Narcos: tráfico de elite | JUDAO.com.br

Com José Padilha e Wagner Moura juntos mais uma vez, série sobre o império de drogas erguido por Pablo Escobar toma emprestado vários elementos de Tropa de Elite 1 e 2. Infelizmente, não os que deveria.

Dizer que Pablo Escobar foi, pro mundo, o que Fernandinho Beira-Mar foi pro Brasil, é como querer comparar Jurassic Park a Jurassic World. Mas pra quem, como eu, não viveu o boom da cocaína, entre os anos 70 e 80, é o mais perto possível que se chega de materializar o poder, a influência e a crueldade do narcotraficante.

Principal cabeça do Cartel de Medellin — rede organizada criminosa responsável por, virtualmente, toda operação de tráfico de cocaína na Colômbia, Bolívia, Peru, Honduras, EUA, Canadá e parte da Europa (em seu auge, o cartel fazia quase meio BILHÃO de dólares POR SEMANA, fornecendo estimados 80% da cocaína do mundo todo) — Escobar foi um dos homens-chave na entrada da droga nos EUA, em meados dos anos 70. Empresário brilhante e criminoso implacável, estruturou um esquema grandioso de produção e envio, tratando de qualquer problema na base da plata o plomo e tornando-se, em menos de 10 anos, o sétimo homem mais rico do mundo segundo a Forbes, no anos 80 (e tem quem diga que, na real, ele era o SEGUNDO).

Temido, Escobar era conhecido por matar todos que se opunham a ele, chegando a dar cabo de desafetos e associados, em pessoa. Popeye, matador e braço direito do traficante, solto ano passado depois de 22 vendo o sol nascer quadrado, deu cabo de 250 pessoas a mando do traficante, além de ter mandado executar outras TRÊS MIL.

Ao mesmo tempo em que encabeçava tudo isso, Pablo era um homem de família, pai amoroso e um inflamado populista, que investiu anos e milhões de dólares na construção de uma imagem de Robin Hood moderno e sonhava com a presidência da república. Idealista e egomaníaco, até a morte de Escobar foi grandiosa, digna dos mais destemidos foras-da-lei do FAROESTE: em conflito armado com as forças policiais que o perseguiam, alvejado de balas e com um ferimento fatal na têmpora que levantou a possibilidade até hoje não derrubada de suicídio.

Um daqueles exemplos reais de quando um mito extrapola em muito a barreira da vida real, a história de Pablo Escobar, como não poderia deixar de ser, inspirou diversos filmes, séries, documentários e livros, todos atrás do retrato mais fiel desse que é considerado o maior traficante de todos os tempos. E Narcos é a mais nova produção a se arriscar nessa missão — contando, ainda, com o toque brasileiro de José Padilha e Wagner Moura.

Juntos AGAIN

Moura e Padilha: juntos AGAIN.

Se eu fosse tentar resumir o que vi nos três primeiros episódios de Narcos no mínimo de palavras possíveis, classificaria a série como “Tropa de Elite, na Colômbia”. Isso porque, muito mais que em Robocop, nesta segunda aventura internacional de Padilha, a assinatura do diretor está presente em diversos elementos, indo desde o trabalho de câmera e a fotografia (novamente na mão de Lula Carvalho, parceiro de Padilha em Tropa 1 e 2), passando pela narração de Boyd Holbrook — usando sua melhor voz de “policial mau” estilo Capitão Nascimento — e trilha sonora tensa de Pedro Bromfman, até chegar, claro, ao sempre brilhante Wagner Moura, no papel de Escobar. Rola até interrogação na base do “saco”.

Nesse início, não há nada de revolucionário e a trama não vai muito além do esperado de uma série sobre Pablo Escobar. Ela foca nas investigações conduzidas pelos oficiais do DEA Steve Murphy (Holbrook), o protagonista, e Javier Peña (Pedro Pascal, o Oberyn de Game of Thrones) para desmantelar as articulações do Cartel e, principalmente, de Escobar, que contra-ataca e tenta manter-se firme em meio à iminente guerra de cartéis.

O problema é que tramas assim são muito batidas, exigindo um ar de novidade, algo que demora pra acontecer. Além disso, seu recorte narrativo, por mais que tente se manter fiel aos fatos e lance mão de registros históricos pra deixar tudo mais real, ignora alguns detalhes incômodos pro público americano, como o comprovado envolvimento de seus conterrâneos, canadenses e europeus nas forças contrabandistas de Escobar — reduzido à uma centena de viagens de um associado colombiano e diversas ~barrigas de aluguel de... advinha? Sim, também de colombianas.

Talvez por isso, o primeiro episódio seja tão difícil de aguentar. Tão acelerado quanto raso, ele tenta condensar as circunstâncias que ocasionaram o salto de Pablo de um mero contrabandista de televisores e aparelhos de VHS a um SENHOR DAS DROGAS, englobando aí a repressão de Pinochet ao tráfico, no período ditatorial do Chile, o crescimento da cocaína na Colômbia, sua entrada nos EUA e a expansão do império do traficante, enquanto ainda estabelece o protagonista e suas relações principais, incluindo o casamento.

Pra isso, Narcos abusa tanto do voiceover de Holbrook que soa tão brega e monótono quanto uma história recente do Frank Miller. Omitir fatos importantes acontecidos durante o processo, como o envolvimento de Frank Sinatra (ou, ao menos, da máfia dos EUA) na distribuição da droga nos EUA, denunciado pelo próprio filho de Escobar, só ajuda a sensação de pasteurização inicial.

Pedro Pascal e Boyd Holbrook

Pedro Pascal e Boyd Holbrook

Tudo isso melhora no segundo episódio, quando Narcos define seu foco nas atividades de Escobar dentro da Colômbia, admite ignorar, ao menos inicialmente, o cenário interno dos EUA, e se estabelece com um estudo de personagem sobre Pablo Escobar.

Com mais tempo de tela do que no episódio anterior (em que tem uma introdução do caralho, mas não muito mais pra brincar) Wagner Moura mostra porque é o melhor ator brasileiro da atualidade. Gordo e bigodudo, ele parece tão à vontade quanto de farda preta, mesmo tendo de se concentrar na melhor pronúncia possível dum espanhol malemolente que, de vez em quando, escorrega pro carioquês-baianês (Wagner é baiano, mas Globo, né? ¯\_(ツ)_/¯) o ator logo desaparece na pele do carismático, meticuloso e ganancioso traficante. Mais uma vez, Moura rouba a cena (né, Matt Damon?).

É sensacional ver que, diferente do que acontece em Sense8, Narcos não tem medo de ter cenas e mais cenas em espanhol, deixando o inglês de lado em muitos momentos e obrigando o público norte-americano a engolir legendinhas marotas. O realismo que isso confere é inigualável.

Lá pelo terceiro episódio, Narcos consegue cativar. Finalmente, a dinâmica gato e rato típica de tramas policiais fica clara, e Murphy e Peña são colocados contra Escobar numa disposição que, sim, sabemos como acabará, mas que te faz querer acompanhar, em tempo real, a história sendo feita.

Só é uma pena que, a não ser que os outros 7 episódios dessa primeira temporada desenvolvam melhor o estudo de causa e efeito da pulverização da cocaína no mundo, Narcos reduza sua crônica do poder e corrupção a uma mera análise ilustrada do já saturado mito de Pablo Escobar, ao invés de ir mais fundo no problema da droga, sem medo de apontar culpados e problemas que já não sejam de conhecimento comum.

Narcos é um bom entretenimento e, passados os dois primeiros episódios, funciona. Mas é impossível fugir da sensação de que algo realmente marcante poderia ser feito se ela ousasse ser um pouco mais do que só o retrato de um homem violento, levado ao extremo da natureza humana por suas escolhas e seu orgulho, e decidisse realmente apontar o problema estrutural responsável por isso, doesse a quem doesse.

Poderia ser menos Tropa de Elite, o primeiro. E mais Tropa de Elite 2.

Vamos ver.