Novo disco de Ariana Grande é pop maduro, estiloso e com muita personalidade | JUDAO.com.br

Em novo disco, cantora não se rende à tentação fácil da pista de dança e chega a fazer uma coleção de canções tão pessoais quanto intimistas — do jeito dela, claro. E tudo bem com isso.

Quando falamos aqui sobre o ótimo disco da Alice Merton, discutimos um pouco da imagem imediata que se monta na sua cabeça (e, sejamos honestos, nas nossas também) quando mencionamos a expressão “cantora pop”. Mas ainda que o primeiro disco da Alice e o quinto e recém-lançado thank u, next da Ariana Grande não se pareçam em nada em termos sonoros, pelo menos algo eles têm em comum: ambos estão curiosamente longe do estereótipo clássico da “diva pop”.

No caso da Ariana, é até ainda mais surpreendente porque a escola dela foi mesmo a deste pop mais hard, de uma Britney Spears da vida, por exemplo. Superprodução, tons vibrantes, muita luz, muita cor, trilha sonora de pista de dança, aquela coisa toda. Para alguém que veio da escola das séries adolescentes, esperava-se que a jovem seguisse este caminho. No entanto, da mesma forma que Miley Cyrus encontrou a própria personalidade e se tornou a persona que queria e não a que devia, thank u, next é uma espécie de ponto de virada para Ariana.

Estamos falando de uma produção que é muito, digamos, menor do que se esperaria. É um disco mais sintético, mais autocentrado, menos explosivo, menos festivo, até. É o primeiro no qual a cantora compôs todas as faixas, do início ao fim, ainda que em parceria com outros compositores. E nada de participações especiais para apimentar a ~festa. O álbum é dela, só dela, de mais ninguém. É pop com assinatura clara e específica, um pop bem pessoal e até meio introspectivo, MUITO diferente de sweetener, do ano passado. Dá pra dançar, é claro. Mas batendo o pézinho de leve. Porque se você presta real oficial atenção na letra, fica... GENTE.

Em Novembro, respondendo a um tweet de um fã, Miss Grande até confirmou que o disco, apesar de não ser conceitual, girava em torno de um mesmo tema, um período meio sombrio de sua vida. “A coisa toda acontece ao longo do que foram praticamente as três piores semanas da minha vida”, explicou ela. “Nós trouxemos a maior quantidade de luz para estes assuntos quanto foi possível”.

“Muitas das canções soam muito otimistas, mas na verdade é um capítulo super triste”, afirmou em uma entrevista pra Billboard, dizendo que o disco não é exatamente muito particularmente inspirador. Pouco depois, em um Story no Instagram, ela disse ainda que muito deste álbum lamenta relacionamentos fracassados, mas importantes, na vida dela. “Assim como celebra o crescimento / exploração de novas formas de independência”.

Percebe-se, Ariana. Percebe-se. Ambas as coisas, aliás.

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O disco abre com imagine, faixa doce, delicada, um eletrônico sem muitas firulas e bem mais lento do que se esperaria, na qual o principal protagonista é mesmo a voz de Ariana — e com uma letra vulnerável, sobre um amor difícil de atingir, uma espécie de antagonista perfeita do single que dá nome ao disco, com sua pegada mais intensa, empoderadora, sobre o crescimento que se segue à uma separação. needy também tem um pouco desta carga de insegurança, que só começa a se dissipar na deliciosa NASA, que usa o nome da agência espacial pra dizer claramente “You know I’m a star; space, I’ma need space”. Ou seja, me deixa ser eu mesmo, DISGRAÇA.

É a partir desta terceira faixa que o álbum passa a ganhar mais força, Ariana se solta nos palavrões e se apoia mais nas sutis (e, em alguns casos, nada sutis, dá pra dizer) referências hip-hop que se espalham aqui e ali. A batida cavalgada e ao mesmo tempo beeeem sexy de bad idea, sobre um cara que está prestes a ser usado e abusado, traz à mente uma coreografia de dança de rua cheia de balanço, por exemplo. E, não dá pra mentir, ela chega inclusive a quase encarnar a Beyoncé em in my head.

Mas tem espaço para a inevitável balada? Ah, claaaaaaaaaaro, mas sempre tem. E ainda que não seja a coisa mais genial do mundo, ghostin, sobre estar com alguém mas gostar na verdade de outro alguém, é a prova clara do quão boa cantora esta Ariana Grande é, com uma voz limpa e cristalina que, salvo algumas exceções, evita aqueles malabarismos gritados dos aspirantes a Whitney Houston.

É nas três últimas canções, no entanto, que ela se solta — e se ela toma conta de vez da própria narrativa romântica em break up with your girlfriend, i’m bored, é com a ótima 7 rings que ela não tem medo de trazer uns versos de My Favorite Things, do filme A Noviça Rebelde, misturando tudo com umas passagens de Gimme The Loot, do The Notorious B.I.G., para falar de joias. E grana. E pura ostentação. Porque ela REALMENTE não deve nada pra ninguém.

Vale destaque ainda para bloodline, cuja letra sobre uma “amizade com benefícios” acaba sendo adornada por um teclado quase brega, no melhor sentido da palavra, daquele que tem um quê maravilhoso de forró eletrônico.

Num disco que é um verdadeiro processo de cura emocional, uma terapia (ouça fake smile e perceba a satisfação com que ela diz “I can’t fake another smile / I can’t fake like I’m alright”) e que claramente tem sabor de descoberta, thank u, next mostra uma Ariana Grande explorando de novas formas quem ela é como artista e explorando o controle que tem da própria carreira e de suas próprias escolhas criativas.

Em sua resenha do disco, os coleguinhas do Pitchfork dizem que se trata de um álbum imperfeito, mas funciona como um perfeito novo capítulo para a jornada artística da cantora. Concordo com a segunda parte, mas discordo da primeira: thank u, next é perfeito enquanto cumpre o seu papel de abrir novas portas para ela, que é um passo fundamental. E, para nós, enquanto ouvintes, é uma deliciosa promessa.

Pra mim, é isso. ;)

E então que parece que NÃO vai mais ter Billie Eilish no #Lolla. Mas também parece que vai ter Billie Eilish no Brasil SIM, sozinha, em "locais grandes". https://t.co/dRXQ1s2KTW