O que aconteceu ao cineasta do amanhã? | JUDAO.com.br

Quando o nome de Neill Blomkamp estourou, graças a “Distrito 9”, Hollywood acreditou ter encontrado um talento ímpar na forma do jovem diretor. Hoje, seis anos, um Elysium e um Chappie, a gente se pergunta se esperou por muito, ou se ele oferecia pouco.

Quando Distrito 9, o primeiro filme escrito e dirigido pelo sul-africano Neill Blomkamp, chegou aos cinemas, não demorou pra mandarem o nome do cara pro topo da pirâmide artística Hollywoodiana, povoada por seres poderosos, engravatados e milionários chamados “executivos”, e criando expectativas enormes em torno da figura do sujeito.

Tecendo uma crítica social inteligente ao apartheid e aos conflitos raciais vividos na África do Sul, por meio duma alegoria envolvendo alienígenas camaronescos (e não tô falando do carro, que me lembraria Transformers, brrr, calafrios) asilados na terra e segregados dos humanos, o filme era um respiro de ar fresco no gênero então estagnado da ficção fientífica.

Mais que isso,não era só uma reflexão bonita pra fã engajado de “cinema de arte”, não. Ao mesmo tempo em que funcionava com uma senhora crítica, Distrito 9 era um surpreendente espetáculo visual, que não ficava devendo a nenhum blockbuster por aí; recheado de momentos marcantes, sem pesar muito a mão no conteúdo intelectual, nem na ação. Além disso, era sensível, emocionante (muito graças à atuação do então desconhecido Sharlto Copley, bróder de fé de Neill). Era, dum ponto de vista comercial, na medida certa — que nem a merda que Jamie Foxx deixa pra Jake Gyllenhaal limpar em Soldado Anônimo — pra agradar crítica e público. E ele fez exatamente isso, rendendo milhões e colecionando indicações (incluindo 4 ao Oscar) e prêmios.

Blomkamp tava feito!

As críticas profético-elogiosas poderiam ter sido o principal motivo, mas a real é que os grandes estúdios viram que Neill transformou um curta metragem em mais de US$200 mi (a mão chegou a tremer) e logo pensaram no que ele poderia fazer com, por que não, US$150 milhões de orçamento inicial. Era a chave pro cara engatar seu segundo projeto autoral. Mas, aí, alguns probleminhas começaram a aparecer.

Blomkamp e Copley no set de Distrito 9

Blomkamp e Copley no set de Distrito 9

É importante entender que, embora possa parecer, Neill Blomkamp não surgiu do nada. Na real, Distrito 9 só aconteceu porque o cara já tinha estabelecido um certo nome nos bastidores, dirigindo comerciais para marcas grandes como Nike, Gatorade e aquele famoso da Citroën, com um carro/robô (onde já vi essa ideia mesmo? brrr²), conquistando contato com um senhor nome da indústria, um tal de Peter Jackson.

Lá por volta de 2007, PJ havia escalado Neill para a prestes a ser fracassada adaptação cinematográfica de Halo — aquele overhyped jogo de tiro em primeira pessoa da Microsoft — depois de assistir a uma trilogia de curtas inspirada no game, chamada Landfall, e a outros quatro, direto do portfólio do sul-africano. Conforme a água foi entrando no projeto do filme, Jackson, que serviria de produtor na aventura de Master Chief e seus soldados espartanos, resolveu produzir um dos projetos autorais de Blomkamp.

Assim, o curta-metragem Alive in Joburg, uma espécie de mini-doc fajuto sobre alienígenas com cara de molusco que acabam vindo para a África do Sul, evoluiu para Distrito 9 e enfim, Blomkamp, conseguiu. Eu, você e o mundo conhecíamos o cara. E esperávamos muito dele. Talvez até demais.

Seu segundo filme, Elysium, custou quase quatro vezes mais que Distrito 9. Com um elenco recheado de grandes nomes, como Matt Damon, Jodie Foster e Wagner Moura e, claro, Copley, mais uma vez, e um novo alvo pras críticas ferinas do diretor o filme tinha de tudo pra bombar. Mas não rolou.

Elysium parecia tentar reciclar os pontos de maior sucesso de seu antecessor, mas pecava ao perder seu foco no drama de muitos personagens, misturando uma boa trama central com outras pequenas desinteressantes. Além disso, o filme exagerava na quantidade de cenas de ação, perdendo ritmo e andamento com o que parecia ser uma forma de satisfazer os desejos comerciais dos grandes estúdios.

Enquanto a crítica especializada recebeu o longa de forma relativamente positiva — mas em consenso sobre a queda de qualidade narrativa de Blomkamp –, o público não foi tão paciente. Elysium, que custou US$115 milhões, rendeu pouco mais que o dobro de seu custo, decepcionando investidores e estúdio igualmente. “Eu fodi um pouco as coisas”, disse Blomkamp, no início desse ano, ao Uproxx. “Eu sinto que, no fim, a história não foi a correta. Ainda acho que a ideia satírica de um anel, cheio de gente rica, sobre uma Terra pobre, é sensacional”, conta. “Eu gosto tanto que eu quase quero voltar e fazer corretamente. Mas eu acho que o roteiro não tava... Eu só não fiz um filme bom o suficiente. Eu sinto que executei tudo que poderia ser executado, como figurino, cenários e efeitos, muito bem. Mas, no fim, tava tudo num sistema não muito bem definido, e o roteiro não tava lá; a história não tava totalmente lá”.

Era importante que o filme seguinte do diretor conseguisse resgatar ao menos um pouco mais daquela originalidade, sensibilidade e qualidade apresentadas em Distrito 9. Voltando-se a outro curta-metragem de sua época dirigindo comerciais, o fictício comercial Tetra-Vaal, veio Chappie.

Eu poderia definir Chappie de várias formas — nenhuma delas muito elogiosa –, mas acho que vou me contentar com: uma bagunça. O longa, que conta a história de um robô policial SENSÍVEL sendo criado (no sentido paternal/maternal, mesmo) por dois criminosos estúpidos, numa África do Sul onde as forças policiais foram automatizadas, já não oferece muito campo pra inovações, mas o texto de Blomkamp nem se preocupa em tentar qualquer raio de originalidade.

Tentando se decidir entre uma comédia pastelão, reflexão humanística ou um sangrento filme de ação, Chappie acaba sendo mais um sci-fi genérico. Enquanto Distrito 9 instigava o pensamento social de forma efetiva, e Elysium esfregava na nossa cara uma realidade, ainda que um pouco fora de foco, Chappie não consegue encontrar um só tema. No primeiro ato do filme, várias questões são levantadas: a automatização policial, o conceito de certo e errado, os avanços tecnológicos/inteligência artificial, a relação criador e criatura, etc. E não só nenhum deles é inovador (nem perto), como nenhum deles é respondido. Da metade pro final, o filme vira uma composição de puro atalho de roteiro e espetáculo visual.

Se fosse apresentado em algum festival europeu alternativo, como primeiro trabalho de algum diretor estreante, o filme poderia até ser visto de forma mais positiva. Mas, carregando a assinatura do cineasta outrora celebrado por sua inteligência e inovação, o filme acaba expondo só uma dura realidade: Neill Blomkamp tem contado a mesma história há três filmes, caindo de nível gradativamente a cada um deles, e recorrendo cada vez mais a maneirismos cansativos.

Chappie

Blomkamp afirma que não sente nenhuma pressão em fazer um filme tão bom ou melhor que Distrito 9. “Digamos que você faça Distrito 9 e ele funcione. Então, um diretor normal fica ‘Putaquepariu, eu tenho toda essa pressão porque meu último filme foi bem e eu espero que esse fique no mesmo nível’. Eu não tenho essa coisa. Definitivamente, isso não me incomoda”. Mas se isso não emperra seu desempenho, será que simplesmente exigimos genialidade de alguém só... bom?

Depois de três projetos autorais seguidos, Neill terá agora um novo problema pela frente: conseguir submeter-se aos caprichos de um grande estúdio ao assumir a direção de uma grande franquia. Escalado para dirigir o quinto filme da saga Alien — que deve funcionar como sequência direta pra Alien 2, calma — ele terá de evitar que conflitos similares aos que vitimizaram o projeto de Halo, com a Fox (o diretor já admitiu publicamente que a pré-produção do longa foi um inferno, e que sua relação com o estúdio deu ruim pouco antes do filme flopar).

Se der certo, Alien 5 pode representar não só o renascimento de uma das maiores franquias da história do cinema e da ficção científica, como de um potencial grande cineasta do gênero. Os fãs de bons filmes agradeceriam.