Em Memory, pouco interessa como fizeram Alien, mas sim porquê | JUDAO.com.br

O mais mágico sobre aquelas obras que perduram no tempo é o fato delas ganharem novos significados para outros públicos com o passar dos anos, dando toda uma nova perspectiva à obra. É justamente o que acontece aqui com esse documentário sobre a produção de Alien – O Oitavo Passageiro

Geralmente, filmes clássicos e emblemáticos passam por um longo processo de análises e reinterpretações diferentes ao longo dos anos. Um desses filmes que podem ser considerados CLÁSSICOS é Alien, o Oitavo Passageiro, umas das melhores e mais importantes ficções científicas da história do cinema. Ao se aprofundar em uma visão mais aterrorizante dos alienígenas, o filme foi na contramão do que a indústria estava fazendo no período. Completando 40 anos em 2019, a obra-prima cinematográfica de Ridley Scott ganha um documentário contemplativo sobre a origem dessa história e todo o processo colaborativo para a construção do filme.

Escrito e dirigido pelo documentarista Alexandre O. Phillippe – responsável pelo fantástico 78/52, que destrincha a famosa cena do banheiro em Psicose -, Memory – As Origens de Alien faz uma deliciosa viagem aos primórdios dessa história começando pela curiosa mente do roteirista Dan O’Bannon. Falecido em 2009, os comentários sobre sua visão ficam a cargo de sua esposa Diane O’Bannon, que guardou todo e qualquer material envolvendo o filme, além de outras histórias criadas por ele.

Memory – As Origens de Alien nos revela uma história de origem mais ampliada e oferece uma quantidade considerável de materiais de arquivo que nunca foram vistos antes – desde notas originais da história que mostram a evolução do enredo, storyboards rejeitados, o fundamental trabalho do pintor surrealista H.R. Giger na criação do visual do Alien e filmagens exclusivas de bastidores. O próprio roteiro original de 29 páginas de O’Bannon intitulado Memory, escrito em 1971, ganha o devido destaque no documentário. É interessante ver como diversos conceitos originalmente criados para o primeiro filme foram reaproveitados por Scott nas produções seguintes.

Com uma estrutura de documentário convencional, a produção conta com entrevistas com membros da equipe e do elenco relembrando como determinadas cenas e conceitos foram criados. Mas esse não é um documentário simplesmente sobre criação, é um material que se foca na reflexão da obra e que discorre sobre diferentes argumentos da história. Essas análises diversificadas acrescentam outras camadas ao filme e me fizeram ver determinados personagens ou sub-enredos com uma visão mais ampliada.

Porque o mágico sobre obras que perduram no tempo é o fato delas ganharem novos significados para outros públicos e essa perspectiva dar uma nova vida ao filme.

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Mas o documentário também abre espaço para uma direção mais imaginativa de Phillippe, que abraça bastante do visual e da essência do filme que analisa ao desenvolver um design e uma cinematografia que automaticamente nos remete ao filme de 1979. Pode parecer uma escolha óbvia, mas fez toda diferença para sempre manter o espectador imerso no que está sendo contado.

O que torna Memory – As Origens de Alien um documento tão fascinante é conhecermos os motivos que levaram os criadores e a produção a fazer determinadas escolhas. Aqui, não interessa COMO eles fizeram, mas sim o motivo. Indo além do próprio Alien, o Oitavo Passageiro, o filme analisa de onde vieram todas as influências das artes e da literatura, da religião e das diversas mitologias, como a egípcia e grega, mas, principalmente do poder do mito e os nossos medos e sonhos compartilhados no nosso inconsciente coletivo.

Toda essa construção se encaminha para uma exploração profunda da memorável cena da mesa do jantar, quando o bebê xenomorfo explode de dentro do peito de Kane (John Hurt) e a tripulação conhece seu inimigo. Como um bom documentarista, Phillippe construiu a narrativa para esse momento, que faz parte da nossa memória coletiva cinematográfica e definiu seu gênero, modificando a forma como o cinema via o espaço e os alienígenas.

Nada foi o mesmo depois de Alien, o Oitavo Passageiro e o cinema – e nós – agradecemos.