Nova trilogia de Philip Pullman chega no momento em que a gente mais precisa | JUDAO.com.br

Autor britânico anuncia lançamento de nova saga, ambientada no mesmo mundo de Fronteiras do Universo, mas focada na metáfora das partículas do Pó, a substância que a Igreja quer destruir

“No centro da trama está a luta entre uma organização despótica e totalitária, que quer sufocar qualquer tipo de investigação a seu respeito, e aqueles que acreditam que o pensamento e a expressão devem ser livres”. Essa é a descrição de uma nova trilogia de livros de fantasia, que começa a ser lançada oficialmente em outubro deste ano e que, pelo atual momento do mundo, já se torna automaticamente muito aguardada sem nem saber quem diabos escreve. Mas quando a gente te conta que esta é, na verdade, a sinopse básica de The Book of Dust, nova série literária escrita pelo genial inglês Philip Pullman, o adjetivo passa de “aguardada” para “necessária”. MUITO, aliás.

Depois de anos de especulação, finalmente Pullman (eleito pelo jornal The Times como um dos 50 mais importantes escritores britânicos) anuncia novas obras dentro da ambientação que ele criou na trilogia Fronteiras do Universo – em inglês, His Dark Materials – lançada a partir de 1995 e composta pelos livros A Bússola Dourada (ou “de Ouro”, conforme ficou inexplicavelmente depois da tradução em português do título do filme), A Faca Sutil e A Luneta Âmbar. Lançada em mais de 40 línguas diferentes, a trilogia vendeu mais de 17 milhões de cópias em todo o mundo.

E sim, vamos logo escancarar as coisas aqui: o primeiro livro virou um filme. Aquele com o urso polar de armadura, com a Nicole Kidman, a Eva Green e o Daniel Craig. Uma superprodução da mesma New Line Cinema de O Senhor dos Anéis, um dos filmes mais caros de sua história e que foi um verdadeiro fracasso de bilheteria, em especial nos EUA. Também, pudera: com medo da pressão dos grupos conservadores, mexeram tanto no diacho do roteiro que ele acabou perdendo força justamente onde a história original era mais forte. No caso, o lado mais crítico sobre a religião.

Portanto, daqui até o final deste texto, sugiro que você esqueça que este filme existiu, ok? Pense apenas que a trilogia completa vai virar uma série de TV, já confirmada, pelas mãos da BBC e das produtoras Julie Gardner & Jane Tranter, ambas conhecidas por seu trabalho em Doctor Who. E já tá mais do que bom.

A David Fickling Books, que vai publicar os novos três livros em território inglês juntamente com a Penguin Random House, deixa claro que os leitores podem ficar tranquilos sobre o intervalo de lançamento entre eles, já que pelo menos os dois primeiros já estão escritos e Pullman trabalha no terceiro neste exato momento. “Algumas das melhores pessoas para nos falar certas verdades sobre nossos tempos são os nossos maiores contadores de histórias. E Philip é um deles”, diz David Fickling em pessoa, em comunicado oficial.

Ainda sem título, o primeiro livro da trilogia chega às lojas britânicas no dia 19 de Outubro e o próprio autor já revelou que veremos a heroína Lyra Belacqua dar as caras pelo menos nos dois volumes iniciais. No livro 1, ela será um bebê, uma década antes da história original. Já no segundo, a menina será retratada como uma adulta, 20 anos de idade, exatamente dez anos depois dos eventos de A Luneta Âmbar.

Em entrevista ao jornal The Guardian, Pullman conta que o primeiro livro vai desvendar os segredos de como Lyra foi parar dentro da Universidade Jordan, em Oxford, onde foi criada por catedráticos. “Pensando sobre isso, descobri uma história que começa quando ela era bebê e termina quando ela se torna adulta”. Porém, ele faz questão de enfatizar que não se trata de uma sequência e nem de uma prequência. Mas sim apenas de uma “ência”. MAS HEIN!? “Não é algo que se passa nem antes e nem depois da trama de Fronteiras do Universo, mas junto com ela. É uma história diferente, mas os leitores dos livros originais vão reconhecer a ambientação e alguns personagens que eles já viram antes”.

Portanto, pode ser que Lyra não seja, na verdade, a protagonista desta nova história, mas apenas uma espécie de coadjuvante de luxo de uma OUTRA história rodando em paralelo.

Para quem não conhece, Fronteiras do Universo usa e abusa do conceito de universos paralelos, misturando fantasia com ficção científica. Na realidade de Lyra, que mistura magia, ciência e teologia, os humanos têm sua alma encarnada em um animal, o Daemon (e não “dimon”, como C E R T A distribuidora de cinema tentou traduzir nas legendas do filme), que sempre lhes acompanha de perto. Dependendo da personalidade da pessoa, o Daemon assume uma forma diferente: cachorro, lobo, macaco, serpente... Se o Daemon morre, a pessoa também bate as botas.

Além disso, a Igreja Católica não passou pela Revolução Protestante e mantém um imenso poder, quase ditatorial, com diversas características da Inquisição. Aos poucos, na verdade, ela se tornou um imenso império chamado Magisterium, que domina com mão de ferro todas as instituições de ensino do planeta e que, vejam vocês, controla tudo que é ensinado.

A pequena órfã Lyra brinca com os filhos dos criados, escala os telhados da universidade e não tá nem aí pra educação que a galera quer lhe enfiar goela abaixo. Mas quando um monte de crianças começam a ser sequestradas por uma mulher acompanhada de um macaco dourado, Lyra se envolve numa aventura para encontrar um grande amigo desaparecido e desvendar os segredos da trama... que passa diretamente por uma substância chamada Pó. Justamente por isso é que a nova trilogia se chama The Book of Dust.

“Conforme eu escrevia aos livros, aos poucos a ideia do que era o Pó foi ficando mais e mais clara, mas eu sempre quis voltar a isso e descobrir ainda mais”, explicou Pullman, num papo com o programa Today, da BBC Radio 4. Basicamente, o Pó é uma substância misteriosa que vem dos céus e que, de alguma forma, tem relação com a transformação das crianças em adolescentes, no momento em que os Daemons param de mudar de forma o tempo todo e, enfim, assumem sua imagem definitiva. Imagine, portanto, que a Igreja/Magisterium a associa diretamente ao pecado original e resolve que quer eliminá-lo para sempre.

Embora em certo momento da trama original o autor crie uma relação da tal substância com a chamada matéria escura, conceito astrofísico que batiza um tipo de matéria que não conseguimos ver a olho nu, o escritor prefere relacionar o Pó à metáfora de tentação inspirada no clássico Paraíso Perdido, do poeta John Milton, que descreve a queda de Lúcifer ao Inferno e sua tentativa de corromper Adão e Eva. Ou quem sabe fazê-los enxergar a verdade? “O Pó é uma analogia da consciência – que é uma propriedade extraordinária que nós, seres humanos, possuímos”, diz.

Se Milton foi sua inspiração imediata nos três primeiros livros, para os volumes que vão compôr The Book of Dust ele prefere se focar em outro autor de ideias igualmente contestadoras: o poeta e pintor inglês William Blake, que sempre deixou claro o quanto achava que a Igreja explorava os mais fracos. “Estou trabalhando com o conceito de que se costuma reduzir demais o jeito que enxergamos as coisas: é tudo certo ou errado, preto ou branco. Ele dizia que isso é limitador demais, que deveríamos trazer visões verdadeiramente mais humanas para o jeito que vemos o mundo, envolvendo tudo ao nosso redor com uma penumbra de imaginação, memórias, esperanças expectativas e até medos, por que não?”.

E Pullman ainda completa: “é um ataque ao reducionismo, aquele reducionismo impiedoso das doutrinas que têm apenas uma única resposta para tudo”.

Deu pra sacar por que a gente realmente NECESSITA de uma nova trilogia de Philip Pullman? ;)