O grande trunfo da nova cronologia X da Marvel | JUDAO.com.br

Grande protagonista da dobradinha House of X / Powers of X, a geneticista e especialista em assuntos mutantes que outrora foi apenas um par romântico de Charles Xavier ganha uma nova e maravilhosa roupagem nas mãos de Jonathan Hickman

Dentro do trabalho brilhante do roteirista Jonathan Hickman na total e completa reformulação do status quo dos mutantes no Universo Marvel nos quadrinhos, dá pra mencionar alguns importantes destaques. A posição gepolítica que ele desenvolveu para Xavier e seus comandados, entre heróis de diversos grupos e antagonistas, dentro da nação soberana de Krakoa (aquela mesma que tem C E R T O S países como inimigos políticos); a estratégia complexa criada para trazer os mutantes de volta da morte; a olhar diferenciado sob o qual os mutantes não são mais o PINÁCULO da evolução humana, mas sim apenas MAIS UMA evolução que pode muito bem superada no futuro.

Teve até gente vidrada na possibilidade, ainda não confirmada mas com uma pista clara no final das séries House of X e Powers of X e no começo do novo gibi dos X-Men, sobre Ciclope, Jean Grey e Wolverine formarem um trisal dentro da casa comunal dos Summers...e que possivelmente contaria também com a participação da Rainha Branca.

Mas se tem algo sobre o qual tem pouca gente falando e que, pra mim, talvez esteja dentre os maiores toques geniais do roteirista nesta reinvenção X é a mudança radical do papel de ninguém menos do que Moira MacTaggert (cujo sobrenome também já foi escrito “MacTaggart”, com “Mc”, enfim). Uma das mentes mais brilhantes da cronologia corrente da Casa das Ideias, a cientista escocesa é uma geneticista premiada com o Nobel por seus estudos sobre mutações genéticas. Mas o grande ponto é que seu colega de pós-graduação na Oxford University e que, mais tarde, se tornaria inclusive seu namorado / noivo, acabou tomando toda a atenção e colocando-a sob uma sombra desnecessária. Afinal, é foda ser o tempo todo comparada com o Professor Charles Xavier, não é mesmo?

Moira, durante muito tempo, foi apenas uma coadjuvante de luxo. Mas Hickman teve a manha de revelar não apenas que ela não era humana como se pensava, mas sim tão mutante quanto o próprio Charles e seu parça, Erik “Magnus” Lehnsherr (ou Max Eisenhardt, como queira), mas também que ela tinha um poder incrível que acabou se tornando o pináculo de todo o plano máximo do professor X para abandonar a postura pacifista de “nós vivendo em paz com eles” para se tornar “a gente vai viver em paz aqui no nosso canto e não venham se meter com a gente, tá beleza?”.

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Criação de Chris Claremont e Dave Cockrum surgida originalmente em Uncanny X-Men #96 (1975), a personagem nascida Moira Kinross conheceu Xavier na faculdade e rapidamente os dois se envolveram — mas acabaram se separando quando a moça voltou ao seu país de origem. Lá, se casou com o político Joseph MacTaggert, um antigo amor da adolescência, mas a relação acabou se provando bastante abusiva. No fim, acabaram se separando depois que o camarada, descontrolado, a agrediu a ponto de deixá-la uma semana em coma. Grávida, manteve o filho em segredo e inclusive preferiu dizer ao mundo que era viúva ao invés de alguém que lutava pela separação de um homem que não queria largá-la de jeito nenhum.

Seu filho, Kevin, acabou nascendo mutante — mais tarde conhecido pela alcunha de Proteus, um adversário notável para os X-Men graças aos seus poderes de alteração da realidade e possessão, que combinam perfeitamente (?) com seu quadro de psicose severa. Ao longo de grande parte de sua vida, Proteus foi mantido em completa reclusão no Centro de Pesquisas Mutantes que Moira fundou na Ilha Muir, que fica na costa da Escócia. Mas além disso, ela foi uma espécie de “parceira secreta” de Charles na fundação dos X-Men. Além de ajudar na fundação da escola, também foi cocriadora do Cérebro, o aparelho de detecção de mutantes, e até auxiliou a recrutar Jean Grey.

Amiga pessoal do mutante irlandês Banshee, Moira chegou a adotar uma garota, Rahne Sinclair, que mais tarde se tornaria a integrante dos Novos Mutantes conhecida como Lupina. Foi ela quem cuidou inicialmente do transtorno de múltiplas personalidades do filho de Xavier, o poderoso mutante conhecido como Legião, além de ter sido a pessoa que recebeu e ensinou uma série de informações sobre o passado quando Cable veio do futuro, traumatizado e sem nem sequer falar inglês. E também foi ela que tomou conta de Magneto quando ele foi revertido ao estado de uma criança, inclusive manipulando seu código genético para tentar evitar que o garoto se tornasse um vilão quando crescesse — bom, não precisa ser um gênio para descobrir que não apenas NÃO deu certo como o Mestre do Magnetismo ficou BEM puto da vida assim que descobriu o estratagema.

Moira chegou a tomar conta dos X-Men na ausência de Xavier; criou a sua própria superequipe na Ilha Muir quando o principal grupo X foi dado como morto; tinha inclusive o seu próprio time secundário de X-Men, que treinava em segredo numa localidade distante da escola principal; deu abrigo para o Excalibur na Ilha Muir e serviu de guia para a equipe; encarou de frente vilões como o Rei das Sombras e o Senhor Sinistro... Enfim, o currículo dela é extenso e vocês repararam que eu gosto bastante da personagem, né? ;)

O ponto é que, lá em 2001, teoricamente, Moira morreu. Dentro do jato dos X-Men, sendo levada pelo time em busca de ajuda depois de ser brutalmente atacada pelos terroristas Mística e Dentes-de-Sabre, que queriam que a cura do vírus Legado na verdade se tornasse um jeito de tornar a infecção diretamente focada apenas nos humanos. Sua morte mexeu pra valer com a cabeça do Xavier — até que em 2010, nove anos depois, no melhor esquema Marvel de ser, durante a esquecível saga Guerra do Caos, descobrimos que ela estava viva e que sua morte tinha sido forjada, usando um artefato do Império Shi’ar que criou uma forma para substituí-la ali naquela situação.

SPOILER! E é aí que o Hickman entra. Porque ele usou esta “volta do mundo dos mortos” como eixo central dos poderes que enfim descobrimos que Moira tem: a reencarnação.

Depois que morre, Moira retorna novamente ao passado, a partir do ventre materno, só que com todas as memórias de sua vida anterior. Além disso, vejam vocês, seu gene-X é indetectável ao longo de sua vida, o que lhe permite ter a camuflagem definitiva não só contra mutantes que têm a habilidade de encontrar outros mutantes, como o Caliban, como também contra o próprio Cérebro. Além disso, telepatas que tentarem ler sua mente verão apenas os acontecimentos de sua vida atual — eles só conseguem enxergar seu passado se ELA permitir e abrir seu cérebro para isso.

O que isso quer dizer, no fim? Que a Moira que conhecemos está vivendo a sua DÉCIMA vida. Justamente por isso, Moira X (sacou?). E que ela aprendeu a manipular o curso da história mudando suas próprias ações e afetando as pessoas e circunstâncias. Foi esta Moira, portanto, que conheceu Xavier inúmeras vezes, que colocou sua visão de uma existência pacífica entre humanos e mutantes à prova muitas vezes; que morreu do coração, queimada pelo Pyro, destroçada por um Sentinela e até empalada pelo Wolverine; e que radicalizou sua visão até o ponto de levá-la a procurar primeiro Magneto e o Apocalypse antes de sequer chegar em Charles Xavier. Até que finalmente ela teve uma visão de como trazer uma existência pacífica aos de sua raça. E quando abriu sua mente para Xavier, foram eles juntos, no passado, que construíram todos os passos que levariam à estratégia de reunir os mutantes como uma espécie única e unida sob a nação de Krakoa.

Hoje vivendo na região conhecida como No-Place, um lugar ao qual ninguém tem acesso dentro do território vivo que serve de lar para os mutantes, Moira quer usar seu conhecimento adquirido ao longo de dez encarnações para salvar aqueles como ela do futuro em que os humanos e as máquinas serão um só, a verdadeira “raça superior” que vai dominar a Terra. Mas é claro que a cientista também aproveita o lugar para fugir do julgamento vigilante da Sina, a mutante precognitiva que afirma que o ciclo de reencarnações de Moira é finito e que talvez ela tenha apenas 10 ou 11 possibilidades no total — mas se ela morre ANTES que suas habilidades mutantes se manifestem, aos 13 anos de idade, acabou. Finito.

De verdade, eu espero ver MUITO da Moira ao longo desta Dawn of X, o arco de lançamento dos novos títulos estrelados por mutantes. Uma personagem que ganhou vida própria, que ganhou camadas de significado mais complexas e interessantes, que se tornou uma das mutantes mais poderosas e influentes da Marvel. E que ainda brinca, de uma forma ou de outra, com a própria fama das duas grandes editoras de super-heróis sobre ninguém morrer de verdade. É quase como Hickman colocando os gibis de heróis para rirem de si mesmos.

Por mais atualizações deste tipo, hoje e sempre.