O que estava destinado pra ser enfim acontece: Bone vai virar série animada | JUDAO.com.br

Linda obra do quadrinista Jeff Smith será adaptada para o Netflix, no formato que tanto o autor quanto seus leitores obviamente concordam que é o mais adequado ;)

A revista Time não poupou palavras: ao dizer que se tratava de uma das 10 melhores graphic novels de todos os tempos, cravou que era “tão arrebatador quanto Senhor dos Anéis, mas muito mais engraçado”. Um verdadeiro clássico das HQs, Bone é uma publicação 100% independente, pioneira nas produções contemporâneas para o público infantil e do tipo que jamais subestima a inteligência de sua audiência. Tanto é que, desde que foi lançada, em Julho 1991, a série (sonho da vida do quadrinista Jeff Smith) faturou nada menos do que 10 Eisner Awards e 11 Harvey Awards.

E agora, finalmente, depois de muitas idas ao longo dos últimos anos em Hollywood, vai ser adaptada — mas nada de telona. Bone vai virar série animada no Netflix, com direito até à supervisão direta do próprio autor. “Eu esperei por isso um longo tempo”, afirmou ele, em comunicado oficial. “Netflix é a casa perfeita pro Bone. Os fãs das publicações originais sabem que a história se desenvolve capítulo a capítulo e livro a livro. Uma série animada é a maneira exata de trabalhar! O time do Netflix entende perfeitamente o Bone e está comprometido a fazer algo especial — isso são ótimas notícias para crianças e amantes de desenhos animados do mundo todo”.

Uma mistura de comédia e thriller de dark fantasy, a HQ contínua que teve ao todo 55 edições entre 1991 e 2004 começou a surgir da cabeça de Smith aos 5 anos de idade, quando os primeiros desenhos dos protagonistas surgiram ainda no chão da sala de sua casa. Aos 10 anos, Jeff então começou a produzir as primeiras histórias estreladas por eles. Inspirado pelo Tio Patinhas de Carl Barks, pelo Charlie Brown/Snoopy de Charles Schulz e principalmente pelo Pogo de Walt Kelly, o cartunista só percebeu que DE FATO dava pra contar uma boa história com começo, meio e fim nos gibis, algo que fosse artística e comercialmente viável, depois que leu O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e Maus, de Art Spiegelman. Ali o caminho se pavimentou.

“Descobri um mundo completamente novo; não eram os gibis da minha infância – séries de super-herói infinitas produzidas a toque de caixa por um desfile interminável de desenhistas e roteiristas”, afirmou ele num artigo publicado pelo site da editora Todavia. “Nessas lojinhas especializadas e apertadas, que mais lembravam um sótão bagunçado, lá no meio das revistas, dos livros de tatuagem, da pornografia, da parafernália do underground e de gibis velhos, onde só colecionadores tinham coragem de pisar, a arte dos quadrinhos ainda pulsava. O talento e a energia que se via lá eram um espanto: equiparavam-se a qualquer era dourada das tiras ou dos gibis!”.

Na faculdade, chegou a publicar uma tira no jornal estudantil chamada Thorn, que trazia alguns dos personagens que anos mais tarde apareceriam em Bone. Mas assim que saiu, depois uma carreira até que bem-sucedida no mercado de animação, montou oficialmente a sua empresa, Cartoon Books, para publicar a série, naquele esquema de autopublicação, no peito e na raça, fazendo a distribuição, respondendo cartas de leitores, cuidando de fornecedores e estoque. Ele sentiu que não tava rolando, que isso prejudicava o desenvolvimento artístico, e aí foi convocar a pessoa em quem mais confiava para o papel de presidente da Cartoon Books: sua esposa, Vijaya. Ela topou largar o trampo numa startup do Vale do Silício para apostar em Jeff. E fez a aposta certa.

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A série se centra nos três primos Bone, personagens BEM cartunescos e de traço simples, meio que três fantasminhas brancos. Eles acabam expulsos de Boneville, sua terra natal, depois da tentativa frustrada do ganancioso Phoncible P. “Phoney” Bone, o mais velho, o manipulador, se candidatar a prefeito e enfurecer os aldeões. Ao seu lado estão o atrapalhado Smiley Bone (pouco inteligente, sempre fumando e tocando seu instrumento) e seu eterno parceiro Fone Bone, o cara comum, o aventureiro, o corajoso, grande herói da história, completamente apaixonado por seu livro Moby Dick.

Depois de serem separados por um tempo, graças a um desconhecido deserto, eles acabam se reencontrando numa taverna e conhecem a misteriosa Thorn Harvestar e sua avó, Gran’ma Ben, que se tornam personagens recorrentes ao longo dos capítulos.

Ao longo de suas aventuras no Vale, eles vão conhecendo não apenas os humanos como outras criaturas — inclusive o grande vilão, o Senhor dos Gafanhotos. Não demora até que eles se vejam em meio a uma jornada justamente para salvar o Vale, este lugar quase medieval, bastante diferente da “modernidade” sugerida de Boneville, que tem seus livros, dinheiro e lanchonete, a cidade que nunca é mostrada mas sempre decantada.

Vijaya, Jeff Smith e Bone

Vale lembrar que, da mesma forma que acontece (ou pelo menos aconteceu) com 99% das propriedades intelectuais bem-sucedidas do mercado americano, Bone também teve suas conversas prévias para uma adaptação. Lá pelo final dos anos 1990, por exemplo, a Nickelodeon Movies trocou uma ideia com Smith para transformar o gibi em filme, mas nunca aconteceu. Numa entrevista pro AICN, anos depois, ele deu mais detalhes sobre o motivo de não ter rolado. A ideia era focar totalmente numa audiência infantil, o que Smith meio que já esperava. O que ele NÃO esperava era que os Bones fossem ser dublados por crianças (eles são adultos, é bom que se lembre, e esta é uma das graças da história). Que Fone Bone tivesse “luvas mágicas”. E, claro, teve a questão da música.

“Foi muito legal com a Nickelodeon. Foi muito divertido com os executivos com os quais trabalhamos. Mas um dia, depois do almoço, sentamos com um deles, que me disse: ok, podemos conseguir US$ 12 milhões agora mesmo se colocarmos uma música pop no filme. Você enxerga algum lugar no filme onde dê pra colocar uma canção da Britney Spears ou do N’Sync?”, conta Jeff. “Vijaya e eu nos olhamos e dissemos: não. Quero dizer, não era o tipo de filme que a gente queria fazer. Você não pede pra colocar uma música da Britney Spears no meio de O Império Contra-Ataca ou O Senhor dos Anéis. (...) As coisas degringolaram bem a partir daí. Eu virei de ‘diretor’ e roteirista’ para ‘o criador sendo superprotetor com seu bebê'”.

“Eu gosto da Britney Spears”, faz questão de destacar ele. “Eu gosto de cultura pop, gosto de Madonna e Michael Jackson tanto quanto qualquer um gosta. Mas o filme que eu queria fazer era algo muito diferente”.

Aí, lá por volta de 2008, veio o acordo com um filme pra Warner, que comprou os direitos e estava pensando minimamente numa franquia, uma trilogia, aquela coisa. Em certo momento, Patrick Sean Smith (criador da série Greek) chegou a ser contratado para escrever o roteiro, enquanto PJ Hogan (O Casamento de Muriel) se sentaria na cadeira diretor. A informação mais recente, lá de 2016, antes do projeto ser dado como encerrado, colocava Adam Kline (Artemis Fowl: O Mundo Secreto) como responsável pelo roteiro enquanto Mark Osborne, de Kung Fu Panda, dirigiria, tudo sob o chapéu da Warner Animation Group. Como você deve ter reparado, nunca aconteceu.

Pouco depois de Bone se encerrar oficialmente, lá em 2004, a prestigiada editora de livros infantis Scholastic Books entrou em contato Smith. Disseram que fazia anos que eles vinham ouvindo falar de Bone através de bibliotecários e pais, as crianças amavam. Então, a Scholastic propôs que Bone lançasse uma nova linha de graphic novels chamada Graphix: o plano era republicar todas as coletâneas do personagem a cores. A ideia de dar cor pra Bone veio de ninguém menos do que Art Spiegelman. “Se Maus é em preto e branco, perguntei a ele, por que Bone deveria ser colorida? A resposta de Art foi: Maus trata da guerra e do holocausto, tinha que ser em preto e branco. Mas Bone trata da vida, e não estará terminada até sair colorida”, explica Jeff.

Aqui no Brasil, Bone foi publicado na íntegra pela primeira vez na história em Setembro. A Via Lettera chegou a lançar em preto e branco, mas nunca completou. Depois foi a vez da HQM Editora, que optou por edições em cores mas também jamais chegou ao sim. Agora, a editora Todavia já lançou dois volumes, Bone – Volume 1 – O vale ou Equinócio vernal, que saiu no final do ano passado, enquanto Bone – Volume 2 – Phoney contra-ataca ou Solstício rolou por volta de Abril. O terceiro e último volume, Amigos e inimigos ou colheita, reunindo os arcos de histórias publicados originalmente entre Bone #38 e #55, foi oficialmente lançado no começo deste mês, bem como Coleção Completa Bone.