. Tudo graças a um coletivo chamado Laboratório Fantasma.

O Lab, como quem é íntimo não hesita em chamar, teve início há quase 10 anos, em 2008. Foi quando Emicida, no auge de sua fama matadora nas batalhas de rap, lançou seu single Triunfo, acompanhado de um vídeo no YouTube que logo viralizaria. Reunindo-se com alguns amigos, entre eles o publicitário-que-virou-produtor-musical Felipe Vassão, o rapper criou um coletivo chamado Na Humilde Crew para venda de CDs e camisetas em eventos, no melhor estilo DIY.

Nessa brincadeira, quem também integrava o Na Humilde e ensaiava seus primeiros passos como artista era o irmão mais novo de Emicida: Evandro, o “Fióti”. Recentemente frustrado por não ter passado no vestibular da Universidade de São Paulo (USP) para o curso de música, o cara se viu tendo de mudar mais uma vez de planos conforme seu mano mais velho foi ganhando mais e mais destaque no cenário musical. Logo, veio uma decisão: largaria as pretensões artísticas para focar na administração do coletivo. Mais que isso, transformaria o negócio amador em PROFISSA.

Nascia oficialmente, em 2009, o Laboratório Fantasma. :D

“Quando a gente surgiu, não tinha nenhuma empresa que fizesse o que a gente faz no meio do hip hop, ou do funk, ou da música de periferia. Não tivemos um espelho nacional. É por isso que a gente vai arregaçando as mangas e fazendo”, ele explicou em 2015, durante conferência no Porto Musical, na cidade de Pernambuco. E, de fato, eles foram fazendo.

Já sob o selo do Lab e ainda em 2009, Emicida lançou sua primeira mixtape, Pra quem já Mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe.... Ela, estima a revista Quem, vendeu pelo menos 3 mil cópias na base do boca a boca, por preços entre R$ 2,00 e R$ 15,00 cada – esquema repetido para o restante da produção em massa do rapper no ano seguinte, os singles Besouro e Emicídio, o EP Sua Mina Ouve Meu Rep Tamém e a mixtape Emicídio.

PARALELAMENTE, a venda de camisetas artesanais seguia firme e forte como herança da época da Na Humilde Crew, mas foi logo dividindo espaço com a produção de videoclipes, eventos, turnês e, claro, mais mixtapes e EPs. Em 2012, o Lab deu as boas-vindas a mais um artista exclusivo de peso: Rael da Rima, investindo forte na carreira solo após 15 anos no grupo Pentágono. Mas ainda faltava um álbum para o matador de MCs sob o selo do coletivo.

Eis que, em 2013, vinha ao mundo o brilhante O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui. Mesclando influências da música negra norte-americana, ao funk brasileiro, à MPB e ao Samba – e, veja só, também (e muito) ao Rock ‘n’ Roll – Emicida fez mais que barulho com seu álbum de estreia, fez música de primeira linha e qualidade, como de costume, levando o Laboratório Fantasma para o mundo todo com faixas como Levanta e Anda, que pintou na trilha sonora de FIFA 15 e em estádios de diversos países.

No mesmo ano, o Laboratório Fantasma ainda deu à luz seu primeiro grande show, no festival Cidadania nas Ruas. Realizado no Parque do Ibirapuera, o selo levou ao palco gente no naipe de Caetano Veloso, Tom Zé, Baby do Brasil, Tulipa Ruiz, Marcia Castro, Rael, Ellen Oléria e Flora Matos. E Emicida, claro.

Foi mais ou menos nesse período do tempo, também, que o Laboratório Fantasma teve sacramentada sua posição em relação à internet, enquanto gravadora. Como já rolava com as músicas antigas do Emicida, tudo de O Glorioso Retorno foi disponibilizado gratuitamente on line. “A gente tem uma geração agora que conheceu seu artista favorito através de um link”, explicou Emicida, também no Porto Musical. “Não adianta colocar seus discos nas lojas digitais, se seu público não estiver 100% consumindo dentro delas”, emendou Fióti.

Essa preocupação com seu público original – a galera da periferia – e com o compromisso de atender e manter-se acessível a ele acima de tudo, foi também uma das diretrizes que mantiveram o Laboratório Fantasma, FISICAMENTE, onde começou, mesmo depois de toda sua ascensão no mercado nacional: no coração de Santana, não muito longe do Jardim Fontalis, onde cresceram Emicida e Fióti.

Mas isso é fisicamente. Porque logo o Lab estendeu suas influências para o exterior, trazendo, em 2014, artistas internacionais como o rapper português Valete e a artista de hip hop Akua Naru para shows em TERRA BRASILIS. Fora, é claro, a organização de mais um festival, o Ubuntu (do Zulu, “uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas”), com Boogarins, Féfé, Céu, Rael, a SUPRACITADA Akua Naru e, obviamente, Emicida.

Fióti e Emicida

No ano de 2015, aquele álbum que é para muitos o MAGNUM OPUS da carreira do rapper, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa..., veio ao mundo – fruto de um ambicioso projeto que viu Emicida deixar o Brasil para mergulhar na cultura de diferentes nações africanas de raiz lusófona, amadurecendo seu som e resultando numa aula de direitos humanos, política e geografia que, este que vos escreve humildemente acredita, deveria ser considerada ESCUTADA DIDÁTICA OBRIGATÓRIA nos colégios deste país.

O grande Chico César, ainda em 2015, também mergulhou no trabalho do Lab, que tornou-se responsável pela publicação de seu novo álbum de inéditas após 8 anos sem lançamentos, Estado de Poesia, entre projetos da cantora Juçara Marçal e vendas de mais shows internacionais.

No ano do golpe, 2016, o Laboratório Fantasma lançou o novo de inéditas de Rael, Coisas do Meu Imaginário, mas teve seu maior destaque, talvez, no resgate de um sonho há um bom tempo deixado de lado. Depois de anos sendo só um empresário, Evandro Fióti decidiu que era hora de dar uma segurada nos afazeres EMPREEDEDORÍSTICOS e trocar de lugar com o irmão mais velho. Lançou seu primeiro álbum, Gente Bonita, deixando de lado o rap para, veja só, mergulhar na MPB.

A faixa homônima ao título, aliás, foi composta junto de Emicida, na época em que Fióti havia dado de cara com as portas fechadas da USP e tinha sido forçado a virar funcionário dum McDonald’s. A vantagem em relação ao mano: como artista e empresário, Evandro responde a ele mesmo. “Decidi colocar tudo que eu queria, e o bom é que eu não precisava pedir aprovação para mim mesmo”, brincou, em entrevista concedida ao UOL.

Hoje já um titã da música nacional, o Laboratório Fantasma absorve cada vez mais talentos da cena do hip hop nacional. Seu site é muito mais loja virtual do que institucional, com roupas, CDs, bonés e tudo mais que possa imaginar vendidos diretamente por eles – o DIY do século XXI. Seus principais artistas alçam voos cada vez mais altos, dentro e fora do país.

Ainda assim, o foco dos caras segue no público da periferia, ao mesmo tempo que eles conseguem atingir a elite que empina nariz no SPFW. Os clipes, músicas e álbuns dos caras conseguem espaço em rádios, ao mesmo tempo em que gozam duma liberdade criativa inacreditável, que permite a existência de socos audiovisuais na barriga como Boa Esperança ou, porra, LETRAS assim, também. Em suma: os caras seguem independentes. Só que REALMENTE independentes. ;)

E tudo começou com CDs e camisetas artesanais vendidas a preço de banana na rua.
“Pode demorar cinco, dez, quinze, vinte anos pra você adquirir o sucesso e ter êxito no que você faz, mas quando você conseguir fazê-lo, da maneira que ele deve ser feito, vai ser gratificante pra você”, disse Fióti em 2015, falando sobre o sucesso do Lab ao blog Favela Potente. “Tudo tem uma estrada, um caminho, e o tempo é rei nesse momento. A hora que tiver que chegar pra você vai chegar”, completou.

Pelo visto, é mesmo como diz o poeta: levanta e anda!